Parafraseando minha honorável conterânea Cora Coralina: Não é verso, não é poesia, apenas um modo diferente de contar velhas histórias.
sexta-feira, 7 de setembro de 2012
Roma- a série
Roma é uma série de televisão produzida pela BBC, do Reino Unido, HBO, dos Estados Unidos, e RAI da Itália. Foi ao ar entre 2005 e 2007. A história começa em 52 a.C. Tendo como tema central as disputas pelo poder. Inicialmente entre Júlio César e Pompeu, depois Marco Antonio e Octavio. Outros personagens históricos como Brutos, Cícero, Cleopatra, Otavia possuem papéis de destaque na série, assim como Lúcio Vorenus e Tito Pullo, soldados da 13ª Legião, personagens ficticios, que possuem trama própria e sempre aparecem ao lado dos personagens históricos importantes, influenciando-os. Pullo é responsável pelas poucas tiradas de humor da série. Mas a produção vai muito além disso. Além de um magnífico roteiro, que sempre nos deixa presos diante da tela do início ao fim de cada capítulo, morrendo de ansiedade à espera do episódio seguinte, seus cenários são magníficos e também não economizaram nos figurinos e figurantes. Tanto que a série , na época, foi considerada a mais cara da história.
As ruas de Roma foram minunciosamente recriadas, com suas fundações, prédios públicos, o calçamento, as casas, as famosas saúnas comunitárias, o mercado de escravos e a mobília. Até o famoso e ao mesmo tempo infame esgoto romano aparece. Um constraste tremendo entre as casas dos nobres, repletas de luxo e as ruas, que são mostradas sujas, repletas de pedintes e escravos.
Não se pode deixar de mencionar a culinária. As cenas em que refeições são servidas são um caso a parte. Uma em especial, Atia sobrinha de César oferece testículo de carneiro a seu filho Octavio, obrigando-o a comer para torna-lo mais masculino.
Os figurinos, tanto os masculinos, que iam desde a cota de malha dos soldados, com seus elmos, e adornos feitos de couro, as túnicas ricamente bordadas usadas por César e Marco Antonio, a toga dos senadores, quanto os femininos, que mostrava mulheres da nobreza ricamente ornamentadas com joias, perucas, vestidos e veus esvoaçantes, e vestimentas bordadas a ouro, e o figurino da plebe, que soube retratar muito bem as classe social menos favorecida.
Há muitas cenas que atenuam a vaidade. Mulheres usando arsênico como pó facial, escolhendo perucas, homens em saúnas comunitárias. Cenas de escravos cuidando de seus donos, fazendo-lhes a barba, maquiando, cortando o cabelo, massagendo e banhando.
O sexo é retratado como algo comum. Não são poucas as cenas em que é praticado em público. Quem é familiarizado com as séries da HBO, sabe que cenas assim são recorrentes. Em Roma, não foi diferente. Há um cuidado especial em retratá-lo. É mostrado na maioria das vezes como algo carnal, salvo as cenas entre Lucius Voremos e sua esposa. Exploram toda a sexualidade dos personagens históricos, dando destaque para Marco Antonio com suas amantes e Cleopatra, que aparece mais devassa do que nunca. Perto desta, a versão de Liz Taylor parece uma santa. Nobres, plebeus, soldados, escravos são todos muito sexuais. Deve ser por causa da virilidade que as guerras propiciam aos que nela se envolvem, diretamente ou indiretamente. Nos primeiros capítulos e nos últimos são mais frequentes as cenas impróprias para menores. Hábitos de um povo culturalmente despudorizado, pois saunas coletivas eram o passa-tempo preferido tanto da aristocracia quanto da plebe. Ficavam ali todos nus discutindo sobre política, religião e sobre os gladiadores.
O cotidiano romano é uma verdadeira viagem que a série nos presenteia com primoroso cuidado. Uma vida cercada de misticismo, onde a veneração aos deuses antigos é evidenciada como eu nunca havia presenciado em filmes do gênero. Altares , sacrifícios, consultas aos oráculos, evocamento de maldições, funeráis. Há um certo rigor no culto a Júpiter, mas há também os seguidores de Apolo e de Hades. A religiosidade estava presente em todas as esferas sociais. Desde a rica amante de César que promete sacríficios ao deus do inferno caso seu pedido seja atendido, até os soldados que pedem os amigos para encomendarem suas almas como mandam as tradições, casa sejam mortos em batalha.
Há no entanto uma cena muito inusitada que mostra a manipulação da fé pelos poderosos. César suborna um lider religioso do templo de Roma para que tenha bons presságios diante de sua investida contra Pompeu, e os sacerdotes manipulam as aves para que elas pudessem dar o que eles queriam ver.
Os escravos são mostrados de várias formas. A maioria estrangeiros, trazidos como espólio de guerras . São criados, fazem o trabalho doméstico, e alguns lidam diretamente com seus donos, como o caso de Posca, o escravo pessoal de César, que além de ser uma espécie de mordomo, e secretario particular, tem influência sobre o dono, diante de suas condutas pessoais e também nas que dizem respeito a Roma.
