segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Infância


Ao contrário da maioria das crianças de sua idade, preferia as noites. Gostava muito daqueles pontinhos brilhantes espalhados pelo céu. Sabia que as estrelas tinham nomes, mas como não os conhecia, rebatizava-as. Vênus ganhou nome de Lanterna, Sirius era Olho de Boi, e assim ia nomeando as mais brilhantes. Dormia perto da janela, pelas frestas, mirava o céu até adormecer.
 A lua era sua companheira, nas noites que ficava grandona gostava de ficar olhando-a e imaginando a cena antológica  de São Jorge matando o dragão, entalhada na superfície lunar. Imaginava a batalha minuciosamente até pegar no sono.
 Não gostava de noites chuvosas. Era como se colocassem um venda em seus olhos, e sentia muito a  falta das estrelas.  Haviam os relâmpagos, mas não eram a mesma coisa.
Tinha sete anos, era magricela, e possuía um par de olhos fundos, de uma cor difícil de definir. Trazia os cabelos sempre curtos Como não gostava de pente, era a única forma encontrada pela mãe de manter os piolhos, tão comum entre as crianças, bem longe.  
Os irmãos mais velhos, todos crescidos não lhe davam muita bola, o caçula, era muito pequeno e mimado.  A mãe estava sempre ocupada em seus afazeres, e o pai vivia trabalhando, saía de casa  muito cedo e  chegava quase sempre a noitinha.  Naquela casa conversa-se só o essencial.  Se refugiava no quintal, pois era lá que sua  tagalerice vinha à tona. Soltava a imaginação, e assunto é que não faltava com seus amigos imaginários. Não foram poucas às vezes em que a mãe, lá de dentro da casa gritou e perguntou se havia mais alguém fazendo-lhe companhia.
Nascera  naquela fazenda, seu mundo era ali. Imagina-se que seja pequeno, mas como era vasto! A grandeza daquele lugar não a impediu de buscar conhecer cada cantinho, por mais escondido que fosse. Córregos, ladeiras, grotas,  cada ninho de passarinho, cada casa de joão-de-barro. As árvores eram divididas em duas categorias: as subíveis e as não subíveis, pois algumas, só os pássaros conseguiam chegar aos galhos mais altos. Adorava encontrar os lugares onde os vaga-lumes ficavam escondidos durante o dia,  para  onde passarinhos iam quando a chuva caia, de onde vinha a água transparente que corria pelo seio da  mina,  e os peixinhos que apareciam dentro do poço, sem ninguém tê-los colocado lá, e onde era a saída dos vários buracos de tatus espalhados pelos barrancos da fazenda.  Em seus planos também estava descobrir para onde a lua ia quando desaparecia depois de ficar fininha, da grossura de uma unha cortada.
Com oito anos, foi para a escola pela primeira vez. Aprendeu a ler primeiro que todos os outros da sua idade. Seus olhinhos brilhavam cada vez que fazia uma nova descoberta. Quando chegava em casa, arrastava os cadernos para onde ia. Como dentro da casa não possuía um cantinho para chamar de seu, passava horas,  na sombra de uma mangueira, com um livro no colo.  Com a leitura, descobriu que não precisaria ir muito longe para desbastar terras longínquas, e que em noites chuvosas também há estrelas. O seu mundo que já era grande, agora seria infinito!

Você já levou um teletequi?


