domingo, 13 de dezembro de 2009

Minha cidade - Cora Coralina

                                                                                                                                                                                     
"Minha querida amiga Cora Coralina: Seu "Vintém de Cobre" é, para mim, moeda de ouro, e de um ouro que não sofre as oscilações do mercado. É poesia das mais diretas e comunicativas que já tenho lido e amado. Que riqueza de experiência humana, que sensibilidade especial e que lirismo identificado com as fontes da vida! Aninha hoje não nos pertence. É patrimônio de nós todos, que nascemos no Brasil e amamos a poesia ( ...)."

 Carlos Drumond de Andrade

BIOGRAFIA
• Aninha
Ana Lins dos Guimarães Peixoto nasceu em 20 de agosto de 1889, na Casa Velha da Ponte. Filha do Desembargador Francisco de Paula Lins dos Guimarães Peixoto e Jacita Luiza do Couto Brandão. Cora, ou Aninha (apelido para seu nome de batismo), estudou apenas até a terceira série primária. Aos 14 anos escreveu seus primeiros contos e poemas. A poetisa apareceu no cenário literário local na adolescência, quando participou, com outras escritoras locais, da elaboração do jornal A Rosa, em 1907. Em 1910, aos 21 anos de idade, escreveu o conto Tragédia na Roça, que foi publicado no Anuário Geográfico e Histórico, assim, tornou-se conhecida por vários críticos da época pelo pseudônimo Cora Coralina que passou a fazer uso neste meio.É dessa primeira fase de sua vida que Cora extraiu as memórias que compõem a maior parte de seus poemas. É como Aninha que Cora se auto-nomeia e é através de seus olhos inquietos de criança que surgiria um futuro olhar poético.
• Cora Bretas
Em 1910 Cora se casa com Cantídio Bretas. Em 1911, parte, já grávida de sua primeira filha, para São Paulo. Nessa fase de sua vida, Cora assume o papel de mãe e dona de casa, entrando em uma nova etapa de sua vida. Cora teve 6 filhos e ficou 45 anos morando no estado de São Paulo. Cantídio faleceu em 1934. Já viúva, aos 67 anos de idade, voltou à sua cidade natal.
Cora Coralina morou nas cidades de Jaboticabal, São Paulo, Penápolis, Andradina. Nunca voltou a Goiás durante esse tempo. Em Jaboticabal , Cora Coralina trabalhou, com sucesso, comercializando flores (principalmente rosas); também participou da criação da Assistência Beneficente Social de Jaboticabal, fundada pela Associação das Damas de Caridade; em São Paulo, abriu uma pensão – considerando que ela cozinhava bem e tinha contatos na cidade; em Penápolis, se envolveu com a venda de vários tipos de mudas de árvores, o que contribuiu para campanhas pró-arborização nas cidades vizinhas, e com comércio de tecidos e aviamentos. Ainda em Penápolis, sua vida foi ligada ao Santuário São Francisco de Assis, onde ela se sentiu plenamente integrada aos valores franciscanos; em Andradina ficou conhecida por todos devido a sua ligação com a terra. Dona de um sítio conhecido como Casinha Branca em Castilho (um pequeno vilarejo ao lado de Andradina), ela fez um bonito nome de chacareira, vendendo verduras, legumes e lingüiça de porco feita e temperada por ela mesma.
• Cora Coralina
Sua poesia tornou-se conhecida e valorizada, nacionalmente, principalmente depois de publicados os dizeres de dois escritores sobre sua pessoa: Osvaldino Marques - escritor maranhense, que escreveu o artigo ‘Cora Coralina, professora de existência’, na década de 70, e Carlos Drummond de Andrade, que na década de 80, lançou a famosa mensagem pública declarando ser ela a pessoa mais importante de Goiás. É nesse momento que Cora Coralina surge como escritora.
Seu primeiro livro só foi publicado em 1965, aos 76 anos. É uma história de vida contada na perspectiva de uma mulher que, só no fim da vida, encontrou na poesia o devido espaço para expressar, com singularidade, suas percepções sobre o tempo em que viveu. Ela se mostra, principalmente neste momento de sua vida, uma mulher independente nas idéias e atitudes.
Cora Coralina faleceu em 10 de abril de 1985, em Goiânia, tendo sido o seu corpo levado para Goiás, onde se encontra no Cemitério São Miguel. Sua poesia permanece mais viva do que nunca, na memória de muitos que admiram a sua história.

