domingo, 13 de dezembro de 2009

Minha cidade - Cora Coralina

                                                                                                                                                                                     
"Minha querida amiga Cora Coralina: Seu "Vintém de Cobre" é, para mim, moeda de ouro, e de um ouro que não sofre as oscilações do mercado. É poesia das mais diretas e comunicativas que já tenho lido e amado. Que riqueza de experiência humana, que sensibilidade especial e que lirismo identificado com as fontes da vida! Aninha hoje não nos pertence. É patrimônio de nós todos, que nascemos no Brasil e amamos a poesia ( ...)."

 Carlos Drumond de Andrade

BIOGRAFIA
• Aninha
Ana Lins dos Guimarães Peixoto nasceu em 20 de agosto de 1889, na Casa Velha da Ponte. Filha do Desembargador Francisco de Paula Lins dos Guimarães Peixoto e Jacita Luiza do Couto Brandão. Cora, ou Aninha (apelido para seu nome de batismo), estudou apenas até a terceira série primária. Aos 14 anos escreveu seus primeiros contos e poemas. A poetisa apareceu no cenário literário local na adolescência, quando participou, com outras escritoras locais, da elaboração do jornal A Rosa, em 1907. Em 1910, aos 21 anos de idade, escreveu o conto Tragédia na Roça, que foi publicado no Anuário Geográfico e Histórico, assim, tornou-se conhecida por vários críticos da época pelo pseudônimo Cora Coralina que passou a fazer uso neste meio.É dessa primeira fase de sua vida que Cora extraiu as memórias que compõem a maior parte de seus poemas. É como Aninha que Cora se auto-nomeia e é através de seus olhos inquietos de criança que surgiria um futuro olhar poético.
• Cora Bretas
Em 1910 Cora se casa com Cantídio Bretas. Em 1911, parte, já grávida de sua primeira filha, para São Paulo. Nessa fase de sua vida, Cora assume o papel de mãe e dona de casa, entrando em uma nova etapa de sua vida. Cora teve 6 filhos e ficou 45 anos morando no estado de São Paulo. Cantídio faleceu em 1934. Já viúva, aos 67 anos de idade, voltou à sua cidade natal.
Cora Coralina morou nas cidades de Jaboticabal, São Paulo, Penápolis, Andradina. Nunca voltou a Goiás durante esse tempo. Em Jaboticabal , Cora Coralina trabalhou, com sucesso, comercializando flores (principalmente rosas); também participou da criação da Assistência Beneficente Social de Jaboticabal, fundada pela Associação das Damas de Caridade; em São Paulo, abriu uma pensão – considerando que ela cozinhava bem e tinha contatos na cidade; em Penápolis, se envolveu com a venda de vários tipos de mudas de árvores, o que contribuiu para campanhas pró-arborização nas cidades vizinhas, e com comércio de tecidos e aviamentos. Ainda em Penápolis, sua vida foi ligada ao Santuário São Francisco de Assis, onde ela se sentiu plenamente integrada aos valores franciscanos; em Andradina ficou conhecida por todos devido a sua ligação com a terra. Dona de um sítio conhecido como Casinha Branca em Castilho (um pequeno vilarejo ao lado de Andradina), ela fez um bonito nome de chacareira, vendendo verduras, legumes e lingüiça de porco feita e temperada por ela mesma.
• Cora Coralina
Sua poesia tornou-se conhecida e valorizada, nacionalmente, principalmente depois de publicados os dizeres de dois escritores sobre sua pessoa: Osvaldino Marques - escritor maranhense, que escreveu o artigo ‘Cora Coralina, professora de existência’, na década de 70, e Carlos Drummond de Andrade, que na década de 80, lançou a famosa mensagem pública declarando ser ela a pessoa mais importante de Goiás. É nesse momento que Cora Coralina surge como escritora.
Seu primeiro livro só foi publicado em 1965, aos 76 anos. É uma história de vida contada na perspectiva de uma mulher que, só no fim da vida, encontrou na poesia o devido espaço para expressar, com singularidade, suas percepções sobre o tempo em que viveu. Ela se mostra, principalmente neste momento de sua vida, uma mulher independente nas idéias e atitudes.
Cora Coralina faleceu em 10 de abril de 1985, em Goiânia, tendo sido o seu corpo levado para Goiás, onde se encontra no Cemitério São Miguel. Sua poesia permanece mais viva do que nunca, na memória de muitos que admiram a sua história.

Quando eu morrer, não morrerei de tudo.
 Estarei sempre nas páginas deste livro, criação mais viva
Da minha vida interior em parto solitário.


(Vintém de cobre ‘Meias Confissões de Aninha’, p.52, 8°ed., 1996)

