Parafraseando minha honorável conterânea Cora Coralina: Não é verso, não é poesia, apenas um modo diferente de contar velhas histórias.
sexta-feira, 7 de setembro de 2012
Roma- a série
Roma é uma série de televisão produzida pela BBC, do Reino Unido, HBO, dos Estados Unidos, e RAI da Itália. Foi ao ar entre 2005 e 2007. A história começa em 52 a.C. Tendo como tema central as disputas pelo poder. Inicialmente entre Júlio César e Pompeu, depois Marco Antonio e Octavio. Outros personagens históricos como Brutos, Cícero, Cleopatra, Otavia possuem papéis de destaque na série, assim como Lúcio Vorenus e Tito Pullo, soldados da 13ª Legião, personagens ficticios, que possuem trama própria e sempre aparecem ao lado dos personagens históricos importantes, influenciando-os. Pullo é responsável pelas poucas tiradas de humor da série. Mas a produção vai muito além disso. Além de um magnífico roteiro, que sempre nos deixa presos diante da tela do início ao fim de cada capítulo, morrendo de ansiedade à espera do episódio seguinte, seus cenários são magníficos e também não economizaram nos figurinos e figurantes. Tanto que a série , na época, foi considerada a mais cara da história.
As ruas de Roma foram minunciosamente recriadas, com suas fundações, prédios públicos, o calçamento, as casas, as famosas saúnas comunitárias, o mercado de escravos e a mobília. Até o famoso e ao mesmo tempo infame esgoto romano aparece. Um constraste tremendo entre as casas dos nobres, repletas de luxo e as ruas, que são mostradas sujas, repletas de pedintes e escravos.
Não se pode deixar de mencionar a culinária. As cenas em que refeições são servidas são um caso a parte. Uma em especial, Atia sobrinha de César oferece testículo de carneiro a seu filho Octavio, obrigando-o a comer para torna-lo mais masculino.
Os figurinos, tanto os masculinos, que iam desde a cota de malha dos soldados, com seus elmos, e adornos feitos de couro, as túnicas ricamente bordadas usadas por César e Marco Antonio, a toga dos senadores, quanto os femininos, que mostrava mulheres da nobreza ricamente ornamentadas com joias, perucas, vestidos e veus esvoaçantes, e vestimentas bordadas a ouro, e o figurino da plebe, que soube retratar muito bem as classe social menos favorecida.
Há muitas cenas que atenuam a vaidade. Mulheres usando arsênico como pó facial, escolhendo perucas, homens em saúnas comunitárias. Cenas de escravos cuidando de seus donos, fazendo-lhes a barba, maquiando, cortando o cabelo, massagendo e banhando.
O sexo é retratado como algo comum. Não são poucas as cenas em que é praticado em público. Quem é familiarizado com as séries da HBO, sabe que cenas assim são recorrentes. Em Roma, não foi diferente. Há um cuidado especial em retratá-lo. É mostrado na maioria das vezes como algo carnal, salvo as cenas entre Lucius Voremos e sua esposa. Exploram toda a sexualidade dos personagens históricos, dando destaque para Marco Antonio com suas amantes e Cleopatra, que aparece mais devassa do que nunca. Perto desta, a versão de Liz Taylor parece uma santa. Nobres, plebeus, soldados, escravos são todos muito sexuais. Deve ser por causa da virilidade que as guerras propiciam aos que nela se envolvem, diretamente ou indiretamente. Nos primeiros capítulos e nos últimos são mais frequentes as cenas impróprias para menores. Hábitos de um povo culturalmente despudorizado, pois saunas coletivas eram o passa-tempo preferido tanto da aristocracia quanto da plebe. Ficavam ali todos nus discutindo sobre política, religião e sobre os gladiadores.
O cotidiano romano é uma verdadeira viagem que a série nos presenteia com primoroso cuidado. Uma vida cercada de misticismo, onde a veneração aos deuses antigos é evidenciada como eu nunca havia presenciado em filmes do gênero. Altares , sacrifícios, consultas aos oráculos, evocamento de maldições, funeráis. Há um certo rigor no culto a Júpiter, mas há também os seguidores de Apolo e de Hades. A religiosidade estava presente em todas as esferas sociais. Desde a rica amante de César que promete sacríficios ao deus do inferno caso seu pedido seja atendido, até os soldados que pedem os amigos para encomendarem suas almas como mandam as tradições, casa sejam mortos em batalha.