Quando eu morrer, não morrerei de tudo.
 Estarei sempre nas páginas deste livro, criação mais viva
Da minha vida interior em parto solitário.


(Vintém de cobre ‘Meias Confissões de Aninha’, p.52, 8°ed., 1996)

Um olhar sobre JJ veiga


 José Jacintho Pereira Veiga (1915-1999) era goiano de Corumbá de Goiás, dizem dever a escolha de seu nome literário à ajuda de Guimarães Rosa que, com argumentos tirados da numerologia e estilísticos, sugeriu: José J. Veiga, na altura da publicação do livro de estréia "Os Cavalinhos de Platiplanto", em 1959.
O goiano publicou vários livros: "Sombras de Reis Barbudos", "A Estranha Máquina Extraviada", "Objetos Turbulentos", "De Jogos e Festas", "A Usina Atrás do Morro", "Aquele Mundo de Vasabarros" e "Os Pecados da Tribo", entre outros. A crítica não entra em um consenso quanto à classificação de sua obra: já foi chamada de regionalista goiana, conto rural, realismo mágico, fantástico, alegórico, entre outras classificações. Também experimentou vários gêneros, desde o conto, a novela, o romance , até a fábula. Teve seus livros lançados nos Estados Unidos, Inglaterra, México, Espanha, Dinamarca, Suécia, Noruega e Portugal. Ganhou a versão 1997 do Prêmio Machado de Assis, outorgado pela Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto de sua obra. Morreu no Rio de Janeiro, com 74 anos.
Veiga faz proveito das paisagens goianas em sua obra, além de tipos, linguagem e costumes locais, porém em um plano mais de invenção que de relato, pois apesar de privilegiar espaços do meio rural, pequenos povoados de Goiás, onde buscava histórias sobre o homem oprimido por violências de diferentes tipos de poder, a sua individualidade se afasta do regionalismo, indo além. Como diz Agostinho (1990), possui estilo próprio, pois parte do regionalismo, num conceito menos restrito, e envereda para o fantástico moderno. Ele via a realidade mais profundamente, enxergando suas camadas mais profundas. Contempla temas contemporâneos, como a relação de opressão e invasão do campo pela cidade tratados em um universo que pode estar em qualquer tempo e lugar, mas sempre em cidades e povoados pequenos.
O seu conto  “ A Máquina Extraviada” é uma narrativa que a partir da observação de um narrador, conta o desenrolar de uma situação vivida por personagens típicos do cotidiano, em uma cidadezinha pacata e interiorana. O leitor se depara com um mistério. Uma máquina foi extraviada de seu destino, não se sabe por quem, e nem por que, e é descarregada e deixada em frente à prefeitura de uma cidadezinha do interior, que tem todo o seu cotidiano transformado com a presença do tal artefato. O autor está falando alegoricamente sobre a invasão do novo, do diferente, das novas descobertas tecnológicas, O fascínio que as pessoas em geral têm pelo desconhecido, pelo inexplicável e como tudo isso pode mudar a vida das pessoas.
Na narrativa, o narrador dirige-se a seu compadre, que é familiarizado com o lugar onde os fatos acontecem, e que sempre pergunta sobre as novidades. Entusiasmado, por ter uma novidade importante para contar, relata o acontecimento que mudou o cotidiano da cidade. Uma máquina, desmontada, sem uma significação concreta, é deixada na porta da Prefeitura. Os únicos que poderiam dar uma explicação para o acontecimento, seriam os entregadores, porém não deram “abertura” para que a população local fizesse as perguntas necessárias para desvendar o mistério, indo embora sem dar nenhuma explicação. Apesar de serem “apenas” os entregadores da máquina, esses homens se sentem acima dos moradores locais, ignorando-os. Tal atitude é previsível diante da hierarquia do progresso, eles se sentem privilegiados e vêem os outros como inferiores. O que supostamente possui maior acesso às novidades, direta ou indiretamente, oprime os que vivem a margem do progresso.
