Vento, ar seco, poeira, fumaça, vegetação ressecada: assim é o mês de agosto em Goiás, Brasília e boa parte do Centro-Oeste. É a seca que costumeiramente nos visita a cada ano. Normalmente é um período bem delineado que vai de maio até meados de setembro, mas, devido às alterações climáticas advindas do aquecimento global, isso pode ser alterado.
O cinza predomina na vegetação e, às vezes, ao mirar o horizonte nas terras altas do planalto central, nem se consegue separar o que é terra do que é céu, pois tudo se veste de uma desolada massa esfumaçada. De perto, toda a vegetação parece dormir e algumas retorcidas e quase totalmente desfolhadas pequenas árvores se fingem de mortas.
Aos olhos dos que não estão acostumados com esses anuais fenômenos, se teria a falsa percepção de que a vida abandonou o cerrado. A monotonia do cinza impera em todas as direções. Salvo nos brejos e veredas, onde o verde dos buritis é uma constante o ano todo. Se a natureza é sábia, uma prova disso está nos resistentes buritis, que parecem economizar água em seu corpo e sobrevivem às labaredas que lambem nossos campos, em queimadas irresponsáveis e até espontâneas, graças às suas cascas grossas, que agem como uma armadura forjada pela evolução. O buriti, poder-se-ia dizer, personifica o homem do Centro-Oeste, em resistência e persistência. Como nós, antes de um grande baile, tiramos uma soneca, elas parecem dormir, armazenando energia para resistir aos desafios de uma jornada festiva noite adentro.
O que nos surpreende - mesmo estando acostumado à sazonalidade - é como tudo acontece como em passe de mágica. De repente, galhos secos e retorcidos se cobrem de cor, de beleza, de vida e grande parte das árvores típicas do cerrado floresce durante este mês agosto. Frutíferas ou não, as árvores se vestem de flores, que se abrem em uma harmonia de cores, como que regidas pelo maestro Criador em um espetáculo especialmente concebido para encantar a nós, pobres seres humanos, já desacostumados com a beleza natural da simplicidade. E todos nós somos convidados a participar deste sublime baile orquestrado pela mãe natureza.
Parafraseando minha honorável conterânea Cora Coralina: Não é verso, não é poesia, apenas um modo diferente de contar velhas histórias.
domingo, 8 de maio de 2011
O matador de assombração
Tião passava sempre por aquela estada, nunca viu nem ouviu nada de anormal lá, mas no fundo tinha um certo receio daquele lugar.
Era uma estrada muito antiga, que nasceu do calor das patas dos bichos que zigue-zagueavam acompanhando a margem do riacho buscando o melhor lugar para tomar água fresca. Seguia rasgando duas serras ao meio. A erosão foi talhando o seu leito fazendo surgir grandes barrancos, peneirados de buracos de tatu. Em um mesmo lugar, a estrada era cortada por um riacho que nascia lá no alto e vinha serpenteando e por uma cerca. Havia uma velha ponte e uma velha porteira.
O único barulho que quebrava aquele silêncio, como uma faca afiada era a batida da porteira. Por causa do desnível do terreno, a força da gravidade se encarregava de fechá-la. Era só abrir, passar, soltar e esperar. Geralmente eram três batidas, a primeira, um estrondo que podia ser ouvido a quilômetros de distância, depois outra menos forte, ia diminuindo até voltar ao seu estado inicial.
O lugar que não tinha um aspecto agradável durante o dia, a noite se tornava assustador. Muitas histórias estranhas o cercavam. Havia os afirmavam terem visto bolas de fogo saindo do rio e desaparecendo por detrás da serra. Outros juravam terem ouvido choros e gritos vindos de debaixo da ponte. Tinha relatos até da aparição de uma mulher muito bonita que se sentava na ponte de quatro metros de altura, e balançava as pernas e molhava os pés nas águas do riacho lá embaixo.
Era um dia de seca, chovia fuligem do céu, pois uma grande queimada ainda ardia lá no alto da serra. Tião estava na cidade, como era de costume, na jogatina e na bebedeira, já tarde da noite, pegou seu cavalo que de tão ensinado já sabia o caminho de casa, e seguiu pela velha estrada. O álcool agia em Tião como um escudo, era só beber que ele ficava metido a valente. Era acostumado a passar naquela estrada, falava nas rodas de conversa que tinha vontade de se encontrar a tal da mulher de pernas compridas, dizia isso enquanto batia a mão em seu trinta e oito na cintura.
Seguiu seu caminho. O único barulho que se ouvia era o que o casco do cavalo fazia ao tocar o chão batido e o estalar da vegetação que era engolida pelas labaredas no cume da morro. Tião passou pela ponte, pela porteira e a soltou. O barulho estrondoso de sua da batida ecoou serra acima. Tião ouviu um barulho anormal. Alguma coisa descia a serra em sua direção. Antes que a porteira batesse pela segunda vez, arrancou o revólver da cintura e esperou até que o barulho chegasse mais perto. Nada se via. Não havia como mirar, acertar ou errar era questão de sorte. Não dava para esperar mais, Tião apontou em direção ao barulho e descarregou sua munição em seja lá o que for que já estava a poucos metros dele, bem a sua frente.