Um olhar sobre JJ veiga


 José Jacintho Pereira Veiga (1915-1999) era goiano de Corumbá de Goiás, dizem dever a escolha de seu nome literário à ajuda de Guimarães Rosa que, com argumentos tirados da numerologia e estilísticos, sugeriu: José J. Veiga, na altura da publicação do livro de estréia "Os Cavalinhos de Platiplanto", em 1959.
O goiano publicou vários livros: "Sombras de Reis Barbudos", "A Estranha Máquina Extraviada", "Objetos Turbulentos", "De Jogos e Festas", "A Usina Atrás do Morro", "Aquele Mundo de Vasabarros" e "Os Pecados da Tribo", entre outros. A crítica não entra em um consenso quanto à classificação de sua obra: já foi chamada de regionalista goiana, conto rural, realismo mágico, fantástico, alegórico, entre outras classificações. Também experimentou vários gêneros, desde o conto, a novela, o romance , até a fábula. Teve seus livros lançados nos Estados Unidos, Inglaterra, México, Espanha, Dinamarca, Suécia, Noruega e Portugal. Ganhou a versão 1997 do Prêmio Machado de Assis, outorgado pela Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto de sua obra. Morreu no Rio de Janeiro, com 74 anos.
Veiga faz proveito das paisagens goianas em sua obra, além de tipos, linguagem e costumes locais, porém em um plano mais de invenção que de relato, pois apesar de privilegiar espaços do meio rural, pequenos povoados de Goiás, onde buscava histórias sobre o homem oprimido por violências de diferentes tipos de poder, a sua individualidade se afasta do regionalismo, indo além. Como diz Agostinho (1990), possui estilo próprio, pois parte do regionalismo, num conceito menos restrito, e envereda para o fantástico moderno. Ele via a realidade mais profundamente, enxergando suas camadas mais profundas. Contempla temas contemporâneos, como a relação de opressão e invasão do campo pela cidade tratados em um universo que pode estar em qualquer tempo e lugar, mas sempre em cidades e povoados pequenos.
O seu conto  “ A Máquina Extraviada” é uma narrativa que a partir da observação de um narrador, conta o desenrolar de uma situação vivida por personagens típicos do cotidiano, em uma cidadezinha pacata e interiorana. O leitor se depara com um mistério. Uma máquina foi extraviada de seu destino, não se sabe por quem, e nem por que, e é descarregada e deixada em frente à prefeitura de uma cidadezinha do interior, que tem todo o seu cotidiano transformado com a presença do tal artefato. O autor está falando alegoricamente sobre a invasão do novo, do diferente, das novas descobertas tecnológicas, O fascínio que as pessoas em geral têm pelo desconhecido, pelo inexplicável e como tudo isso pode mudar a vida das pessoas.
Na narrativa, o narrador dirige-se a seu compadre, que é familiarizado com o lugar onde os fatos acontecem, e que sempre pergunta sobre as novidades. Entusiasmado, por ter uma novidade importante para contar, relata o acontecimento que mudou o cotidiano da cidade. Uma máquina, desmontada, sem uma significação concreta, é deixada na porta da Prefeitura. Os únicos que poderiam dar uma explicação para o acontecimento, seriam os entregadores, porém não deram “abertura” para que a população local fizesse as perguntas necessárias para desvendar o mistério, indo embora sem dar nenhuma explicação. Apesar de serem “apenas” os entregadores da máquina, esses homens se sentem acima dos moradores locais, ignorando-os. Tal atitude é previsível diante da hierarquia do progresso, eles se sentem privilegiados e vêem os outros como inferiores. O que supostamente possui maior acesso às novidades, direta ou indiretamente, oprime os que vivem a margem do progresso.
Deixada ali, coberta com uma lona, que foi retirada na primeira oportunidade pelas crianças, a novidade atrai a atenção de toda a cidade, desde o prefeito, que incumbiu um funcionário para manter sempre polida as engrenagens, e um beberrão que ficou preso nas ferragens da máquina, após uma bebedeira, o que causa a amputação de sua perna. Com isso, ele usa o seu tempo livre para cuidar da máquina e poli-la. As crianças são mais suscetíveis às mudanças, se adaptam mais rapidamente e são “presas” mais facilmente às novidades, juntamente com os jovens. Veja que são elas que tiram a lona que encobria o objeto, levando ao conhecimento de todos o que estava encoberto. São elas quem se familiarizam primeiro, que tocaram primeiro, seja pela simples curiosidade infantil e pela facilidade que têm em assimilar o novo. Até o homem mais corajoso da cidade, conhecido como derrubador de bois pelos chifres, respeita a seu modo a máquina. O encanto chega até nas velhinhas, que quando passam pela máquina a caminho da igreja, fazem uma espécie de reverência com a cabeça. O único que se mantêm imune ao acontecimento é o padre, chamado pelo narrador de velho ranzinza. A única pessoa em uma cidade que demonstra uma aversão à máquina, o padre nos remete a uma pequena parcela diferente da sociedade que tende a negar o que é novo. Pessoas arraigadas à tradição, avessas às novas tecnologias.
A estranha máquina se torna objeto de adoração, até milagres lhe são atribuídos. Um monumento que muda as conversas, os hábitos da cidadezinha. O povo simples, fascinado pela novidade, inicia uma espécie de culto à máquina. Tudo o que acontece de importante na cidade, acontece ali, aos pés da máquina. O universo interiorano entra em choque com a invasão da máquina , acarretando um estranhamento cultural. A aparição do inusitado, do diferente causa uma quebra na linearidade dos acontecimentos locais. A simples ameaça de terem levado dali o objeto de adoração, causa receio à população. Mesmo sem apresentar um propósito real para que veio: a única vez que teve suas engrenagens funcionando foi acidentalmente, que causou uma amputação a um morador da cidade, alegoricamente denotando que nem sempre as máquinas funcionam como deveriam, ela causa um fascínio, um efeito sedutor, que suga para si a atenção das pessoas. A máquina transcende o inanimado, o inerte, tornando -se algo encantado. Exerce um domínio sobre as pessoas do lugar, domínio este que chega até as cidades vizinhas. Já existe um movimento para levá-la a monumento municipal, “por enquanto”, como diz o narrador.
Segundo Agostinho (1990), o evento novo que poderia ser apenas imprevisto, passa a exercer a função de revelador de um processo em uma sociedade. Esse evento causa tamanho impacto que revela outra face desta sociedade. Uma sociedade que se apega a valores e a coisas, uma sociedade que se deixa envolver, oprimir pela novidade, que adora um objeto só pelo fato dele ser diferente, novo, desconhecido. Como Bosi (1984) afirma, o evento novo que poderia ser visto apenas como imprevisto, exerce a função de revelador de um processo de transformação. A sociedade local se sente submissa ao progresso, aqui representado pela máquina. Há uma espécie de conflito de culturas, de um lado o mundo conservador, equilibrado, do povoado, de outro o mundo que vem do ambiente urbano, representado no conto pela máquina, que invade, contesta, manipula e oprime. Neste embate, há uma espécie de aculturamento. A cidadezinha nunca mais voltará a ser o que era depois da chegada da “máquina”. Tudo isso faz parte de uma temática de rejeição à modernidade tecnológica, vista como uma invasão sofrida principalmente pelos povos subdesenvolvidos, pelas classes menos abastadas e pelos que habitam longe dos grandes centros.
J.J.Veiga apresenta uma verdade coberta de fantasia, uma sátira disfarçada. Do corriqueiro, cenas tiradas do contexto cotidiano, do regional ele extrai situações inusitadas, chegando ao campo do insólito do fantástico, como “endeusar” uma máquina abandonada em frente ao prédio de uma prefeitura de uma cidadezinha interiorana, adorá-la como um ídolo:” Dizem que a máquina já tem feito até milagre...” .
O conto data de 1967, porém o seu tema é atualíssimo: o deslumbramento do homem perante as máquinas, a opressão que as novas tecnologias exercem sobre uma sociedade. Nenhuma nova invenção tecnológica surge impunemente. A tecnologia tem um poder transformador que transcende os seus limites. Desde hábitos do cotidiano, até a nossa própria linguagem, concepções de liberdade, a maneira de pensarmos e de agirmos. A sociedade é levada às mudanças, como uma ave para o laço, sem nos dar conta, na maioria das vezes. Isso acontece diariamente. As pessoas vivem em uma condição de reféns da tecnologia. A cada dia se tornam mais dependentes dela. Ao ponto de uma queda de energia fazer parar uma cidade de um milhão de habitantes.
J. J. Veiga percebeu que a sociedade está refém do novo. Como continua sendo hoje refém da “última geração”, seja disto ou daquilo (celular, carro, relógio), ela vive escravizada pela última moda, pelo consumismo. Uma opressão silenciosa, que age cautelosamente, com maior ou menor densidade atinge diversas camadas da sociedade (senão todas). Poucos estão imunes, só alguns, assim como o vigário do conto, que se recusa a aderir ao movimento.
O impacto causado por algo novo, diferente, em uma população acostumada com as grandes novidades tecnológicas é grande. Imagine em uma pacata cidadezinha interiorana , onde o tempo parece não passar, onde não há novidades importantes. Mesmo ali desmontada, sem desempenhar a função para qual foi construída, exerce poder sobre as pessoas.
Antes de anunciar uma ameaça à sociedade local, esse relato prenuncia a uma beleza poética que acena para uma verdade original, a ameaça que pesa sobre o homem, não vem, em primeiro lugar, das máquinas e equipamentos técnicos, cuja ação pode ser eventualmente mortífera, mas do próprio homem que está por detrás destas máquinas.
O contista goiano J.J. Veiga é conhecido como um autor criador de contos fantásticos e absurdos. Mas um de seus temas recorrentes é a retratação da relação de opressão e invasão do campo pela cidade. Como o novo que vem de fora sobrepõe a tradição das pequenas cidades. O novo oprimindo o antigo, o tradicional. Ele trabalha com o universo interiorano, e a sua população simples, que se vê transformada mediante a chegada de algo que vem de fora.


SOUZA, Agostinho Potenciano. Um olhar crítico sobre nosso tempo. Campinas: Unicamp, 1990.
VEIGA, José J. A máquina extraviada. In: A estranha máquina extraviada. 11. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002.