Há no entanto uma cena muito inusitada que mostra a manipulação da fé pelos poderosos. César suborna um lider religioso do templo de Roma para que tenha bons presságios diante de sua investida contra Pompeu, e os sacerdotes manipulam as aves para que elas pudessem dar o que eles queriam ver.
Os escravos são mostrados de várias formas. A maioria estrangeiros, trazidos como espólio de guerras . São criados, fazem o trabalho doméstico, e alguns lidam diretamente com seus donos, como o caso de Posca, o escravo pessoal de César, que além de ser uma espécie de mordomo, e secretario particular, tem influência sobre o dono, diante de suas condutas pessoais e também nas que dizem respeito a Roma.
Muitos fatos hitóricos são retratados. A disputa pelo poder que culmina no assassinato de César no Senado pelo filho de criação Brutos, a instabilidade da República Romana, o poder das que as Legiões exerciam diante do povo, a ascenção de Otavio ao trono, o envolvimento de César e Marco Antônio com Cleopatra.
Foram produzidas apenas duas temporadas. Muito ainda podeira ser contado, recomendo a todos que gostam de uma boa série, e que gostam de história antiga. O fato de conhecermos o desfecho de alguns personagens históricos não a torna menos prazeirosa de acompanhar, pois os produtores foram muito cuidadosos em sua releitura dos fatos reais que aparecem no enredo. E de fato, a série serviu de alavanca para a HBO se enveredar de vez em grandes produções. Game of Thrones, inspirada nos livros de George R. R. Martin, já se consolidou na grade da emissora, tanto que já vai para uma terceira temporada de sucesso.
Quanto a Roma, infelizmente a HBO deixou de reprisar, não sei dizer se está na grade de alguma outra emissora da rede. Mas fica a dica, quem se interessar pode encontrar os DVDs nas lojas e nas locadoras. E há a opção da Internet.
Vidente
Casou-se tardiamente, a esposa muito mais moça que ele, veio a tornar-se uma excelente parideira. Nos primeiros anos de casamento, presenteou-o com um filho por ano.
Nele, a cada ano os sinais que a velhice chegava, ficavam mais evidentes, nela, a maternidade e a juventude só lhe traziam mais beleza e graciosidade.
Não era totalmente feliz , uma sombra sempre o rondava: o tormento de morrer e deixar a jovem viúva com os filhos pequenos. Por isso, sempre que um filho estava para chegar, consultava um vidente.
-Então, o que as cartas dizem?
-O menino vai ser varão, e vejo que terá uma vida longa e plena.
-Do filho está bom, e do pai do menino, o que elas falam?
-O pai terá muita prosperidade no próximo ano. Vejo igualmente uma vida longa e plena.
-Tem certeza?
-As cartas não mentem!
Seguiu para casa feliz, pelo menos mais algum tempo estava garantido.
E teve um ano próspero, como anteviu o vidente. Para a plenitude se completar, no inicio da primavera a esposa anunciou mais uma gravidez.
A satisfação vivia estampada em seus lábios. Mas como o seguro morreu de velho, não hesitou em agendar uma visitinha ao vidente.
O homem jogou as cartas e em silêncio coçou atrás da orelha e enrugou a testa:
-Vejo nas caras que a criança será menina, que será uma atleta e que será uma vencedora em vários aspectos. Essa carta representa a vitória, e essa o amor.
-E do pai dela, o que dizem as cartas?
O vidente embaralhou novamente as cartas e novamente coçou atrás da orelha:
-Se lembra do primeiro dia que esteve aqui? Que me pediu para nunca omitir nada a você?
-Claro que me lembro! Um bom vidente nunca nega a verdade. Mas me diga o que você vê aí?
-Elas dizem que algo ruim irá acontecer, com o pai! Mas não está muito claro. Quando joguei as cartas para a criança também vi algo ruim relacionado ao pai, mas agora...está meio confuso! Não quero te assustar, mas...
-Mas o que?
-Melhor se precaver. Tudo acontecerá no dia do nascimento da criança. Tenha cuidado. Essa parte está bem claro. As cartas dizem que o pai da criança morrerá no momento que o bebê vier à luz!
Sem saber como proceder, apertou ainda mais o vidente, em busca de detalhes, este pouco acrescentou.