Deixada ali, coberta com uma lona, que foi retirada na primeira oportunidade pelas crianças, a novidade atrai a atenção de toda a cidade, desde o prefeito, que incumbiu um funcionário para manter sempre polida as engrenagens, e um beberrão que ficou preso nas ferragens da máquina, após uma bebedeira, o que causa a amputação de sua perna. Com isso, ele usa o seu tempo livre para cuidar da máquina e poli-la. As crianças são mais suscetíveis às mudanças, se adaptam mais rapidamente e são “presas” mais facilmente às novidades, juntamente com os jovens. Veja que são elas que tiram a lona que encobria o objeto, levando ao conhecimento de todos o que estava encoberto. São elas quem se familiarizam primeiro, que tocaram primeiro, seja pela simples curiosidade infantil e pela facilidade que têm em assimilar o novo. Até o homem mais corajoso da cidade, conhecido como derrubador de bois pelos chifres, respeita a seu modo a máquina. O encanto chega até nas velhinhas, que quando passam pela máquina a caminho da igreja, fazem uma espécie de reverência com a cabeça. O único que se mantêm imune ao acontecimento é o padre, chamado pelo narrador de velho ranzinza. A única pessoa em uma cidade que demonstra uma aversão à máquina, o padre nos remete a uma pequena parcela diferente da sociedade que tende a negar o que é novo. Pessoas arraigadas à tradição, avessas às novas tecnologias.
A estranha máquina se torna objeto de adoração, até milagres lhe são atribuídos. Um monumento que muda as conversas, os hábitos da cidadezinha. O povo simples, fascinado pela novidade, inicia uma espécie de culto à máquina. Tudo o que acontece de importante na cidade, acontece ali, aos pés da máquina. O universo interiorano entra em choque com a invasão da máquina , acarretando um estranhamento cultural. A aparição do inusitado, do diferente causa uma quebra na linearidade dos acontecimentos locais. A simples ameaça de terem levado dali o objeto de adoração, causa receio à população. Mesmo sem apresentar um propósito real para que veio: a única vez que teve suas engrenagens funcionando foi acidentalmente, que causou uma amputação a um morador da cidade, alegoricamente denotando que nem sempre as máquinas funcionam como deveriam, ela causa um fascínio, um efeito sedutor, que suga para si a atenção das pessoas. A máquina transcende o inanimado, o inerte, tornando -se algo encantado. Exerce um domínio sobre as pessoas do lugar, domínio este que chega até as cidades vizinhas. Já existe um movimento para levá-la a monumento municipal, “por enquanto”, como diz o narrador.