A NATUREZA E O HOMEM EM “NINHO DE PERIQUITOS” DE H. C. RAMOS

A palavra Ecologia etimologicamente vem da junção de duas palavras gregas: Oikos, que significa: habitação, e leguein, a aportuguesada  “logia”, e quer dizer tratamento sistemático de um tema. Ou seja, falar de ecologia, é falar de nossa habitação maior, como dizem na biologia, nosso habitat: a natureza.
A relação entre Literatura e Ecologia não é algo novo, pois podemos encontrar em textos literários , desde os mais remotos, a ligação entre homem e natureza.
Para o presente trabalho escolhi o conto “Ninho de Periquitos” do escritor goiano Hugo de Carvalho Ramos (1895-1921). A escolha se deu pelo fato de que ao ler seu livro de contos “Tropas e Boiadas”, me deparei com um autor que tinha grande apreço pela natureza, especialmente pela fauna e flora de nosso estado. Seus contos estão “recheados” de periquitos, marias-pretas, urutus, manjericões, sucupiras, ingazeiras, tatus, e outros animais e árvores tão familiares aos goianos que cresceram no interior do estado. Ao lê-lo pude ter contato com as raízes de nosso estado, de nosso povo, como era a relação entre homem e esta natureza, em outros tempos. Alfredo Bosi diz que os contos de Tropas e boiadas, revelam plena aderência aos mais variados aspectos da natureza e da vida social goiana que reponta vigorosa em toda parte. É por isso que ao ler “Tropas e Boiadas” podemos tirar conclusões de como era, de como é, e de como será nosso sertão. O livro reúne vários contos, Ninho de Periquitos foi o escolhido pelo fato de fazer parte das histórias que eu ouvia na infância. Um homem, que cortou a própria mão após nela ser picado por uma serpente cuja peçonha lhe seria letal.
O conto fala de Domingos, um homem da terra, que dela tira tudo o que precisa. Que no dia do aniversário de seu filho Janjão, vai lhe buscar como presente, filhotes de periquitos, que estão em um ninho localizado dentro de um cupim abandonado. Ao enfiar a mão no buraco que dá acesso ao ninho, é picado na mão por uma cobra que possui veneno letal. Domingos, antes que o veneno se espalhe pelo seu corpo, decepa a própria mão com um golpe de foice.
É um conto regionalista, onde estão presentes os costumes de uma época e lugar. Os indícios do tema “natureza” já são percebidos no título: Ninho de Periquitos. Periquito é uma ave típica do cerrado, que faz seus ninhos em buracos de árvores, e em outras cavidades abandonadas encontradas no cerrado. Faz ainda parte da cultura de alguns grupos sertanejos capturar seus filhotes utilizá-los como animais de estimação.
A narrativa segue do começo ao fim enumerando e descrevendo aspectos da vida de um sertanejo. Os fatos se iniciam já no virar da tarde de um domingo quente de verão, no qual Domingos após se alimentar de uma “ cuia de jacuba de farinha de milho e rapadura” e se entreter dando “uns respondos na viola” em sua “rede de embira” se levanta e vai afiar sua foice em uma pedra. Podemos perceber que nesta série de elementos que compõem a cena descrita, apenas dois não são extraídos diretamente da natureza: a viola e a foice. Ele retira dela seu alimento: a farinha de mandioca e a rapadura, sua rede de embira (uma fibra retirada de folhas de plantas como a bananeira e a palma) , e ainda a pedra que afia a foice. Isso nos mostra a relação de dependência que tem Domingos com relação à natureza. Dependência esta, que é reforçada no decorrer da narrativa: “[...] véspera da colheita. O milharal estendia-se além, na baixada das velhas terras devolutas, amarelecido já pela quebra, que realizara dias antes.” ; “ Enquanto amolava o ferro, no propósito de ir picar uns galhos de coivara no fundo do plantio para o fogo da cozinha.”; “ andou lá pelos fundos da roça, a colher uns pepinos temporões.”; “as alpercatas de couro crú”. Observe nos trechos selecionados que Domingos retira da natureza praticamente tudo o que precisa para sobreviver.
Os fatores climáticos também estão em comunhão com as necessidades do sertanejo: “o veranico que andava duro na quinzena”. Os sertanejos denominam de “veranico” período de sol em tempo de chuva, em Goiás especificamente há o que chamam de veranico de janeiro. Quinze dias de sol em pleno verão ajuda em tempos de colheita.
No conto há uma referência às queimadas, que em terras de cerrado, tinha (ainda têm) época certa:”[...] galgou a barroca fronteira e endireitou rumo a maria-preta,[...] toda tostada desde à época da queima pelas lufadas de fogo que subiam da malhada.” (pág. 66). Hugo descreve a natureza goiana tão bem que fica difícil não imaginarmos as labaredas lambendo a árvore, e a deixando “tostada”. As queimadas usadas pelo sertanejo para “limpar” o solo do capim seco e das pragas, queimavam tudo o que tinham à frente, inclusive árvores e animais.
Podemos dividir o conto em duas partes. Na primeira, a narrativa descreve aspectos da vida sertaneja, a segunda, a narrativa caminha para seu clímax: o filho pede que o pai lhe busque os filhotes, este reluta em acatar o pedido do filho: “Ora, deixassem lá em paz os passarinhos.” Mas como é dia do aniversário do menino, “não valia por tão pouco amuá-lo.” (pág 65). Domingos acaba indo buscar os periquitos. Até o presente de aniversário do filho é retirado da natureza.
A cobra aparece como obstáculo entre os periquitos e Domingos. Ele o fere, e lhe transmite seu venenoletal. O réptil estava dormindo, poderia estar também aproveitando a “canícula” do virar da tarde, tal como Domingos no início da narrativa, acordado, age por instinto e o pica, e já “preparava-se para novo ataque ao inoportuno que viera arrancá-lo da sesta; e pó caboclo, voltando a si do estupor, num gesto instintivo, sacou da bainha o largo jacaré inseparável, amputando-lhe a cabeça dum golpe certeiro.” (pág. 66). O sertanejo, por instinto decepa-lhe a cabeça e depois a própria mão. O bicho era uma cobra denominada Urutu, e contra seu veneno, nem a “mesinha doméstica, nem a dos campos, possuíam salvação.” O homem do sertão também retirava da natureza antídotos para algumas peçonhas. Só que a natureza também tem seus percalços. Para esta não havia remédio, nem salvação. A única solução possível seria retirar o veneno, amputando a parte afetada, antes que este se espalhasse.
O sertanejo mantém uma relação de dependência e de exploração com a natureza. Ele só existe porque a natureza lhe dá tudo o que ele necessita. Desde a alpercata de couro crú até os remédios tirados das plantas. Porém a natureza é apresentada de forma traiçoeira, como se fosse um antagonista, que passa a narrativa inteira em uma condição de serva do homem, servindo-o em todas as suas necessidades, e após ganhar a confiança do personagem o ataca pelas costas. A cobra ganha status de personagem, pois tem importância fundamental na narrativa.
O fato de a cobra o picar impiedosamente pode ser uma espécie de vingança. Ele não estava ali por acaso, estava se protegendo também, e os filhotes de periquitos que não aparecem na narrativa, podem ter sido devorados pela serpente, que após o “almoço”, acorda incomodada pelas mãos invasoras do sertanejo, e se defende, mordendo-o. A natureza sempre é “acordada”, incomodada pelo homem, que a explora, que a modifica. Primeiro ele decepa a cabeça da cobra, depois o próprio braço. Ele revida a vingança, o ataque. Isso demonstra a prepotência do homem perante a natureza. Se sente senhor, dono. Porém os dois saem decepados. Uma analogia pode ser feita entre os ataques da natureza ao homem, e os ataques do homem à natureza. Ambos saem mutilados. Ambos saem perdendo. No conto, a cobra perdeu mais, perdeu a vida. A natureza se vinga, mas na maioria das vezes sai perdendo.



Bibliografia:

BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 43ª Ed. São Paulo. Cultrix: 2006

RAMOS, Hugo de Carvalho. Ninho de Periquitos In: Tropas e Boiadas. Rio de Janeiro. Lacerda Editora: 2003

domingo, 6 de dezembro de 2009

Ninho de Periquitos - Hugo de Carvalho Ramos



Ninho de periquitos




Publicado na Folha da Manhã, domingo, 18 de setembro de 1949.