Foi para casa estarrecido. Não era possível, não sentia dores, só podia ser acidente, ou uma bala perdida!
-Maldito vidente, não dera detalhes, se fosse mais preciso... Eu poderia fazer alguma coisa para reverter essa maldita situação! Tinha que fazer alguma coisa...
Não contou nada a ninguém. Foi ao hospital e fez uma bateria de exames, tudo estava bem: coração, pulmão, pressão arterial. Até o colesterol estava controlado.
Ainda lhe restava alguns meses para o final da gravidez. Ele viveu da melhor forma possível. Trabalhou menos, fez uma pequena viagem com a família, visitou parentes e amigos, comeu, bebeu. Trocou de carro e fez um seguro de vida bem pomposo para deixar à família. Aproveitou cada minuto desses últimos dias. E no dia marcado, inventou uma história e foi para a sua casa de campo, sozinho.
Comeu, bebeu, e se deitou na rede esperando, e matutando:
-Se for acidente, só se a rede arrembentar e eu cair de cabeça no chão. Ou um raio, mas nem chuva teremos hoje... Pode ser uma cobra, me esqueci desse detalhe, poderia ter ficado na cidade, lá dificilmente uma cobra me pegaria. E se for a comida? Será que vou morrer de intoxicação alimentar?
De tanto esperar pegou no sono.
Acordou tarde da noite com o barulho de um telefone tocando.
-Aaaaalô!
Era o cunhado:
-Nossa! Você não atende esse telefone, já te liguei um milhão de vezes!
-O que foi? Que horas são? Peguei no sono! O bebê? Está tudo bem?
Por uns instantes se esqueceu das cartas.
-Foi o seu vizinho. Aquele seu amigo. O encontraram morto. Infarto! Melhor você voltar para casa. Sua filha nasceu e é linda! Sua mulher está bem, só está chorando muito, coitada!
Desligou o telefone meio atônito, coçou o queixo e pensou:
-Ela viu a luz e eu ainda estou vivo! Engraçado... as cartas não mentem ... Nunca mentiram!
Cirúrgia de coração
Durante um jantar em família, sentiu-se mal, e foi parar no Pronto Socorro. Depois de uma bateria de exames, chegaram a conclusão que não haveria outra saída: era operar ou comprar o caixão. O nosso paciente optou pela primeira opção.
Até então, havia ido ao médico pouquíssimas vezes. Morria de medo de injeção, e aquela idéia de ter seu tórax aberto por uma serra lhe dava frio na espinha. Nunca havia se preocupado com alimentação. Pra ele alface era comida de lagarta, e o futebolzinho com os amigos, no final de semana, já não praticava há algum tempo. Desde que a esposa morrera, decidiu abandonar muitas coisas que gostava de fazer.
Tentou aceitar sua condição da melhor maneira que podia. Era o maior desafio de sua vida, não poderia se mostrar fraco perante os filhos e os amigos. Decidiu levar na brincadeira a coisa.
-Seu Juca, fiquei sabendo que o senhor está sofrendo do coração. É verdade?
-Que nada, é o coração que sofre comigo!
-Vai mesmo ter que fazer a cirurgia?
-É, assim como um carro, depois de anos de uso, é preciso voltar na oficina e trocar umas pecinhas gastas. Problema de válvula, sabe como é.
- Mas não precisa ficar com medo, minha tia vez uma na cabeça e tirou de letra.
-Ah, meu amigo, a minha é pior! É cardíaca. E cirurgia cardíaca é de cortar o coração!
O dia marcado chegou. A família decidiu ir toda ao hospital acompanhar o paciente. Já internado, não deixou de fazer piada a respeito dos trajes que foi obrigado a usar:
-Eles se esqueceram de trazer a parte de baixo, o bicho está solto aqui, e ainda tem um ventinho batendo no Pólo Sul que vou te contar...
E mais de uma vez tiveram que puxar os lençóis para cobrir suas partes.
Quando os enfermeiros chegaram para levá-lo ao Centro Cirúrgico, pegou na mão da filha e desabafou:
-Querida, estou com medo de acordar da anestesia morto.
A filha balançou a cabeça negativamente, sorriu-lhe, beijou-o carinhosamente a testa e mandou-o ir com Deus.
Juca era viúvo. Fazia alguns anos que a esposa falecera. Desde então, teve algumas pretendentes, mas disse que nenhuma das candidatas combinava com ele.