Segundo Agostinho (1990), o evento novo que poderia ser apenas imprevisto, passa a exercer a função de revelador de um processo em uma sociedade. Esse evento causa tamanho impacto que revela outra face desta sociedade. Uma sociedade que se apega a valores e a coisas, uma sociedade que se deixa envolver, oprimir pela novidade, que adora um objeto só pelo fato dele ser diferente, novo, desconhecido. Como Bosi (1984) afirma, o evento novo que poderia ser visto apenas como imprevisto, exerce a função de revelador de um processo de transformação. A sociedade local se sente submissa ao progresso, aqui representado pela máquina. Há uma espécie de conflito de culturas, de um lado o mundo conservador, equilibrado, do povoado, de outro o mundo que vem do ambiente urbano, representado no conto pela máquina, que invade, contesta, manipula e oprime. Neste embate, há uma espécie de aculturamento. A cidadezinha nunca mais voltará a ser o que era depois da chegada da “máquina”. Tudo isso faz parte de uma temática de rejeição à modernidade tecnológica, vista como uma invasão sofrida principalmente pelos povos subdesenvolvidos, pelas classes menos abastadas e pelos que habitam longe dos grandes centros.
J.J.Veiga apresenta uma verdade coberta de fantasia, uma sátira disfarçada. Do corriqueiro, cenas tiradas do contexto cotidiano, do regional ele extrai situações inusitadas, chegando ao campo do insólito do fantástico, como “endeusar” uma máquina abandonada em frente ao prédio de uma prefeitura de uma cidadezinha interiorana, adorá-la como um ídolo:” Dizem que a máquina já tem feito até milagre...” .
O conto data de 1967, porém o seu tema é atualíssimo: o deslumbramento do homem perante as máquinas, a opressão que as novas tecnologias exercem sobre uma sociedade. Nenhuma nova invenção tecnológica surge impunemente. A tecnologia tem um poder transformador que transcende os seus limites. Desde hábitos do cotidiano, até a nossa própria linguagem, concepções de liberdade, a maneira de pensarmos e de agirmos. A sociedade é levada às mudanças, como uma ave para o laço, sem nos dar conta, na maioria das vezes. Isso acontece diariamente. As pessoas vivem em uma condição de reféns da tecnologia. A cada dia se tornam mais dependentes dela. Ao ponto de uma queda de energia fazer parar uma cidade de um milhão de habitantes.
J. J. Veiga percebeu que a sociedade está refém do novo. Como continua sendo hoje refém da “última geração”, seja disto ou daquilo (celular, carro, relógio), ela vive escravizada pela última moda, pelo consumismo. Uma opressão silenciosa, que age cautelosamente, com maior ou menor densidade atinge diversas camadas da sociedade (senão todas). Poucos estão imunes, só alguns, assim como o vigário do conto, que se recusa a aderir ao movimento.
O impacto causado por algo novo, diferente, em uma população acostumada com as grandes novidades tecnológicas é grande. Imagine em uma pacata cidadezinha interiorana , onde o tempo parece não passar, onde não há novidades importantes. Mesmo ali desmontada, sem desempenhar a função para qual foi construída, exerce poder sobre as pessoas.
Antes de anunciar uma ameaça à sociedade local, esse relato prenuncia a uma beleza poética que acena para uma verdade original, a ameaça que pesa sobre o homem, não vem, em primeiro lugar, das máquinas e equipamentos técnicos, cuja ação pode ser eventualmente mortífera, mas do próprio homem que está por detrás destas máquinas.
O contista goiano J.J. Veiga é conhecido como um autor criador de contos fantásticos e absurdos. Mas um de seus temas recorrentes é a retratação da relação de opressão e invasão do campo pela cidade. Como o novo que vem de fora sobrepõe a tradição das pequenas cidades. O novo oprimindo o antigo, o tradicional. Ele trabalha com o universo interiorano, e a sua população simples, que se vê transformada mediante a chegada de algo que vem de fora.