A linguagem  é algo vivo, que se transforma com o tempo.  O nosso português, segundo os dicionários oficiais, possui mais de meio milhão de palavras que  às vezes não são suficientes para expressar o que queremos.
Na literatura ou em nosso dia-a-dia podemos ter o prazer de ler ou mesmo de ouvir palavras que não constam em um dicionário. São chamadas de neologismos.  Palavras são “criadas” por derivação prefixal e sufixal, abreviação, justaposição e aglutinação.  É como se a língua fosse uma colcha de retalhos, junta-se peças de formas e cores diferentes e no final forma-se um belo desenho. Desde o Modernismo, a liberdade de expressão e criação permitiu que encontrássemos em nossa literatura: o “vagamundear”, o “respeitabundo” de Oswald de Andrade, o  “cachacista”, o “apenasmente”, de Dias Gome, o “nonada”,o “Sagarana” de Guimarães Rosa, e  o “coracional”, e “pluvimedonha” do  Drummond, dentre tantos outros.
Porém, se a língua é viva, e a escrita é um reflexo da fala, devemos procurar  os maiores “ tesouros da neologia” (será que criei uma expressão nova?) nas rodas de conversa, no dia-a- dia. Mais precisamente é na boca do povo que podemos encontrar relíquias nunca antes catalogadas.
Há palavras tipicamente regionais. São usadas em regiões específicas do país. Quem nunca ouviu falar do mineirês,  do  goianês, da fala típica dos nordestinos? E ainda se formos mais a fundo,  há aquelas  que pertencem a uma pessoa, em particular, como se fossem personalizadas. Só um indivíduo  fala  e consegue se fazer entender pelas pessoas de seu redor.
Tive o imenso prazer de conviver com um usuário dessa linguagem  personalizada.  Minha mãe, Dona Jaci. Ela, uma autêntica goiana, filha de mineiros, sempre foi uma mãe exemplar e carinhosa, que vez ou outra saía com uma palavra nova. Procurei no dicionário, no Google, não encontrei nada. Algumas nem um radical catalogado possuem. As palavras realmente eram dela, ou nossa, já que herdei algumas.  
“Suas palavras” não foram criadas aleatoriamente, seguem um padrão. E analisando-as pragmaticamente,  evidenciou-se o óbvio. Ela sempre as usava quando estava contrariada, com raiva. Pelo menos, é o que eu, sua mais atenta ouvinte, pude perceber.
Selecionei algumas delas, e o contexto em que eram usadas.
Salamploro:  este adjetivo era atribuído aos homens da casa, sempre que não comiam na hora certa,  deixavam roupas espalhadas, chegavam atrasados (os desmandos masculinos típicos, quem é casado, e quem mora com irmãos adultos sabe o que quero dizer.)
Teletequi: sinônimo de palmada, de surra. Quando a gente estrapolava na bagunça, ouvíamos sempre a frase: “Vocês tão precisando de uns teletequi, meninada!” Ficava só na ameaça, nunca nos batia! Os “teletequi”, tomei e ainda tomo ainda da vida...
Bussaina:  me lembro a primeira vez que ouvi esta. Ela deixou  cair por acidente uma leiteira de leite no chão da cozinha que tinha acabado de limpar. Imaginem a bagunça!  Falou bem alto:   “Mais que bussaina!” Acho que ela ia soltar um daqueles, resolveu no meio do caminho e acabou  criando uma nova palavra, ou palavrão, sei lá!
Incaficionado: vivíamos na roça, tudo era velho e quebrava constantemente. Era o adjetivo que ela usava para a geladeira, fogão, televisão e tantas outras coisas que viviam com defeito. E como todo adjetivo, concordava em gênero (não em número, pois plural para goiano é só para os artigos) com o substantivo: “A incaficionada dessa geladeira velha tá com defeito de novo!’
Purgante jalapa: quem mais poderia ser chamado disso? Nós, que além de sermos purgantes, não éramos  qualquer purgante, tínhamos  o diferencial de sermos jalapa!  Sempre na hora da birra, da insistência comum das crianças, ela  nos chamava disso.
Estes são os mais populares, que ela dizia com mais freqüência, todos nós temos nosso dicionário internalizado, e a ele que recorremos toda vez que vamos nos expressar, e o dela em especial, era bem mais vasto do que o meu.
Realmente, a linguagem é algo incrivelmente atraente! Encerro, com um poema do Bandeira, e prometo voltar falando das expressões que ouço por aqui!  Um grande abraço!
NEOLOGISMO
Manuel Bandeira

Beijo pouco, falo menos ainda.
Mas invento palavras
Que traduzem a ternura mais funda
E mais cotidiana.
Inventei, por exemplo, o verbo teadorar.
Intransitivo:
Teadoro, Teodora.