A cirurgia foi um sucesso. De válvula trocada, Juca permaneceria na UTI por alguns dias e logo, se tudo ocorresse como o previsto iria para o quarto.
Só que havia um problema. Devido a greve dos funcionários de um hospital público, todos os quartos estavam lotados, e Juca não poderia ir para casa, e não poderia permanecer na UTI, pois haviam outros pacientes esperando a vaga. A direção do hospital chamou a família e apresentou uma solução. Não muito convencional mas era o que tinham para o momento. Havia um quarto com dois leitos, um deles estava ocupado por uma paciente que havia se submetido ao mesmo procedimento de Juca. Já haviam conversado com a outra parte que concordou mediante desconto de cinqüenta por cento nas diárias.
Finalmente Juca foi para o quarto.
Quando as visitas chegaram, conheceram a paciente do leito ao lado e todos ficaram amigos.
No dia da alta, uma de suas filhas se encarregou de buscá-lo. Finalmente Juca iria para casa. Chegou alguns minutos mais cedo, para arrumar as malas do pai, e encontrou a porta fechada. Abriu sem bater. Assustada olhou para uma cama vazia. Quase teve um treco quando viu que seu pai estava na cama ao lado no maior amasso. A vizinha de cama, Dona Lourdes era viúva também, e durante a internação e nos horários de visita já havia conquistado não só Juca, mas a família toda. Os dois descobriram tanto em comum em onze dias, e em onze noites que o namoro já tinha passado para a segunda fase.
A filha de Juca só se lembrou de gritar:
-Pai! Cuidado com a válvula!
Com a cara toda amassada ele levantou o pescoço e respondeu:
-Com a dela, minha filha?
-Com a sua, com a dela, com todas!
Depois das explicações, e das broncas médicas, saíram do hospital juntos no outro dia, com ordens prescritas de não cometerem movimentos bruscos, pelo menos, por enquanto.
Dias depois Juca se mudou para a casa de dona Lourdes, aonde tanto os dois, quanto as válvulas vão muito bem.
quinta-feira, 8 de março de 2012
Sogro e genro: de fornecedor a consumidor
A primeira das três filhas começou a namorar.
Inconformado, Pedro não tinha outro assunto com os amigos senão reclamar da novidade.
-, sorte sua a Marcelinha ainda não ter idade para namorar. É duro ver um marmanjo abraçando e beijando a filha da gente.
-Marcelinha tá pequena ainda, vai demorar um pouco, eu espero! Imagino sua situação! Deve ser duro sim, mas você se lembra quando éramos daquela idade? A melhor coisa que existia era ficar abraçando, beijando e fazendo “ otras cositas más” com a filha dos outros.
-Se me lembro. Tempinho bom, aquele!
-Toda mulher tem um pai, meu amigo! A sua, a minha...
-Isso é verdade!
-Pois é, nós não temos direito de reclamar. O tempo passa, e a nossa posição apenas mudou. É como no modelo capitalista, apenas trocamos de função.
- Trocamos de função? Não estou te entendendo!
-É! Antes éramos consumidores, agora somos fornecedores.
Pedro refletiu sobre as palavras do amigo, e em seguida não teve outra saída, a não ser acompanhá-lo na risada!
Luís Caixeiro
Quem conhece o interior de nosso país já deve ter visto as velhas fazendas de estilo colonial, cuja arquitetura remonta a um tempo em que madeira de lei era a principal matéria-prima. Inúmeras janelas, portas de duas tábuas, com portais espessos, e assoalhos.
A fazenda de meus avós era assim. Uma casa enorme, com inúmeros quartos, salas e o quartinho que abrigava o oratório de minha avó, Dona Zulmira.
A tarefa de fechar aquelas inúmeras janelas, ao anoitecer, e abri-las ao romper do dia ficava a cargo dos filhos mais novos: Jaci e Ari. Incontáveis fechos eram travados e destravados todos os dias. Dona Zulmira mantinha o ritual sob fiscalização constante, pois não gostava de janelas fechadas durante o dia, e muito menos de vê-las abertas durante a noite.