(Neste texto foi mantida a grafia original)



Abrandando a canicula pelo virar da tarde, abandonou a rede de imbira onde se entretinha arranhando uns respontos na viola, após farta cuia de jacuba de farinha de milho e rapadura que bebera em silencio, às largas colheradas, e saiu ao terreiro, onde demorou a afiar numa pedra piçarra o corte da foice.
Era pelo domingo, vesperas quase da colheita. O milharal estendia-se alem, na baixada das velhas terras devolutas, amarelecido já pela quebra, que realizara dias antes, e o veranico, que andava duro na quinzena.
Enquanto amolava o ferro, no proposito de ir picar uns galhos de coivara no fundo do plantio para o fogo da cozinha, o Janjão rondava em torno, rebolando na terra, olho aguçado para o trabalho paterno.
— Não se esquesse, o papá, dos filhotes de periquito que ficavam lá no fundo do grotão, entre as macegas espinhosas de "malicia", num cupim velho do pé de maria-preta. Não esquecesse...
O roceiro andou lá pelos fundos da roça, a colher uns pepinos temporões, foi ao paiol de palha de arroz mais uma vez avaliando com a vista se possuia capacidade precisa para a rica colheita do ano; e, tendo ajuntado os gravetos e uns cernes de coivara, amarrava o feixe e ia já a recolher caminho de casa, quando se lembrou do pedido do pequeno.
— Ora, deixassem lá em paz os passarinhos.
Mas naquele dia assentava o Janjão a sua primeira dezena tristonha de anos e, pois, não valia por tão pouco amuá-lo.
O caipira pousou a braçada de lenha, encostando-a à cerca do roçado; passou a perna por cima e, pulando do outro lado, as alpercatas de couro cru a pisar forte o espinharal ressequido que estralejava, entranhou-se pelo grotão - nesses dias sem pinga dagua - galgou a barroca fronteira e endireitou rumo da maria-preta, que abria ao mormaço crepuscular da tarde a galharada esguia, toda tostada, desde a epoca de queima, pelas lufadas de fogo que subiam da malhada. Ali mesmo, na bifurcação do tronco, assentada sobre a forquilha da arvore, à altura do peito, escancarava a boca negra para o nascente a casa abandonada dos cupins, onde um casal de periquitos fizera ninho essa estação.
O lavrador alçou com cautela a destra calosa, rebuscando lá por dentro os dois borrachos. Mas tirou-a num repente, surpicadela incisiva, dolorosa, rasgara-lhe por dois pontos, vivamente, a palma da mão.
E enquanto olhava admirado, uma cabeça disforme, oblonga, encimada à testa duma cruz, aparecia à aberta do cupinzeiro, fitando-o persistente, com seus olhinhos redondos, onde uma chispa má luzia malignamente...
O matuto sentiu uma frialdade mortuaria percorrendo-o ao longo da espinha...Era uma urutu, a terrivel urutu do sertão, para a qual nem a mezinha domestica, nem a dos campos, possuiam salvação...
— Perdido... completamente perdido...
O reptil, mostrando a lingua bifida, chispando as pupilas em colera, a fitá-lo ameaçador, preparava-se para novo ataque ao importuno que viera arrancá-lo da sesta. O caboclo, voltando a si do estupor, num gesto instintivo, sacou da bainha o largo "jacaré" inseparavel e amputou-lhe a cabeça dum golpe certeiro.
Então, sem vacilar, num movimento inda mais brusco, apoiando a mão molesta à casca carunchosa da arvore, decepou-a noutro golpe, cerce quase à juntura do pulso.
E enrolando o punho preendido. É que uma mutilado na camisola de algodão, que foi rasgando entre os dentes, saiu do cerrado, calcando duro, sobranceiro e altivo, rumo de casa, como um deus selvagem e triunfante apontando a mata companheira, mas assassina, mas perfidamente traiçoeira...

HUGO DE CARVALHO RAMOS — Pouco se pode dizer sobre a vida deste escritor. Teve a infancia e a mocidade atribuladas e um suicidio que cortou para sempre sua vida inquieta, quando mal completara 28 anos de idade. O unico livro que deixou, "Tropas e Boiadas" merece ser colocado no mesmo plano em que pairam "Pelo Sertão" e "Os Caboclos", de Afonso Arinos e Valdomiro Silveira. Este conto faz parte deste  livro: Tropas e Boiadas, que recentemente voltou a ser publicado, mais de 50 anos depois de sua última edição, e eu claro, não podia perder a oportunidade, comprei-o. Hoje faz parte de meu pequeno e modesto acervo.
Mas de pode encontrar este e outros contos do Hugo na internet, pois sua obra já se encontra  sob domínio público.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

A Serra

A Serra


Da minha janela avisto uma Serra.
Ela sempre está lá. Quieta. Cerrada. Parece que espera algo. Entra verão, sai verão, ora mais verde, ora mais cinza, e ela lá.
Já tentei imaginar como seria a vista daqui sem ela. Nossa! Ia dar pra ver tão longe. Tantas coisas ficam escondidas lá detrás. Sei que estão lá, mas a Serra, não me deixa ver mais nada.
Não é uma Serra grande, imponente, como as doutras bandas. É uma Serra modesta, mas é uma Serra. Alguns a chamam de morro. Não gosto deste termo. Morro é o verbo morrer em primeira pessoa: Eu morro. Isso só soa bem quando dizemos, da forma exagerada que temos, algo que sentimos com intensidade: Morro de amores, morro de vontade, morro de saudade... Ou seja, no sentido que chamamos hiperbólico, exagerado. Como se não fosse possível morrer literalmente dessas coisas. Mas, deixemos o morro, e vamos a Serra.
Ela fica linda quando a aurora desponta com os primeiros raios. Parece que está sorrindo. Não sei se é de alegria, ou se é o sol, que quando aparece atrás dela, dá uma esbarradinha, e acaba fazendo cócegas. Sei que ela divide algo comigo. Cumplicidade! Deve ser isso. Acho que cerramos um pacto. Um pacto de silêncio.
Temos algumas diferenças. Já até briguei com ela, e fechei a janela. Não adiantou. Sei que está lá. Sem ver, eu sinto. Me arrependi. Sei que preciso mais dela, do que ela de mim. Tornei a abrir a janela.
Gosto de ficar olhando para ela. Seus contornos. As arvorezinhas tortas de suas encostas, a linha irregular que a separa do céu. A vida que ela abriga, dezenas e dezenas de espécies. Que a faz de berçário, de lar, e muitas vezes de sepulcro.
Em dias cerrados, ela fica meio escondida. Lá do meio das nuvens, encoberta, penso que ela também me observa. Calada. Tentando me decifrar. É para ela que conto os meus segredos, os meus sonhos. Ela me entende.
Sei que um dia vamos nos separar, irei conjugar o tal verbo em primeira pessoa. Ela vai ficar. As Serras sempre ficam. Se eu pudesse a levaria comigo, mas ela não é minha. Nem sei de quem ela é. De alguém deve ser. Tudo neste mundo, tem um dono. Ainda mais uma Serra. Uma Serra como aquela. Se fosse minha... Eu não faria nada. Deixaria assim. Como está. Ela lá e eu aqui.

E.B.S.




segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Então, vai resistir? Pior do que ler, é ler e gostar!


Passei muito tempo de minha vida de leitora só lendo os grandes clássicos da literatura. Graças a algumas influências extra-acadêmicas, comecei a reservar um tempinho para alguns best-sellers. E parece que peguei hábito. Mas como sou da área devo conhecer tudo, não é mesmo? Procuro intercalar minhas leituras, lendo um clássico e em seguida, um livro mais “da hora”, como dizem por aí.
E não há mais da hora no momento do que os livros da americana Stephenie Meyer: Twilight Series (a saga Crepúsculo).
Ouvi falar dos livros quando saiu o primeiro filme, ano passado. Na época não me interessei pela leitura, li algo a respeito aqui e ali e ficou por isso. Logo depois que saiu o DVD do filme, o assunto , que nem tinha saído da mídia, voltou com tudo, e foi nessa época que li algumas críticas e resenhas a respeito do filme/livro, e vi que a coisa tinha tomado grandes proporções. Todo mundo estava lendo esses livros, e se estão lendo, eles devem de ter algo de diferente, de novo. Não é qualquer livro que ultrapassa a casa dos milhões de exemplares vendidos, e se formos computar todos os quatro livros da saga, já está perto dos 100 milhões, se é que já não ultrapassou.
Pois é, li os quatro livros em uma semana praticamente.
São envolventes sim, são interessantes sim. E que se dane as críticas. A mulher escreve o que os jovens querem ler, e isso é o que vale. Não dá para parar no primeiro livro. Claro que no final de Crepúsculo já sabemos que ela vai virar vampira, mas queremos saber como isso vai acontecer. E no final de Lua nova, queremos saber o que vai ser do duelo entre Jacob e Edward, que vai ficar com Bella, e ai vai... A gravidez de Bella, até que chega a grande batalha final entre os Volturi e os Cullens (Amanhecer). A esta altura, já estamos torcendo para que a autora termine de escrever Midnight Sun, e alongue a saga com outras novidades.
Livros como este e como Harry Potter atraem leitores novos, isso é um fato. Gente que não tem o hábito de ler está lendo. O fenômeno se torna muito maior se formos levar em conta que hoje há várias formas de se ler um livro. Quantos milhões de downloads não foram feitos, quantas pessoas lêem e repassam aos amigos, e assim vai. Impossível determinar quantos foram os contaminados pelo veneno dos vampiros de Forks.
Leitores de Crepúsculo no mínimo lerão quatro livros, e isso em nosso país, onde a média de leitura por habitante é inexpressiva, representa um esperança, e nós professores, sobre os quais recai o peso de levar os jovens ao letramento, ganhamos aliados importantíssimos nessa batalha: Edward e Bela estão batalhando pelo seu amor e de quebra estão fazendo despertar nos jovens o gosto pela leitura.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Agosto em Goiás é de dar gosto