SOUZA, Agostinho Potenciano. Um olhar crítico sobre nosso tempo. Campinas: Unicamp, 1990.
VEIGA, José J. A máquina extraviada. In: A estranha máquina extraviada. 11. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002.

A NATUREZA E O HOMEM EM “NINHO DE PERIQUITOS” DE H. C. RAMOS

A palavra Ecologia etimologicamente vem da junção de duas palavras gregas: Oikos, que significa: habitação, e leguein, a aportuguesada  “logia”, e quer dizer tratamento sistemático de um tema. Ou seja, falar de ecologia, é falar de nossa habitação maior, como dizem na biologia, nosso habitat: a natureza.
A relação entre Literatura e Ecologia não é algo novo, pois podemos encontrar em textos literários , desde os mais remotos, a ligação entre homem e natureza.
Para o presente trabalho escolhi o conto “Ninho de Periquitos” do escritor goiano Hugo de Carvalho Ramos (1895-1921). A escolha se deu pelo fato de que ao ler seu livro de contos “Tropas e Boiadas”, me deparei com um autor que tinha grande apreço pela natureza, especialmente pela fauna e flora de nosso estado. Seus contos estão “recheados” de periquitos, marias-pretas, urutus, manjericões, sucupiras, ingazeiras, tatus, e outros animais e árvores tão familiares aos goianos que cresceram no interior do estado. Ao lê-lo pude ter contato com as raízes de nosso estado, de nosso povo, como era a relação entre homem e esta natureza, em outros tempos. Alfredo Bosi diz que os contos de Tropas e boiadas, revelam plena aderência aos mais variados aspectos da natureza e da vida social goiana que reponta vigorosa em toda parte. É por isso que ao ler “Tropas e Boiadas” podemos tirar conclusões de como era, de como é, e de como será nosso sertão. O livro reúne vários contos, Ninho de Periquitos foi o escolhido pelo fato de fazer parte das histórias que eu ouvia na infância. Um homem, que cortou a própria mão após nela ser picado por uma serpente cuja peçonha lhe seria letal.
O conto fala de Domingos, um homem da terra, que dela tira tudo o que precisa. Que no dia do aniversário de seu filho Janjão, vai lhe buscar como presente, filhotes de periquitos, que estão em um ninho localizado dentro de um cupim abandonado. Ao enfiar a mão no buraco que dá acesso ao ninho, é picado na mão por uma cobra que possui veneno letal. Domingos, antes que o veneno se espalhe pelo seu corpo, decepa a própria mão com um golpe de foice.
É um conto regionalista, onde estão presentes os costumes de uma época e lugar. Os indícios do tema “natureza” já são percebidos no título: Ninho de Periquitos. Periquito é uma ave típica do cerrado, que faz seus ninhos em buracos de árvores, e em outras cavidades abandonadas encontradas no cerrado. Faz ainda parte da cultura de alguns grupos sertanejos capturar seus filhotes utilizá-los como animais de estimação.
A narrativa segue do começo ao fim enumerando e descrevendo aspectos da vida de um sertanejo. Os fatos se iniciam já no virar da tarde de um domingo quente de verão, no qual Domingos após se alimentar de uma “ cuia de jacuba de farinha de milho e rapadura” e se entreter dando “uns respondos na viola” em sua “rede de embira” se levanta e vai afiar sua foice em uma pedra. Podemos perceber que nesta série de elementos que compõem a cena descrita, apenas dois não são extraídos diretamente da natureza: a viola e a foice. Ele retira dela seu alimento: a farinha de mandioca e a rapadura, sua rede de embira (uma fibra retirada de folhas de plantas como a bananeira e a palma) , e ainda a pedra que afia a foice. Isso nos mostra a relação de dependência que tem Domingos com relação à natureza. Dependência esta, que é reforçada no decorrer da narrativa: “[...] véspera da colheita. O milharal estendia-se além, na baixada das velhas terras devolutas, amarelecido já pela quebra, que realizara dias antes.” ; “ Enquanto amolava o ferro, no propósito de ir picar uns galhos de coivara no fundo do plantio para o fogo da cozinha.”; “ andou lá pelos fundos da roça, a colher uns pepinos temporões.”; “as alpercatas de couro crú”. Observe nos trechos selecionados que Domingos retira da natureza praticamente tudo o que precisa para sobreviver.