Todos se reuniam após o jantar. Naquela noite toda a família estava entretida com os causos de um parente que havia chegado da recém inaugurada Brasília. Já estava escurecendo e bastou um olhar de Dona Zulmira para que os fechadores das janelas entendessem o recado. Muito curiosos em saber o final do causo de um tal de Juscelino, que o parente contava, dividiram a tarefa e correram o mais rápido que puderam fechando e travando todas as janelas. Voltaram a seus lugares, em volta da mesa, ofegantes, mas ainda a tempo de ouvir o final da interessante história. Quando o sono chegou, cada um seguiu para o seu quarto.
Quando Jaci entrou em seu quarto e viu que tinha se esquecido de fechar justamente sua janela, levou um susto, deu um empurrão, travou logo o fecho, antes que alguém mais percebesse.
Já era tarde quando todas as lamparinas foram apagadas. Jaci insone, ficava pensando no que poderia ter entrado no seu quarto por aquela janela esquecida aberta.
Revirava de um lado para o outro e não conseguia dormir. Levantou e foi procurar abrigo no canto da irmã que dormia na cama ao lado, a escuridão era tamanha que era impossível ver alguma coisa, mas conseguiu chegar no local pretendido, com a ajuda do tato e da experiência. Ia para o canto da irmã quase toda noite.
Revoltada com Jaci por tê-la acordado, a irmã acabou dando lhe uns empurrões. Quando se agasalhou e já ia pegar no sono, sentiu alguma coisa se mexendo , subindo na cama. A irmã, pensando ser Jaci , sacou-lhe um empurrão: “ Se você não quietar, vou chamar a mamãe! Eu quero dormir!” Jaci que não tinha movido sequer um músculo, nem teve tempo de pensar quando sentiu de novo, algo se mexer na calma, e a irmã esbravejar: “Já falei pra você parar, vou te chutar forte pra fora dessa cama!” Quando a irmã sentiu de novo a mexida, não hesitou e mandou um chute, e gritou chorando para acordar a casa inteira: “Pai, tem um trem espetento na minha cama, e eu acho que é o capeta, dei um chute nele e furou meu pé!”
No mesmo instante o quarto estava cheio de gente, quando conseguiram acender uma lamparina, viram as duas irmãs sentadas encolhidas na cama, com as cobertas nas cabeças. Quando puxaram a coberta, puderam ver o pé da pobre menina , todo cheio de espinho de ouriço. Ao abaixar a lamparina, encontraram o bichinho acuado debaixo da cama, pronto para jogar mais espinhos.
Era tempo de manga madura, e a molecada já tinha avistado alguns deles no quintal. O bicho aproveitou a janela aberta e entrou casa adentro.
Queriam matá-lo, mas Dona Zulmira não deixou. Abandonaram o quarto com a janela aberta, no outro dia ele não estava mais lá. “Tinha que ter espetado a Jaci, pois ela que não fechou a janela!” Dizia a irmã revoltada, quando tinha os espinhos puxados pela alicate.
Esse ouriço, também é conhecido como Luís Caixeiro emite um barulho parecidíssimo com o choro de uma criança recém-nascida, que muitos confundem com assombração. Dizem que o nome Luís Caixeiro foi herdado de um caixeiro viajante, que vendia bugigangas pelo interior do Brasil e naquele tempo, as agulhas, linhas e outras necessidades domésticas eram supridas com a presença desse vendedor ambulante.
Cresci ouvindo essa história, e confesso que nunca gostei de deixar as janelas abertas à noite, mesmo na cidade.
Jaratataca
Houve-se um tempo em que as crianças cresciam livres nos quintais das fazendas. A junção de primos nas férias, deixava que o “ faz de conta” reinasse, desde a copa das árvores até suas sombras. A farra era tamanha que as brincadeiras existentes não eram suficientes para entreter toda a molecada, e era aí que a imaginação fluía e eram criadas as brincadeiras mais legais. E o inesperado, o imprevisto, o inusitado sempre estava apto a acontecer.
As brigas sempre surgiam, o que era mais que previsto. Principalmente quando estavam longe dos adultos. E tudo aconteceu por causa de um desses conflitos.
A brincadeira preferida da meninada era brincar de casinha. E antes da brincadeira começar, os mais velhos escolhiam entre os menores quem seriam seus filhos. A caçulinha da família era a preferida, todo mundo queria ser mãe dela.