Vento, ar seco, poeira, fumaça, vegetação seca. É o mês de agosto em Goiás. A seca que nos visita todo ano. Normalmente de maio até meados de setembro, se as interferências do aquecimento global não alongar ou encurtar o período.
O cinza predomina na vegetação. Às vezes, quando miramos o horizonte nas terras altas do planalto central, nem dá para separar o que é terra do que é céu, pois tudo se torna enfumaçado. Parece que a vegetação dorme, algumas árvores parecem mortas. Da exuberante copa que as cobriam nos meses de chuva farta, só restam galhos sem folhas e retorcidos. Olhos menos atentos afirmariam que a vida abandonou o cerrado. A monotonia do cinza impera em todas as direções. Salvo nos brejos e veredas, onde o verde dos buritis é uma constante o ano todo. Ficam secas, e só sobrevivem às labaredas que lambem nossos campos, por causa de suas cascas grossas, que agem como uma armadura forjada pela evolução. Como nós, antes de um grande baile, tiramos uma soneca, o cerrado parecem dormir... Cerrado, fechado, como se estivesse hibernando. Como se estivesse economizando energia para um grande evento que está por vir.
Mas em um passe de mágica, o inesperado acontece! Galhos secos e retorcidos se cobrem de cor, de beleza, de vida. As cascas grossas, antes uma característica predominante, agora são assessórios coadjuvantes, que vão cedendo lugar à majestosa vestimenta.
Uma explosão de cor invade o cerrado. Por toda parte, ipês, caraíbas, pequizeiros, ingazeiros, cajueiros... Grande parte das arvores típicas do cerrado floresce durante este mês. Frutíferas ou não, as árvores se vestem de flores, que se abrem como se estivessem sincronizadas. Se aprontam, se enfeitam como protagonistas de grande um baile orquestrado pela mãe natureza.
A primavera só chega em setembro, mas por aqui o espetáculo das flores acontece antecipadamente. Somos privilegiados. Tudo isso desperta nas aves da região o romantismo. O florescer das árvores é o sinal de que a fartura de comida se aproxima, é tempo de namoro. Lideradas pelo maestro sabiá, entram na festa e fazem ecoar sob as copas enfeitadas, um canto magnífico. Canto este que mesmo vindo de espécies diferentes forma um único coro, celebrando a vida. Um chamado para o amor que engrandece ainda mais o momento.
A vegetação típica do centro-oeste brasileiro mostra todo o seu esplendor, toda a sua beleza, mesmo no meio da escassez de chuva, dos galhos aparentemente mortos pela seca há vida, não economizam no espetáculo. Evento este, que cada vez fica mais longe dos nossos olhos, ou ocorre isoladamente em uma ou outra árvore sobrevivente da ação predadora do homem.
Infelizmente, nossas árvores tortas, depois de arderem em fornos, estão virando carvão. Cuja cor negra não é um mero acaso. É luto. Um protesto silencioso pela morte de nossas árvores. Pois cada vez mais os cenários da grande festa estão sendo tomados, dando lugar a expansão das cidades, ou a agropecuária. Exprimido entre lavouras, pastagens e cidades, o cerrado ainda se enfeita, sem saber que esta pode ser a derradeira festa.

E.Bonifácio

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

A luz de Natal da vizinha


A primeira coisa que me fez cair a ficha que o ano está acabando, foi a luz de Natal que a casa da vizinha ostenta desde o último sábado. A primeira que vi, mas outras estão aparecendo: uma aqui , outra ali, ainda com um certo acanhamento próprio de quem chega muito cedo a uma festa. Mas estão ai, e o ano, este já está de mala pronta para ir embora.
Sou meio avessa a Natal e a Ano Novo. Festas de final de ano me deixam estranhamente triste, penso que é nesta época que toda a melancolia que guardo durante o ano vem à flora. Nesta vida corrida que levamos nem temos tempo para pensar, mas parece que final de ano as coisas desaceleram em algum lugar e me sobra tempo para sentir a vida se esvaindo por um ralo, e eu ali só olhando, passivamente.
Lembro-me que ano passado nesta época fiz algumas promessas, tipo daquelas que todo mundo faz: Iniciar uma dieta, pedir um aumento, ser mais isso, menos aquilo, ir mais vezes na Igreja. O engraçado é que não cumpri nenhuma delas, e já estou pensando o que vou prometer 2010. Todas as promessas do ano passado e mais algumas...

sábado, 14 de novembro de 2009

Resenha texto Cleidemar A Fernandes- AD

Com o objetivo de reunir em um livro, os principais subsídios para as atividades de ensino da disciplina Texto e Discurso, Cleidemar Alves Fernandes em ANÁLISE DO DISCURSO, Reflexões Introdutórias (Trilhas Urbanas, 2005), faz uma reflexão em torno de conceitos básicos, além de delinear caminhos para estudos mais aprofundados na área.
A autora inicia com uma definição do objeto de estudo da disciplina: O discurso. Ele “não é a língua, nem o texto, nem a fala”, mas esses elementos fazem parte do discurso. Porém, ele ultrapassa a barreira lingüística, podemos dizer a grosso modo, que bebe de outras águas. Porém a língua é a sua existência material. Essas outras águas seriam os aspectos sociais, ideológicos, que são estâncias extralingüísticas, que apesar de se encontrarem além da esfera lingüística, interferem diretamente nesta.
Uma mesma ação pode ser interpretada de diferentes maneiras. Assim também é o discurso. Discursos diferentes são usados para explicar, transmitir uma mesma ação, um mesmo acontecimento. A existência desses diferentes discursos se dá pela influencia dos inúmeros fatores extralingüísticos . Um deles é a ideologia. Pois até a escolha lexical é inflenciada por aspectos ideológicos.
Analisar um discurso implica interpretar os sujeitos falando, tendo a produção de sentidos como parte integrante de suas atividades sociais. Como diz a autora “ A ideologia se materializa no discurso, que por sua vez, é materializado em forma de texto.” (pag.22).
Quanto aos sentidos, a autora aponta para a constante “mutação” dos significados das palavras. Uma mesma palavra pode ter diferentes sentidos, conforme o lugar socioideológico daqueles que a utilizam. Por isso devemos sempre levar em conta em uma análise as condições sócio-históricas e ideológicas de produção.O analista não deve ficar preso às estruturas lingüísticas para se chegar ao discurso, deve ultrapassá-las.
Fernandes aponta para a necessidade de se compreender certos conceitos, que são considerados primordiais para se iniciar uma reflexão sobre o discurso. Um deles é a compreensão da noção de sujeito. Que não deve visto, sob essa perspectiva como um ser humano individualizado, mas sim um ser social, que tem sua existência firmada em um espaço social e ideológico, em um dado momento da história. Pois o que esse sujeito diz, ou deixa de dizer é diretamente influenciado por esses aspectos, e não há como separá-los. Portanto, o sujeito não é homogêneo, e seu discurso é composto por diferentes discursos. Isso na análise do discurso é chamado de Polifonia. E a partir daí também se tem a noção do que vem a ser a heterogeneidade do objeto, no caso o discurso que é constituído de elementos diversificados, ou seja, vários outros discursos. A autora propõe a divisão da heterogeneidade em duas formas: A constitutiva e a mostrada. Na constitutiva os diferentes tipos de discursos se entrelaçam, se misturam. Na mostrada, a voz do outro se apresenta de forma explicita, fica fácil reconhecê-la.
Aponta para a interdiscursividade, que é o entrelaçamento de diferentes discursos vindos de diferentes períodos da história e de diferentes lugares sociais. Para a formação discursiva, que são os valores defendidos na linguagem, como cada enunciado tem sua regra e seu lugar de aparição. Para a formação ideológica, que é um “conjunto complexo de atividades e de representações que não são nem individuais e nem universais, mas que se relacionam” (pag 60). Também para a memória discursiva que são os acontecimentos exteriores e anteriores ao texto.
A autora remete para o caráter interdisciplinar da Análise do Discurso. Pois é um relação de Linguística e História interligadas com a Psicanálise. Pois como o discurso ultrapassa a barreira da língua, nesta disciplina temos que levar em conta esses outros aspectos. Um enunciado definido sob seus aspectos formais tem sentidos diferentes dependendo do momento histórico ou ideológicos. Desta forma, um enunciado, torna-se outro.
Após a exposição de alguns conceitos básicos a autora faz um retorno para a história da disciplina , e seu percurso teórico. As alterações, as reelaborações que culminaram nas três épocas da Análise do Discurso: AD1: Onde os discursos eram considerados homogêneos e fechados em si. AD2 : Já sobre a influência de Foucault, leva-se em conta o interdiscurso. e AD3: Que abandona a idéia de homogeneidade na condição de produção do discurso, e leva-se em conta aspectos sociais, ideológicos e históricos, ou seja aspectos extralingüísticos. O estudo das três épocas é feito através das obras de Pêcheux.