Os fatores climáticos também estão em comunhão com as necessidades do sertanejo: “o veranico que andava duro na quinzena”. Os sertanejos denominam de “veranico” período de sol em tempo de chuva, em Goiás especificamente há o que chamam de veranico de janeiro. Quinze dias de sol em pleno verão ajuda em tempos de colheita.
No conto há uma referência às queimadas, que em terras de cerrado, tinha (ainda têm) época certa:”[...] galgou a barroca fronteira e endireitou rumo a maria-preta,[...] toda tostada desde à época da queima pelas lufadas de fogo que subiam da malhada.” (pág. 66). Hugo descreve a natureza goiana tão bem que fica difícil não imaginarmos as labaredas lambendo a árvore, e a deixando “tostada”. As queimadas usadas pelo sertanejo para “limpar” o solo do capim seco e das pragas, queimavam tudo o que tinham à frente, inclusive árvores e animais.
Podemos dividir o conto em duas partes. Na primeira, a narrativa descreve aspectos da vida sertaneja, a segunda, a narrativa caminha para seu clímax: o filho pede que o pai lhe busque os filhotes, este reluta em acatar o pedido do filho: “Ora, deixassem lá em paz os passarinhos.” Mas como é dia do aniversário do menino, “não valia por tão pouco amuá-lo.” (pág 65). Domingos acaba indo buscar os periquitos. Até o presente de aniversário do filho é retirado da natureza.
A cobra aparece como obstáculo entre os periquitos e Domingos. Ele o fere, e lhe transmite seu venenoletal. O réptil estava dormindo, poderia estar também aproveitando a “canícula” do virar da tarde, tal como Domingos no início da narrativa, acordado, age por instinto e o pica, e já “preparava-se para novo ataque ao inoportuno que viera arrancá-lo da sesta; e pó caboclo, voltando a si do estupor, num gesto instintivo, sacou da bainha o largo jacaré inseparável, amputando-lhe a cabeça dum golpe certeiro.” (pág. 66). O sertanejo, por instinto decepa-lhe a cabeça e depois a própria mão. O bicho era uma cobra denominada Urutu, e contra seu veneno, nem a “mesinha doméstica, nem a dos campos, possuíam salvação.” O homem do sertão também retirava da natureza antídotos para algumas peçonhas. Só que a natureza também tem seus percalços. Para esta não havia remédio, nem salvação. A única solução possível seria retirar o veneno, amputando a parte afetada, antes que este se espalhasse.
O sertanejo mantém uma relação de dependência e de exploração com a natureza. Ele só existe porque a natureza lhe dá tudo o que ele necessita. Desde a alpercata de couro crú até os remédios tirados das plantas. Porém a natureza é apresentada de forma traiçoeira, como se fosse um antagonista, que passa a narrativa inteira em uma condição de serva do homem, servindo-o em todas as suas necessidades, e após ganhar a confiança do personagem o ataca pelas costas. A cobra ganha status de personagem, pois tem importância fundamental na narrativa.
O fato de a cobra o picar impiedosamente pode ser uma espécie de vingança. Ele não estava ali por acaso, estava se protegendo também, e os filhotes de periquitos que não aparecem na narrativa, podem ter sido devorados pela serpente, que após o “almoço”, acorda incomodada pelas mãos invasoras do sertanejo, e se defende, mordendo-o. A natureza sempre é “acordada”, incomodada pelo homem, que a explora, que a modifica. Primeiro ele decepa a cabeça da cobra, depois o próprio braço. Ele revida a vingança, o ataque. Isso demonstra a prepotência do homem perante a natureza. Se sente senhor, dono. Porém os dois saem decepados. Uma analogia pode ser feita entre os ataques da natureza ao homem, e os ataques do homem à natureza. Ambos saem mutilados. Ambos saem perdendo. No conto, a cobra perdeu mais, perdeu a vida. A natureza se vinga, mas na maioria das vezes sai perdendo.