Antes que a brincadeira começasse, quando a meninada estava toda empoleirada nos galhos de um pé de goiaba, as meninas maiores começaram a se desentender, pois todas queriam ser mãe da caçulinha. Para acalmar os ânimos, um dos primos interveio e pediu a pequena que escolhesse quem queria por mãe. Feita a escolha, uma das “mães enjeitadas” desistiu da brincadeira.
Desceu da goiabeira emburrada, praguejando contra as primas, quando viu entrando na clareira que ficava no meio do quintal um lindo animalzinho. Era todo rechonchudo, com um pelo negro que reluzia à luz do sol, contrastando com a lista branca que dividia-o em dois, desde a cabeça, perto dos olhos, até a ponta do rabo. Nunca havia vista um animal tão belo. Parecia um cachorrinho. Só que muito mais fofinho, e parecia ser muito mais limpo e cheiroso que os cães da fazenda.
A menina parou, agachou-se e ficou olhando a graciosidade do caminhar daquele pequeno ser que vinha da direção do mato, e atravessava a clareira todo senhor de si, balançando aquela calda imponente de duas cores. Tanto o branco alvíssimo, como se tivesse saído do banho naquele momento, como o negro reluzente, a hipnotizaram, e a expectadora, durante alguns segundos só conseguia mexer os músculos do pescoço, tentando repetir com a cabeça o movimento da calda do bichinho.
O animal concentrado em sua travessia, não percebeu a presença da menina. Não queria mais ser mãe da caçula, queria é ter um animalzinho que ninguém mais teria. As primas morreriam de inveja. Ela não tinha dúvidas, queria aquele bichinho para chamar de seu. Mas bastou que desse um passo a frente para que os instintos de defesa do pequeno mamífero detectassem sua presença. O bichinho levantou a cabeça, fitou-a nos olhos e deu uma assuntada mexendo com focinho. Pareceu ler os pensamentos de nossa amiga. Ao menor movimento da menina, começou a correr, e ela o seguiu. Dentre as muitas árvores do quintal, ele procurou refugio em um pé de siriguela. Como um gato, escalou seu tronco em um piscar de olhos e se misturou em meio às folhas tentando se esconder.
Quando a perseguidora chegou debaixo da árvore, o bichinho já estava lá no alto. Conhecia bem aqueles galhos. Os de baixo usava-os para virar coador e os de cima, subia lá nas “grimpas” atrás das suculentas seriguelas que por lá amadureciam. Com a destreza de uma moleca, em um instante já estava a distância de um braço do galho que servia de esconderijo. Mas bicho que é bicho não se dá por vencido. Ao perceber que o perigo se aproximava, começou a se distanciar e a procurar refúgio na ponta do galho. Sabia que não chegaria onde o animal estava por aquele caminho, pois o galho cada vez mais fino, poderia quebrar, e aquela altura, nem ela, nem o bicho sairiam dali ilesos. Olhou para o galho de baixo que era mais grosso e pulou de uma vez para ele. Quando se posicionava debaixo do bicho quase alcançando-o com a mão, sentiu algo molhado escorrendo cabeça abaixo , descendo pelas costas, através da roupa e ensopando-a toda. Quando olhou para cima, pode perceber a origem do líquido estranho. Desesperada, desceu da árvore em um pulo só. Correu em busca da mãe que cuidava de seus afazeres lá dentro da casa.
Num grito só, despejou tudo:
-Mainhêeee!!!
Tentou se aproximar, mas a mãe com uma das mãos a repeliu e com a outra apertou o nariz. Mandou a filha para o banheiro, enquanto foi confirmar suas suspeitas, no pé de seriguela.
De longe a mãe viu o branco e preto do bichinho tentando manter-se escondido entre o verde das folhas. Sua desconfiança se confirmou: era uma jaratataca, uma espécie de gambá do cerrado, que tem como arma de defesa a secreção de um líquido de odor bastante desagradável.
As roupas da menina foram jogadas fora, e a pobre tomou banho até ficar enrugada. Quando a meninada voltou do quintal, não souberam a origem daquele cheiro insuportável que custou a sair da casa.
“ História real acontecida com minha mãe.”
Os jogadores de truco e os dois hóspedes
Os irmãos Alfredo e Roberto, apesar de inseparáveis, eram muito diferentes um do outro. Alfredo, sempre metido a sabichão, era de uma má sorte sem igual. Já Roberto, o caçula, era meio “abilolado”, e sempre levava a melhor em relação ao irmão. Moravam com a mãe em um sítio, nas proximidades da capital, e toda semana levavam os produtos que colhiam para uma feira na cidade. Enchiam o carro de frutas, verduras e ovos fresquinhos e voltavam sempre com a carteira cheia de dinheiro, felizes da vida.