Resenha texto da Orlandi, AD

Eni P. Orlandi, em seu livro: Análise de Discurso, Princípios e Procedimentos, Ed. Pontes, 2001 , traça um percurso composto de uma diversidade de pontos que constituem a análise do discurso.
Devido às diferentes posições dos estudiosos perante a linguagem, surgiu a Análise do Discurso, que não trata da língua, ou da gramática, ainda que lhe interessem, mas do discurso. Que é a prática da linguagem. Trabalha com homens falando, com a as condições de produção desta fala, desta linguagem. Leva em consideração o discurso como objeto sócio-histórico, reflete sobre como a linguagem e a ideologia estão “atreladas” uma na outra.
A partir dos anos 60, a Análise do Discurso, se consolida, “bebendo” nas fontes da Lingüística, do Marxismo e da Psicanálise. A língua passa a ser vista não como estrutura, mas como acontecimento. O homem passa a ser visto como sujeito que é influenciado pela história. E a linguagem é linguagem por que tem um sentido, e só consegue ter esse sentido por que se inscreve na história. Assim, observamos que não dá para separar uma coisa da outra, estão interligadas. O sentido do discurso depende do sujeito que o produz, ou do sujeito que o interpreta. A análise do Discurso, visa a compreensão de como um objeto simbólico produz sentidos. Que os sentidos não estão só nas palavras, mas têm relação direta com o ‘mundo exterior” nas condições em que são produzidos e que não dependem só das intenções dos sujeitos.
Orlandi menciona as condições de produção, que compreendem os sujeitos e a situação. Assim como a memória, o conhecimento pré-adquirido, o que já foi dito antes em outro lugar, ou seja, a memória discursiva. As condições de produção estão relacionadas ao contexto imediato, que seria o momento, o contexto sócio-histórico, ideológico. Daí vem a diferenciação de interdiscurso e intradiscurso. Interdiscurso, seria os dizeres já ditos, e intradiscurso, aquilo que esta sendo dito no momento, diante das condições dadas. A autora lança a pergunta: “Por que somos afetados por certos sentidos e não outros?”Segundo a autora, “o que fazemos ou deixamos de fazer no ponto de vista discursivo é influenciado pela nossa relação com a língua e a história, por nossa experiência de mundo, através da ideologia.” (pag. 34). A partir daí, a leitura discursiva buscando interpretar o que é dito, considera o não dito. O que está amostra é apenas a ponta de iceberg.
O interdiscurso é afetado pelo esquecimento, a autora cita Pecheux (1975) pois para ele, pode ser de duas formas: O porquê de usarmos um termo, uma palavra a outra, sendo que são sinônimos, têm o mesmo sentido. Por exemplo, utilizamos “sem medo” ao invés de dizermos “com coragem”. O que dissemos está ligado ao que pensamos. O pensamento ligado a linguagem do mundo. O outro tipo de esquecimento está ligado ao modo que somos afetados pela ideologia. Enquanto pensamos estar dizendo algo novo, estamos retomando discursos pré—existentes.
O funcionamento da linguagem está entre os processos parafrásticos e os polissêmicos. Parafrástico é aquele que se mantém em todo dizer, o dizível, a memória. E polissêmico é o deslocamento, a ruptura de processos de significação. Em outras palavras, paráfrase é a matriz do sentido, e polissemia é a distinção do significado com relação ao contexto.
Não há discurso que não se relacione com outros. Todo discurso está inserido num processo discursivo continuo. E as palavras mudam de sentido segundo as posições daqueles que as utilizam, de acordo com a ideologia.
Os sujeitos e os sentidos são constituídos e determinados pela ideologia, que segundo Pecheux, dissimula sua existência no interior de seu próprio funcionamento. “A ideologia não afeta o sujeito, ela o constitue”. (pag. 46).
A autora discute sobre o sujeito da sociedade atual. Que é ao mesmo tempo livre e submisso. Livre por poder dizer tudo, e submisso por ter que recorrer a língua para fazê-lo.
O processo de significação da linguagem é incompleto, aberto . E é justamente por essa abertura que esse processo é determinado. Tanto pela paráfrase, tanto pela polissemia, quanto pela metáfora. O sentido é determinado por inúmeros fatores, o que o faz aberto.
Orlandi lança a pergunta: “Se a linguagem funciona deste modo, como deve proceder o analista?” Como deve interpretar um discurso? A autora propõe a adoção de um “dispositivo de interpretação” que colocaria” o dito em relação ao não dito, o que um sujeito diz em um lugar com o que é dito em outro lugar, o que é dito de um modo, e o que é dito de outro”.
Não se pode aprender uma ideologia e não se pode controlar o inconsciente com o saber. Assim todo enunciado está suscetível a mais de uma interpretação dependendo de quem o interpreta, poderá tornar-se outro. Uma mesma palavra pode ter vários significados, assim como um discurso também.
A autora chama a atenção para o fato de um texto não ter uma extensão definida, que ele pode ser tanto escrito, quanto oral. É um texto por que tem significado. E esse significado não está pronto, acabado. Pode ser interpretado de diferentes formas, segundo cada sujeito que o interpreta. Pois há conceitos individuais que contribuem para essa interpretação, como a ideologia, a memória discursiva, além se outros fatores.
Assim, a autora mostra que não existe linguagem inocente, há sempre algo, por trás. De acordo com as teorias apresentadas, inaugura-se novas práticas de leituras. Assim como não há linguagem inocente, não devemos ler inocentemente. Que a linguagem é um campo muito vasto, o qual só uma análise discursiva pode explorar.