Muitos fatos hitóricos são retratados. A disputa pelo poder que culmina no assassinato de César no Senado pelo filho de criação Brutos, a instabilidade da República Romana, o poder das que as Legiões exerciam diante do povo, a ascenção de Otavio ao trono, o envolvimento de César e Marco Antônio com Cleopatra.
Foram produzidas apenas duas temporadas. Muito ainda podeira ser contado, recomendo a todos que gostam de uma boa série, e que gostam de história antiga. O fato de conhecermos o desfecho de alguns personagens históricos não a torna menos prazeirosa de acompanhar, pois os produtores foram muito cuidadosos em sua releitura dos fatos reais que aparecem no enredo. E de fato, a série serviu de alavanca para a HBO se enveredar de vez em grandes produções. Game of Thrones, inspirada nos livros de George R. R. Martin, já se consolidou na grade da emissora, tanto que já vai para uma terceira temporada de sucesso.
Quanto a Roma, infelizmente a HBO deixou de reprisar, não sei dizer se está na grade de alguma outra emissora da rede. Mas fica a dica, quem se interessar pode encontrar os DVDs nas lojas e nas locadoras. E há a opção da Internet.
Vidente
Casou-se tardiamente, a esposa muito mais moça que ele, veio a tornar-se uma excelente parideira. Nos primeiros anos de casamento, presenteou-o com um filho por ano.
Nele, a cada ano os sinais que a velhice chegava, ficavam mais evidentes, nela, a maternidade e a juventude só lhe traziam mais beleza e graciosidade.
Não era totalmente feliz , uma sombra sempre o rondava: o tormento de morrer e deixar a jovem viúva com os filhos pequenos. Por isso, sempre que um filho estava para chegar, consultava um vidente.
-Então, o que as cartas dizem?
-O menino vai ser varão, e vejo que terá uma vida longa e plena.
-Do filho está bom, e do pai do menino, o que elas falam?
-O pai terá muita prosperidade no próximo ano. Vejo igualmente uma vida longa e plena.
-Tem certeza?
-As cartas não mentem!
Seguiu para casa feliz, pelo menos mais algum tempo estava garantido.
E teve um ano próspero, como anteviu o vidente. Para a plenitude se completar, no inicio da primavera a esposa anunciou mais uma gravidez.
A satisfação vivia estampada em seus lábios. Mas como o seguro morreu de velho, não hesitou em agendar uma visitinha ao vidente.
O homem jogou as cartas e em silêncio coçou atrás da orelha e enrugou a testa:
-Vejo nas caras que a criança será menina, que será uma atleta e que será uma vencedora em vários aspectos. Essa carta representa a vitória, e essa o amor.
-E do pai dela, o que dizem as cartas?
O vidente embaralhou novamente as cartas e novamente coçou atrás da orelha:
-Se lembra do primeiro dia que esteve aqui? Que me pediu para nunca omitir nada a você?
-Claro que me lembro! Um bom vidente nunca nega a verdade. Mas me diga o que você vê aí?
-Elas dizem que algo ruim irá acontecer, com o pai! Mas não está muito claro. Quando joguei as cartas para a criança também vi algo ruim relacionado ao pai, mas agora...está meio confuso! Não quero te assustar, mas...
-Mas o que?
-Melhor se precaver. Tudo acontecerá no dia do nascimento da criança. Tenha cuidado. Essa parte está bem claro. As cartas dizem que o pai da criança morrerá no momento que o bebê vier à luz!
Sem saber como proceder, apertou ainda mais o vidente, em busca de detalhes, este pouco acrescentou.
Foi para casa estarrecido. Não era possível, não sentia dores, só podia ser acidente, ou uma bala perdida!
-Maldito vidente, não dera detalhes, se fosse mais preciso... Eu poderia fazer alguma coisa para reverter essa maldita situação! Tinha que fazer alguma coisa...
Não contou nada a ninguém. Foi ao hospital e fez uma bateria de exames, tudo estava bem: coração, pulmão, pressão arterial. Até o colesterol estava controlado.
Ainda lhe restava alguns meses para o final da gravidez. Ele viveu da melhor forma possível. Trabalhou menos, fez uma pequena viagem com a família, visitou parentes e amigos, comeu, bebeu. Trocou de carro e fez um seguro de vida bem pomposo para deixar à família. Aproveitou cada minuto desses últimos dias. E no dia marcado, inventou uma história e foi para a sua casa de campo, sozinho.
Comeu, bebeu, e se deitou na rede esperando, e matutando:
-Se for acidente, só se a rede arrembentar e eu cair de cabeça no chão. Ou um raio, mas nem chuva teremos hoje... Pode ser uma cobra, me esqueci desse detalhe, poderia ter ficado na cidade, lá dificilmente uma cobra me pegaria. E se for a comida? Será que vou morrer de intoxicação alimentar?
De tanto esperar pegou no sono.
Acordou tarde da noite com o barulho de um telefone tocando.
-Aaaaalô!