Bibliografia:

BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 43ª Ed. São Paulo. Cultrix: 2006

RAMOS, Hugo de Carvalho. Ninho de Periquitos In: Tropas e Boiadas. Rio de Janeiro. Lacerda Editora: 2003

domingo, 6 de dezembro de 2009

Ninho de Periquitos - Hugo de Carvalho Ramos



Ninho de periquitos




Publicado na Folha da Manhã, domingo, 18 de setembro de 1949.



(Neste texto foi mantida a grafia original)



Abrandando a canicula pelo virar da tarde, abandonou a rede de imbira onde se entretinha arranhando uns respontos na viola, após farta cuia de jacuba de farinha de milho e rapadura que bebera em silencio, às largas colheradas, e saiu ao terreiro, onde demorou a afiar numa pedra piçarra o corte da foice.
Era pelo domingo, vesperas quase da colheita. O milharal estendia-se alem, na baixada das velhas terras devolutas, amarelecido já pela quebra, que realizara dias antes, e o veranico, que andava duro na quinzena.
Enquanto amolava o ferro, no proposito de ir picar uns galhos de coivara no fundo do plantio para o fogo da cozinha, o Janjão rondava em torno, rebolando na terra, olho aguçado para o trabalho paterno.
— Não se esquesse, o papá, dos filhotes de periquito que ficavam lá no fundo do grotão, entre as macegas espinhosas de "malicia", num cupim velho do pé de maria-preta. Não esquecesse...
O roceiro andou lá pelos fundos da roça, a colher uns pepinos temporões, foi ao paiol de palha de arroz mais uma vez avaliando com a vista se possuia capacidade precisa para a rica colheita do ano; e, tendo ajuntado os gravetos e uns cernes de coivara, amarrava o feixe e ia já a recolher caminho de casa, quando se lembrou do pedido do pequeno.
— Ora, deixassem lá em paz os passarinhos.
Mas naquele dia assentava o Janjão a sua primeira dezena tristonha de anos e, pois, não valia por tão pouco amuá-lo.
O caipira pousou a braçada de lenha, encostando-a à cerca do roçado; passou a perna por cima e, pulando do outro lado, as alpercatas de couro cru a pisar forte o espinharal ressequido que estralejava, entranhou-se pelo grotão - nesses dias sem pinga dagua - galgou a barroca fronteira e endireitou rumo da maria-preta, que abria ao mormaço crepuscular da tarde a galharada esguia, toda tostada, desde a epoca de queima, pelas lufadas de fogo que subiam da malhada. Ali mesmo, na bifurcação do tronco, assentada sobre a forquilha da arvore, à altura do peito, escancarava a boca negra para o nascente a casa abandonada dos cupins, onde um casal de periquitos fizera ninho essa estação.
O lavrador alçou com cautela a destra calosa, rebuscando lá por dentro os dois borrachos. Mas tirou-a num repente, surpicadela incisiva, dolorosa, rasgara-lhe por dois pontos, vivamente, a palma da mão.
E enquanto olhava admirado, uma cabeça disforme, oblonga, encimada à testa duma cruz, aparecia à aberta do cupinzeiro, fitando-o persistente, com seus olhinhos redondos, onde uma chispa má luzia malignamente...
O matuto sentiu uma frialdade mortuaria percorrendo-o ao longo da espinha...Era uma urutu, a terrivel urutu do sertão, para a qual nem a mezinha domestica, nem a dos campos, possuiam salvação...
— Perdido... completamente perdido...
O reptil, mostrando a lingua bifida, chispando as pupilas em colera, a fitá-lo ameaçador, preparava-se para novo ataque ao importuno que viera arrancá-lo da sesta. O caboclo, voltando a si do estupor, num gesto instintivo, sacou da bainha o largo "jacaré" inseparavel e amputou-lhe a cabeça dum golpe certeiro.
Então, sem vacilar, num movimento inda mais brusco, apoiando a mão molesta à casca carunchosa da arvore, decepou-a noutro golpe, cerce quase à juntura do pulso.
E enrolando o punho preendido. É que uma mutilado na camisola de algodão, que foi rasgando entre os dentes, saiu do cerrado, calcando duro, sobranceiro e altivo, rumo de casa, como um deus selvagem e triunfante apontando a mata companheira, mas assassina, mas perfidamente traiçoeira...

HUGO DE CARVALHO RAMOS — Pouco se pode dizer sobre a vida deste escritor. Teve a infancia e a mocidade atribuladas e um suicidio que cortou para sempre sua vida inquieta, quando mal completara 28 anos de idade. O unico livro que deixou, "Tropas e Boiadas" merece ser colocado no mesmo plano em que pairam "Pelo Sertão" e "Os Caboclos", de Afonso Arinos e Valdomiro Silveira. Este conto faz parte deste  livro: Tropas e Boiadas, que recentemente voltou a ser publicado, mais de 50 anos depois de sua última edição, e eu claro, não podia perder a oportunidade, comprei-o. Hoje faz parte de meu pequeno e modesto acervo.
Mas de pode encontrar este e outros contos do Hugo na internet, pois sua obra já se encontra  sob domínio público.