sábado, 7 de novembro de 2009

OBSERVAÇÃO DAS VOZES DISCURSIVAS DE RENATO RUSSO NA MÚSICA EDUARDO E MÔNICA

A música com referência ideológica existe há muito tempo, mas foi a partir da década de 1960 que ganhou popularidade, com o rock de Beatles e Rolling Stones. Questões como, por exemplo, discussões em favor da liberdade de expressão, pelo fim das guerras e do desarmamento nuclear, idealizando um mundo de “paz e amor”. Exaltação de novas ideologias, e de outras nem tão novas assim. No Brasil, não foi diferente. Em 1964, a repressão e a censura instauradas pelo regime militar deram origem a movimentos musicais que viam na música uma forma de criticar a sociedade .
Na música Eduardo e Mônica, do álbum "Dois" da Legião Urbana, de 1986, a letra fala do encontro e envolvimento amoroso de um casal Mônica e Eduardo. A figura masculina (Eduardo) é alienada e inconsciente, enquanto a feminina (Mônica) é descrita como mulher forte, “antenada”.
No início da música há um refrão: (Quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração? E quem irá dizer que não existe razão?), o autor já começa contando com as formações imaginárias do seu interlocutor, pois o chama para um dialogo, lançando uma pergunta para qual, a formação imaginária de ambos já tem a resposta: As coisas do coração não tem explicação.
Já no começo da letra, o autor é parcial, cita características que engrandece Mônica com relação a Eduardo. Insinua que Eduardo seja preguiçoso e indolente (Eduardo abriu os olhos mas não quis se levantar; Ficou deitado e viu que horas eram), ao mesmo tempo que tenta dar uma imagem independente à Mônica (enquanto Mônica tomava um conhaque noutro canto da cidade como eles disseram). Enquanto Eduardo ainda estaria acordando, Mônica já estava tomando conhaque. A música já começa com um intertexto claro com um ditado popular, que diz o seguinte: “Enquanto você está indo, eu já estou voltando.
Dois jovens se encontram por acaso, conversam, se conhecem, trocam telefone e marcam um novo encontro. Ocasião na qual Mônica começa a impor suas preferências, uma constante, em oposição a uma humilde proposta de Eduardo (O Eduardo sugeriu uma lanchonete, mas a Mônica queria ver filme do Godard). O encontro se realizou num parque da cidade. Mônica coloca Eduardo em uma situação inferior. Ela vai de moto ao encontro, enquanto ele comparece de “camelo”, ou seja , de bicicleta.
Em outro momento o autor deixa claro que Mônica estava em um patamar intelectual situado bem acima do que se encontrava Eduardo (Ela fazia Medicina e falava alemão e ele ainda nas aulinhas de inglês. Ela gostava do Bandeira e do Bauhaus, de Van Gogh e dos Mutantes, do Caetano e de Rimbaud. E o Eduardo gostava de novela, E jogava futebol-de-botão com seu avô). Mônica sempre engrandecida, pois fazer um curso altamente concorrido como medicina, falar alemão, gostar de poesia, música, arte , não é para qualquer um. Enquanto Eduardo um “crianção” assiste novela, e joga botão com o avô. Por outro lado, pela primeira vez é mostrado o lado família de Eduardo, o rapaz que dá atenção ao avô idoso. Notamos também como as palavras podem ter diferentes sentidos, conforme o “lugar” que são utilizadas. As palavras “ainda” e “aulinha” aqui (e ele ainda nas aulinhas de inglês) adquirem um significado negativo, que chega quase ao pejorativo. Refletem a idéia de atraso intelectual, coisa sem valor, respectivamente. Ou seja, naquela idade ainda esta no inglês, enquanto Mônica já falava alemão. Enquanto Mônica fala de magia e meditação, Eduardo assiste novela, TV e freqüenta clube. O autor aqui faz uso de um discurso dos intelectuais, que aponta como “alienado” quem fica muito preso a TV e a novela. Justamente o que acontece com Eduardo.
Todo dizer está relacionado a uma memória, mobilizando um arquivo, as formações imaginárias, isto é, mobilizando os discursos relevantes que estão disponíveis acerca de uma questão. Aqui o autor se remete ao discurso que os opostos se atraem: ( e mesmo com tudo diferente, veio neles de repente uma vontade de se ver, e os dois se encontravam todo dia e a vontade crescia como tinha que ser). Os sentidos não estão soltos, eles são mobilizáveis na memória do dizer, quanto algo é dito, nossa memória discursiva busca em seu “banco de dados” o reconhecimento do discurso, e o compara a discursos já ditos. Assim fica plausível o entendimento.
Na segunda parte da música os dois já estão muito envolvidos sentimentalmente e é nítida a influência de Mônica em Eduardo. O autor usa o verbo que designa as ações da dupla, na terceira pessoa do plural. Ou seja, agora fazem as coisas juntos, e também nota-se um certo “amadurecimento”, no Eduardo, pois agora ele tem atitudes de pessoa adulta da época, a bebida o cabelo grande e o emprego, ele sofre de uma “subjetivação”, pois ele passa a assumir uma outra postura e adquire outros valores. Mudando seus hábitos, parece se adaptar à Mônica. Esta, ainda à frente de tudo, está se formando enquanto ele inda passa no vestibular: (Eduardo e Mônica fizeram natação, fotografia, teatro e artesanato e foram viajar... Ele aprendeu a beber, deixou o cabelo crescer e decidiu trabalhar, e ela se formou no mesmo mês , que ele passou no vestibular). No final da estrofe, além do verbo flexionado no plural, a união do casal é reforçada pela advérbio “juntos”, além das metáforas utilizadas: feijão com arroz e vice-versa (E os dois comemoraram juntos e também brigaram juntos, muitas vezes depois, e todo mundo diz que ele completa ela e vice-versa que nem feijão com arroz). O amadurecimento do casal se consolida com a chegada dos filhos e com a construção da casa, pois juntos vencem as dificuldades financeiras e prosperam. Mas o autor não termina a música sem mais uma prova de sua parcialidade (porque o filhinho do Eduardo tá de recuperação). É interessante notar que é o filho do Eduardo e não de Mônica, que ficou de segunda época. Deve ter herdado a “lerdeza” do pai. A música termina repetindo o refrão do início que, como no teatro, o autor se vale de um prólogo que antecipa o assunto que será abordado (Quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração? E quem irá dizer que não existe razão?). Mesmo com inúmeras diferenças, intelectual, cultural, os dois se apaixonam, há certo condicionamento comportamental da figura masculina em relação a feminina, mas nada impede que fiquem juntos e que formem uma família, com filhos gêmeos.
A letra desta música impressiona pelo sexismo estereotipado. Eduardo é salvo de sua vida medíocre graças a uma mulher “evoluída”. Podemos notar no decorrer da letra, que seu discurso é carregado de ideologias. A que fica mais evidente, é ideologia da guerra dos sexos, onde um quer superar, dominar o outro. Na visão do autor, nesta letra, o feminino é superior ao masculino e subjuga-o. Há uma “quebra” da tradicionalidade, pois nesta época, há mais de duas décadas atrás, em plena década de oitenta, quando a letra foi escrita, nossa sociedade era uma sociedade machista, bem mais do que é hoje, coloca uma mulher não ao pé de igualdade com um homem, mas superior a este. Podemos notar no decorrer da letra, que seu discurso é carregado de ideologias. Há um dialogismo de valores, a formação ideológica do autor faz sua formação discursiva colocar em “choque” valores ideológicos distintos. Pois ao mesmo tempo em que há ruptura de uns há a firmação de outros. Rompe com o machismo exarcebado da sociedade, e firma os valores da família, do casamento. Os elementos que nos mostra esse dialogismo refletem um lugar discursivo, caracterizado de um lado pela constituição familiar, pela relação afetiva entre seus integrantes e de outro os embates culturais e sociais que estão no contexto durante a produção da letra, como a firmação social da figura feminina.
A letra não deixa de ser uma metáfora, fala da supremacia dos mais bem preparados intelectualmente, não importando o sexo. Como esse grupo conquista e se impõem sobre o outro. E como o conquistado conquista o conquistador. Como se “mesclam” os conceitos, os valores. Um influenciando o outro. Pois vemos que Mônica se tornou uma mãe de família, e Eduardo mais responsável, amadureceu. E juntos vencem as dificuldades que vão surgindo, como a crise financeira que enfrentaram quando os filhos gêmeos chegaram.
O enorme sucesso da banda se valeu pela força de suas letras, que entoaram toda uma geração. Palavras têm o poder de realizar ações. A música para a maioria das pessoas é uma forma de expressar sentimentos, desejos, frustrações, conceitos que não estão muito longe da realidade. De tanto ouvir Legião Urbana, muitos jovens se tornaram mais críticos, mais engajados, seja por pura imitação (seguindo o ídolo Renato), ou por convicção própria. Pois antes do surgimento do grupo, o rock nacional não tinha um nome de peso. E como toda ação depende do contexto da situação como diz Bakhtin, as letras de Renato apareceram no lugar certo, na hora certa. Uma banda de Brasília, a capital federal, que canta músicas destinadas aos jovens libertos de uma ditadura que impunha uma série de censuras. Que fala de valores recém adquiridos e de outros de cunho mais tradicional. A história da música nacional é dividida entre antes e depois da Legião Urbana, e o Renato Russo tornou-se um ícone da música nacional. Mérito alcançado pelas suas letras.