Era o cunhado:
-Nossa! Você não atende esse telefone, já te liguei um milhão de vezes!
-O que foi? Que horas são? Peguei no sono! O bebê? Está tudo bem?
Por uns instantes se esqueceu das cartas.
-Foi o seu vizinho. Aquele seu amigo. O encontraram morto. Infarto! Melhor você voltar para casa. Sua filha nasceu e é linda! Sua mulher está bem, só está chorando muito, coitada!
Desligou o telefone meio atônito, coçou o queixo e pensou:
-Ela viu a luz e eu ainda estou vivo! Engraçado... as cartas não mentem ... Nunca mentiram!
Cirúrgia de coração
Durante um jantar em família, sentiu-se mal, e foi parar no Pronto Socorro. Depois de uma bateria de exames, chegaram a conclusão que não haveria outra saída: era operar ou comprar o caixão. O nosso paciente optou pela primeira opção.
Até então, havia ido ao médico pouquíssimas vezes. Morria de medo de injeção, e aquela idéia de ter seu tórax aberto por uma serra lhe dava frio na espinha. Nunca havia se preocupado com alimentação. Pra ele alface era comida de lagarta, e o futebolzinho com os amigos, no final de semana, já não praticava há algum tempo. Desde que a esposa morrera, decidiu abandonar muitas coisas que gostava de fazer.
Tentou aceitar sua condição da melhor maneira que podia. Era o maior desafio de sua vida, não poderia se mostrar fraco perante os filhos e os amigos. Decidiu levar na brincadeira a coisa.
-Seu Juca, fiquei sabendo que o senhor está sofrendo do coração. É verdade?
-Que nada, é o coração que sofre comigo!
-Vai mesmo ter que fazer a cirurgia?
-É, assim como um carro, depois de anos de uso, é preciso voltar na oficina e trocar umas pecinhas gastas. Problema de válvula, sabe como é.
- Mas não precisa ficar com medo, minha tia vez uma na cabeça e tirou de letra.
-Ah, meu amigo, a minha é pior! É cardíaca. E cirurgia cardíaca é de cortar o coração!
O dia marcado chegou. A família decidiu ir toda ao hospital acompanhar o paciente. Já internado, não deixou de fazer piada a respeito dos trajes que foi obrigado a usar:
-Eles se esqueceram de trazer a parte de baixo, o bicho está solto aqui, e ainda tem um ventinho batendo no Pólo Sul que vou te contar...
E mais de uma vez tiveram que puxar os lençóis para cobrir suas partes.
Quando os enfermeiros chegaram para levá-lo ao Centro Cirúrgico, pegou na mão da filha e desabafou:
-Querida, estou com medo de acordar da anestesia morto.
A filha balançou a cabeça negativamente, sorriu-lhe, beijou-o carinhosamente a testa e mandou-o ir com Deus.
Juca era viúvo. Fazia alguns anos que a esposa falecera. Desde então, teve algumas pretendentes, mas disse que nenhuma das candidatas combinava com ele.
A cirurgia foi um sucesso. De válvula trocada, Juca permaneceria na UTI por alguns dias e logo, se tudo ocorresse como o previsto iria para o quarto.
Só que havia um problema. Devido a greve dos funcionários de um hospital público, todos os quartos estavam lotados, e Juca não poderia ir para casa, e não poderia permanecer na UTI, pois haviam outros pacientes esperando a vaga. A direção do hospital chamou a família e apresentou uma solução. Não muito convencional mas era o que tinham para o momento. Havia um quarto com dois leitos, um deles estava ocupado por uma paciente que havia se submetido ao mesmo procedimento de Juca. Já haviam conversado com a outra parte que concordou mediante desconto de cinqüenta por cento nas diárias.
Finalmente Juca foi para o quarto.
Quando as visitas chegaram, conheceram a paciente do leito ao lado e todos ficaram amigos.
No dia da alta, uma de suas filhas se encarregou de buscá-lo. Finalmente Juca iria para casa. Chegou alguns minutos mais cedo, para arrumar as malas do pai, e encontrou a porta fechada. Abriu sem bater. Assustada olhou para uma cama vazia. Quase teve um treco quando viu que seu pai estava na cama ao lado no maior amasso. A vizinha de cama, Dona Lourdes era viúva também, e durante a internação e nos horários de visita já havia conquistado não só Juca, mas a família toda. Os dois descobriram tanto em comum em onze dias, e em onze noites que o namoro já tinha passado para a segunda fase.
A filha de Juca só se lembrou de gritar:
-Pai! Cuidado com a válvula!
Com a cara toda amassada ele levantou o pescoço e respondeu:
-Com a dela, minha filha?
-Com a sua, com a dela, com todas!
Depois das explicações, e das broncas médicas, saíram do hospital juntos no outro dia, com ordens prescritas de não cometerem movimentos bruscos, pelo menos, por enquanto.
Dias depois Juca se mudou para a casa de dona Lourdes, aonde tanto os dois, quanto as válvulas vão muito bem.
Assinar:
Postagens (Atom)