Naquele dia, depois da feira, foram abordados por um grupo de assaltantes, que renderam os dois irmãos. Deram uma coronhada na cabeça de Alfredo, um galo se levantou na hora. Já partiam para pegar Roberto, quando viram uma viatura se aproximando. Um dos meliantes disse um deles disse:
-Vam’bora! Vam´bora! Já tá bom! Já tá bom! Olha os homi...
Já haviam limpado os bolsos, as carteiras, jogaram os dois na calçada e fugiram no carro. A viatura que fazia ronda no local passou direto, e os dois irmãos jogados na calçada pareciam invisíveis. Sem nenhum telefone por perto, os dois se viram longe de casa e sem dinheiro para o ônibus.
-Alfredo, o que a gente faz agora?
-Vem perguntar pra mim? Você bem que poderia ter deixado uns trocados dentro da cueca, duvido que o ladrão achasse.
-Na cueca eu não deixei, mas tenho uns cinco contos dentro da meia. Dá pra gente comer alguma coisa!
Alfredo riu do irmão, e os dois se sentaram no meio fio, tentando achar uma solução.
Vendo que o irmão não tomava iniciativa, Roberto se levantou e disse:
-Alfredo, eu to com sede, e daqui a pouco minha barriga vai roncá. E saber que nesta horinha memo, a mãe tá fazendo aquela janta cheirozinha, esperando a gente! Hoje é dia de sopa de galinha! O que cê acha da gente ir de a pé? Se nóis ficá parado parecendo besta aqui, nunca vamo chegá!
Alfredo achou a idéia do irmão uma tolice, mas como não conseguia pensar em nada melhor, acatou, e os dois seguiram o rumo de casa.
Foi só sair da cidade e começar a rodovia que Roberto iniciou uma contagem regressiva:
-Farta 42 quilometro.
Um quilometro depois:
-Agora só farta 41 quilometro.
E continuava:
-Pela minhas conta, agora deve farta uns 38. A praca daqui sumiu.
Alfredo que já não aguentava mais Roberto medindo a distância, gritou feliz quando avistou uma placa que anunciava a proximidade de um posto de gasolina.
Apertaram o passo e chegaram no posto. Correram no orelhão, mas se lembraram que não tinham telefone de nenhum parente, a cadernetinha com os números, ficava no carro. Quase mortos de sede, Afredo sugeriu que comprassem água, mas Roberto só apontou para a torneira, o dinheiro era para ser gasto no jantar.
Um homem que passava por ali viu os dois e logo se aproximou.
Puxou assunto e Roberto, que falava pelos cotovelos, contou todo o acontecido.
-Que sorte! Amanhã cedo eu vou fazer um serviço pertinho do sítio d’ocêis. Se quiserem, podem ir dormir lá em casa, tenho um quartinho sobrando, minha muié ta viajando, eu to lá sozinho. Só chamei uns amigo pra jogar um truco, mas nóis num vai incomodá.
Desconfiado, Alfredo ia recusar, mas antes que pudesse fazê-lo, Roberto aceitou o convite sem hesitar.
Compraram algo para forrar o estômago e os dois seguiram o tal do homem em direção à sua casa, ali perto mesmo. Quando chegaram no quartinho que os hospedaria até o dia seguinte, o anfitrião abriu a porta e disse:
-Como eu disse, as acomodações são bem simples, mas fiquem à vontade. Se precisarem de alguma coisa é só chamar, mas cuidado, não saiam por aí sozinhos, pois os cachorros podem estranhar.
Virou as costas e voltou:
-Eu ia me esquecendo, mais tarde se ouvirem uns barulhos, não se preocupem, como eu falei hoje é dia do truco! Sabe, como é truqueiro, né?
Roberto respondeu:
-Tudo bem, do jeito que a gente ta cansado, acho que não vamu escutá nada.
Quando o homem saiu, os dois se viraram e se depararam com uma enorme cama de casal, coberta com uma colcha vermelha toda bordada, e com almofadas em forma de coração. Se olharam e começaram a rir da situação.