Estava tão escuro que não fazia diferença ficar de olhos abertos ou fechados. Ele preferiu a segunda opção. Cavucou a espora em seu machador, queria sair dali o mais rápido possível. Depois dos tiros pode ouvir o barulho de alguma coisa tombando. E se houvesse outros? Não tinha mais munição, só lhe restava rezar o Credo e correr. Assim o fez.
Chegou em casa muito assustado, o efeito do álcool já tinha passado, e a coragem também. Ele só disse ao pai: “Acho que matei uma assombração!”
Ao clarear do dia, quem passou por aquela estrada pode ver um enorme tamanduá bandeira caído com uma ferida mortal na cabeça. O danado estava fugindo do fogo, desnorteado se assustou com a batida da porteira. Teve um azar danado o bicho, foi encontrar Tião com a coragem aguçada pelo álcool.
Era uma estrada muito antiga, que nasceu do calor das patas dos bichos que zigue-zagueavam acompanhando a margem do riacho buscando o melhor lugar para tomar água fresca. Seguia rasgando duas serras ao meio. A erosão foi talhando o seu leito fazendo surgir grandes barrancos, peneirados de buracos de tatu. Em um mesmo lugar, a estrada era cortada por um riacho que nascia lá no alto e vinha serpenteando e por uma cerca. Havia uma velha ponte e uma velha porteira.
O único barulho que quebrava aquele silêncio, como uma faca afiada era a batida da porteira. Por causa do desnível do terreno, a força da gravidade se encarregava de fechá-la. Era só abrir, passar, soltar e esperar. Geralmente eram três batidas, a primeira, um estrondo que podia ser ouvido a quilômetros de distância, depois outra menos forte, ia diminuindo até voltar ao seu estado inicial.
O lugar que não tinha um aspecto agradável durante o dia, a noite se tornava assustador. Muitas histórias estranhas o cercavam. Havia os afirmavam terem visto bolas de fogo saindo do rio e desaparecendo por detrás da serra. Outros juravam terem ouvido choros e gritos vindos de debaixo da ponte. Tinha relatos até da aparição de uma mulher muito bonita que se sentava na ponte de quatro metros de altura, e balançava as pernas e molhava os pés nas águas do riacho lá embaixo.
Era um dia de seca, chovia fuligem do céu, pois uma grande queimada ainda ardia lá no alto da serra. Tião estava na cidade, como era de costume, na jogatina e na bebedeira, já tarde da noite, pegou seu cavalo que de tão ensinado já sabia o caminho de casa, e seguiu pela velha estrada. O álcool agia em Tião como um escudo, era só beber que ele ficava metido a valente. Era acostumado a passar naquela estrada, falava nas rodas de conversa que tinha vontade de se encontrar a tal da mulher de pernas compridas, dizia isso enquanto batia a mão em seu trinta e oito na cintura.
Seguiu seu caminho. O único barulho que se ouvia era o que o casco do cavalo fazia ao tocar o chão batido e o estalar da vegetação que era engolida pelas labaredas no cume da morro. Tião passou pela ponte, pela porteira e a soltou. O barulho estrondoso de sua da batida ecoou serra acima. Tião ouviu um barulho anormal. Alguma coisa descia a serra em sua direção. Antes que a porteira batesse pela segunda vez, arrancou o revólver da cintura e esperou até que o barulho chegasse mais perto. Nada se via. Não havia como mirar, acertar ou errar era questão de sorte. Não dava para esperar mais, Tião apontou em direção ao barulho e descarregou sua munição em seja lá o que for que já estava a poucos metros dele, bem a sua frente.
Estava tão escuro que não fazia diferença ficar de olhos abertos ou fechados. Ele preferiu a segunda opção. Cavucou a espora em seu machador, queria sair dali o mais rápido possível. Depois dos tiros pode ouvir o barulho de alguma coisa tombando. E se houvesse outros? Não tinha mais munição, só lhe restava rezar o Credo e correr. Assim o fez.
Chegou em casa muito assustado, o efeito do álcool já tinha passado, e a coragem também. Ele só disse ao pai: “Acho que matei uma assombração!”
Ao clarear do dia, quem passou por aquela estrada pode ver um enorme tamanduá bandeira caído com uma ferida mortal na cabeça. O danado estava fugindo do fogo, desnorteado se assustou com a batida da porteira. Teve um azar danado o bicho, foi encontrar Tião com a coragem aguçada pelo álcool.