COMO DESPERTAR O GOSTO PELA LEITURA


A LEITURA NO ENSINO MÉDIO: O ETHOS DE
PROFESSORES E ALUNOS EM PÓLOS OPOSTOS



Como despertar o gosto pela leitura nos alunos?Tarefa um tanto árdua diante da realidade em que estamos inseridos.
O Artigo em questão faz uma verdadeira radiografia dos alunos-leitores. Nos mostra que a grande parte acha a leitura de livros literários, uma tarefa chata e difícil. Como reverter essa situação? Isso é um trabalho para nos, os “super- professores” de Português? Ou assim como os super-heróis, poderíamos dividir essa responsabilidade com nossos colegas de outras disciplinas? Uma espécie de “Liga” em prol do bem comum? É uma questão a ser repensada, pois se todas as disciplinas trabalham também com a leitura, todas poderiam incentivá-la. Ensinar história, por exemplo com a leitura de Homero, Euclides da Cunha e Geografia com Graciliano Ramos (Vidas Secas para falar da seca, da desigualdade social e São Bernardo para introduzir questões sobre o capitalismo, que tal?). Poderia enumerar aqui uma infinidade de livros que seriam excelentes suportes para diferentes disciplinas.
Deixemos os heróis, e vamos aos vilões. Para alguns alunos entrevistados, Machado de Assis seria o líder deles. O pior de todos. Mas todos nos sabemos que o grande vilão da história não são os “livros-velhos”, que recebem esse título não só por terem sido escritos a mais de cem anos, mas também porque cheiram a naftalina de tanto tempo que ficam na estante sem ninguém sequer folheá-los. As escolas possuem biblioteca, mas os alunos não tem o hábito de freqüentá-las. Os professores alegam não terem tempo para implantar projetos de leituras que sejam capaz de despertar nesses alunos esse “gosto”, esse prazer que a literatura é capaz de proporcinar. Não possuem livros, não tem isso, falta aquilo. O que falta mesmo é vontade. Vontade de mudar esse quadro. O grande vilão é o comodismo dos professores.
Voltando aos heróis, esperamos o surgimento de um salvador: o “Empenho”. Se houver empenho por parte dos professores a situação pode ser revertida. Afinal, se em uma sala de 25 alunos conseguirmos fazer dois ou três bons leitores, já é lucro. E sei que poderemos fazer muito mais que isso. Mas como?
Um dos alunos entrevistados pelo professor comparou a leitura com a paquera: “Quando você vai conquistar a menina, você não vai direto na menina, né, pra levar um não na cara. Você vai, chega, passo a passo. Agora, pra você estudar, o professor tem que saber lidar com ele, passo a passo faz isso, passo a passo faz aquilo, o cara vai gostando, vai aprendendo.”
É justamente isso. Esse aluno matou a charada. É assim mesmo que se deve fazer. Ir devagar, devagar. Dar um passo, depois o outro. Quando perceberem, já estarão conquistados!

O artigo citado é: SOUZA, Agostinho Potenciano de A leitura no ensino médio: o ethos de professores e alunos em pólos opostos. In: III Simpósio internacional sobre análise do discurso: emoções ethos e argumentação. Belo Horizonte: Faculdade de Letras da UFMG, 2008 CD- ROM. (p. 1-9)



Crônica: A mangueira


Quando era criança, morava em uma rua pacata de cidade do interior. Perto de casa, havia um terreno baldio. E nele, uma enorme mangueira.
Este pé de manga, era nosso. Meu e da molecadinha da rua. Chegava da escola, era o tempo de almoçar, trocar de roupa, tirar o tênis e ir brincar debaixo daquela árvore imponente, de sombra magestosa, cuja copa ultrapassava em altura todas as casas do bairro. Só saíamos de lá, muitas vezes sob ameaças vindas de nossas casas: “Desça daí e venha estudar para a prova de amanhã!”, ou: “Venha tomar banho, seu pai está chegando e você sabe que ele não gosta de te ver na rua!”. Muitas vezes, os galhos que nos serviam de diversão, nas mãos de nossos pais, viravam armas contra a nossa indisciplina.
Mas a mangueira... Dela aproveitávamos tudo.
Suas raízes nos serviam desde móveis de nossos palacetes imaginários até trilhos que conduziam o trem, cujos vagões eram caixas de papelão, que nos levavam a viagens fantásticas. Que duravam uma tarde inteira.
Quando a terra firme tornava-se sem graça, íamos para os galhos. Que era o melhor. Eles, já foram desde um simples balanço, até um condomínio vertical, com síndico e tudo. Os últimos galhos, era a cobertura. Embora parecesse perigoso aos olhos das mães zelosas, eram sempre motivo de disputa. A decisão de quem ficava com a cobertura era feita através de uma corrida. Quem chegasse lá primeiro, levava. Reinado curto. Durava só o suficiente a mãe de alguém, geralmente a minha, a cabeça de alguém ultrapassando as últimas folhas, e vir gritando para que a gente descesse. Como síndica que era, acabava com a festa.
Só não subíamos durante a florada, e quando as frutinhas ainda estavam frágeis. Nesta época, nos contentávamos com as raízes.
Quando as primeiras mangas começavam a ficar comestíveis já partíamos para a comilança. Dizíamos que estavam de veiz. Manga de veiz com sal. Com os galhos liberados, nossas mães agora tinham mais uma preocupação. Além da trepação, havia agora algo mais perigoso ainda. A mistura de manga com leite, podia levar a morte em poucos minutos, diziam. Ouvíamos atentos a mesma história todos os anos. De uma menina, sobrinha da vizinha de uma conhecida da minha tia que veio a óbito depois de fazer a tal mistura. Era marcado no relógio o tempo. Uma hora depois do copo de leite, aí estaríamos liberados. No começo, havia manga à vontade, mas como o terreno era aberto, vinha gente de longe buscar. Quando finalmente maduravam, já estavam escassas. Não me lembro de ter experimentado nada tão doce, de uma textura tão agradável quanto as mangas daquele pé.
Mas. Sempre tem um mas. Cheguei da escola, ouvi um barulho diferente, um ronco estranho. Seguido de um barulho que fez tremer as janelas da casa. Saí a porta, e vi alguns integrantes da molecadinha da vizinhança com olhar apreensivo, mirando para alguma coisa do outro lado. Tive medo de olhar. Não olhei. Nem me lembro quando foi que tive coragem de olhar pra lá. Para o vazio.
Depois ouvi meu pai dizendo que o tal do dono do lote, o havia vendido e o novo dono tinha resolvido construir um supermercado lá, segundo ele, até ia até valorizar nossa casa.
Dias depois, um caminhão veio e levou o que restou dela. Lenha. Foi o que ouvi.


E.B.S

"LETRAR É MAIS QUE ALFABETIZAR"

No contexto social em que estamos inseridos, saber ler e escrever já não é o bastante. Mas deve-se saber fazê-lo bem. É preciso acima de tudo adquirir “letramento”, que é ir além do código escrito. Muitas pessoas que são alfabetizadas, lêem, mas não conseguem entender um texto por mais simples que seja, e tem muita dificuldade em se expressar por escrito. Os chamados alfabetos funcionais. Letramento é justamente o contrário disso. É saber decodificar todo esse universo da escrita em que estamos mergulhados. Ler e entender desde um manual de instruções até um livro literário. Ler e entender os diversos textos que nos cercam. Além de saber se expressar por escrito.
Para sanar este problema, é preciso agir de forma gradativa, com inicio já na alfabetização, e que deve seguir por todos os anos de escolaridade. Que deve haver uma interdisciplinaridade na escola. Esta deve sempre se valer das práticas de leitura e escrita que seu grupo de alunos tem contato no contexto social em que estão inseridos, e através dessas práticas, deve-se introduzir outras, advindas de outras esferas sociais, sempre visando o aprendizado através da leitura e da escrita. São bem interessantes os pontos levantados pela Professora, pois está mais que comprovado que é preciso pensar na leitura e na escrita não separadamente, mas como partes de um processo, o do letramento.