Roberto ficou sério de repente e disse:
- E o que que tem né? Não é porque a gente dorme na mesma cama que vamu deixá de ser macho, e ninguém precisa sabe disso, quando for contar a história vamo falá que tinha duas cama no quarto.
Alfredo balançou a cabeça negativamente e disse:
-Irmão, irmão, você é o cara mais abilolado que eu conheço. Tem certeza que você é mesmo filho da mesma mãe que eu?
Roberto consentiu com a cabeça. E os dois se deitaram.
Dormiram como uma pedra, mas no meio da noite acordaram com uma gritaria infernal vinda lá da casa:
-Truco!
-Seis mi, ladrão!
Do quartinho, Roberto foi o primeiro a falar:
-Alfredo, cê tá acordado?
-Tô! Quem dorme num calorão desse com essa gritaria? Se ainda pudesse abrir a janela,mas tem os cachorro!
-Se a gente tivesse ido andando já tinha chegado. Mamãe deve de ta preocupada, tadinha!
-Roberto, a ideia de aceitar o convite foi sua!
-Num sei o que que a gente veio fazê nesse mardita cidade, Alfredo! Se tivesse lá na roça nada disso teria acontecido! Mardito esses ladrão!
-Cala boca Roberto! Reclamar faz ainda aqui ficar mais calorento!
Enquanto os dois discutiam no quarto, na sala o truco ia longe. Em uma das mesas, os jogadores se lembraram dos hospedes do quartinho:
- Uai cumpade,quem é que ta no quartinho hoje?
-Eu emprestei pra dois troxa que encontrei perdido no posto.
-E eles dorme junto?
- Uai, dorme!
Um dos jogadores fez uma proposta:
-Gente, esse jogo tá danado de sem graça, já cansei de ganhá d’ocêis. Vamo por as coisa pra isquentá? O que ocêis acha de nois pegá um daqueis hospi e dá uma tunda? Onde já se viu, dois home durmino junto!
Uns concordaram e outros não, mas a maioria optou pela coça.
-Vamo pegá o do canto!
Entraram no quarto, uns quatro truqueiros já passados na bebida e puxaram Alfredo pelos pés tão devagar que Roberto que já havia pegado no sono nem percebeu.
Meio sem saber o que estava acontecendo, Alfredo levou uns pontapés, e safanões, sem reagir, pois estava em desvantagem.
Só pararam quando o afitrião interferiu. Levaram Alfredo para o quarto e ele se deitou gemendo.
Passaram algumas horas, sem poder fugir e sem acordar o irmão, Alfredo foi surpreendido novamente pelos truqueiros, um deles tinha ganhado uma rodada cujo premio era uma nova coça no visitante do canto. E o pobre foi surrado de novo.
Alfredo voltou para o quarto cambaleando, e desta vez empurrou o irmão para o canto da cama e tomou seu lugar.
-Eu não mereço apanhar sozinho, dormir aqui foi ideia dele! É o do canto que eles querem... Pensava enquanto o irmão ressonava ao seu lado.
Enquanto isso na sala, ao final da rodada o jogador outra vez ganhou a aposta, e já se levantava para ir buscar o hospede saco de pancadas, quando o dono da casa interveio:
-Chega de bater no coitado do canto, ele já apanhou que chega!
-Mas a aposta foi ganha, nos temos direito, ora!
-Eu não disse para não baterem, mas para não baterem no do canto. Agora, peguem o da beirada, o coitado do canto já apanhou demais!
E saíram em busca do hóspede da beirada, desta vez. Alfredo de novo entrou na pancada, pela terceira vez, já que havia trocado de lugar com o irmão.
No outro dia, Roberto acorda e nem nota o estado do irmão, cheio de hematomas e todo amassado. Dá uma espreguiçada e diz:
-Que noite péssima! Dormi tão mal. Sonhei com umas brigas, que você gemia a noite toda. Não a nada mais ruim do que uma noite mal dormida!
Alfredo, todo dolorido, faz um esforço danado para se levantar, calça suas botinas e sai do quarto mancando.
-Ôh, se há! Você nem faz ideia...
Os dois saem, e nem sinal da carona prometida. Roberto diz ao irmão:
-Alfredo, acho que você também estranhou a cama, tá com uma cara!
Sem carona, e com o corpo todo moído, Alfredo seguiu calado, escutando as sandices do irmãos, o caminho de casa.
Assinar:
Postagens (Atom)