Franguinha na panela
Marcinha não gostava de brincar de boneca, nem de casinha. Passava o seu tempo livre, que sobrava entre a escola e as tarefas, cuidando de pequenos animaizinhos.
Lurdinha, sua irmã mais velha, ganhou de presente um porquinho, que recebeu o nome de Tuíca. As duas cuidaram dele como se fosse gente. Quando cresceu ficou muito assanhado, queria por tudo namorar. Ele se assanhava para cima do cachorro, da vassoura, e das pernas de quem tivesse por perto. Não deu outra, o pobrezinho acabou castrado. Recuperou-se rapidinho e depois disso só queria comer. Comia tudo o que via. O pai disse uma vez que ele só não comia as donas porque elas não ficavam deitadas perto dele.
A comilança e a boa vida o fizeram muito gordo, e o inevitável apesar do grande protesto, aconteceu: o Tuíca acabou indo para a panela. Desde então, ficaram proibidas de criar porco. Lurdinha passou a cuidar de gatos, e Marcinha de pintinhos órfãos.
Lurdinha já mocinha, adotou uma gata. Que pouco tempo depois já tinha rendido outras cinco cabeças. Na fazenda havia sempre algum caso de abandono por parte de alguma galinha desnaturada. Quando não havia, Marcinha se encarregava de arrumar algum pintinho desgarrado.
Seus pintinhos levavam vida de rei. Ela andava longe atrás de um cupim do cerrado bem fresquinho. Era só quebrá-lo e dar como banquete para os pintinhos. Diziam que era fortificante. A taxa de mortalidade era altíssima, muitas vezes por excesso de zelo. Para substituir as penas maternas, empacotava-os com tanto esmero , que de tão aquecidos, acabavam sufocados. De frio não morriam, mas sim de calor. No dia seguinte quando abria a caixa que servia de dormitório, estavam duros. Chorava litros de lágrimas, ficava sem comer, e se isolava no quarto por algumas horas, mas lá na casa todos já estavam acostumados com o luto e o choro, sabiam que logo passava.
Os sobreviventes eram soltos durante o dia, e a noite ela os recolhia para dormirem em segurança. Quando uma tempestade se anunciava, Marcinha saia louca procurando seus filhotes desgarrados. Chamava-os, e todos vinham rapidamente. Já pegou muito resfriado, correndo debaixo de chuva a fim de recolher algum desgarrado.
A maioria dava para a sua mãe quando estavam fora de perigo, já grandinhos. Mas sempre tinha os especiais. Aqueles que morriam de velho no terreiro.
A fim de protegê-los da panela ela os marcava. Marquinha esta, era a diferença entre virar jantar ou ter uma vida tranqüila até a velhice. Os reis, ou rainhas vitalícios do terreiro eram marcados com uma argolinha no pé. Sempre que precisava me ausentar, deixava mil e uma recomendações para que cuidassem de seus rebentos.
Depois de uma dessas ausências, quando chegou em sua casa com a mãe, algumas visitas e um jantar prontinho as esperavam. Seu pai fazia sala para um compadre e sua família, enquanto seu irmão, metido a cozinheiro, que adorava brincar com as panelas fazia um jantar muito cheiroso e caprichado, pois queria impressionar uma das filhas do compadre de papai, a impressão deve ter dado certo, a mocinha tempos depois entrou para a família.
Marcinha chegou cansada e com fome., só depois do jantar foi conferir seu bando, como fazia toda vez que se ausentava. Sabia exatamente onde eles se empoleiravam, contou e notou a falta de uma de suas frangotas. Marcinha não quis pensar, não quis acreditar. Seu estômago deu uma revirada e a fez lembrar do prato principal do jantar: frango ao molho. Ou melhor, era franga. Como gostaria de estar enganada. Mas não estava. Nem precisava ter contado, sabia exatamente qual delas estava faltando. Segurando o choro foi conferir onde o imão havia jogado as penas. E não deu outra. Reconheceu na hora, ali estava jogado o que restava de sua franguiinha. aquela que atendia pelo nome, era só chamar Tuti, que ela vinha correndo. A sua frangota tinha virado jantar!
Nesse momento percebeu o que tinha feito. Havia comido uma coxa. Enfiou o dedo na garganta e tentou se livrar da culpa. Não conseguiu. Marcinha soltou um grito de raiva, e como uma galinha choca, saiu em defesa de sua franguinha. Foi tirar satisfação com o irmão, nem se importou com as visitas. Ele tinha o dobro do seu tamanho, pegou-o desprevenido e conseguiu lhe dar umas unhadas. Sem saber o que havia acontecido, a mãe perguntou: “O que é isso minha filha? Cadê o respeito?” Engasgada e cega de raiva ela só conseguiu dizer: “O Jorge cozinhou a minha Tuti, e vocês comeram ela, tadinha! E ainda deixaram que eu comesse também!” Sua pediu licença para as visitas e levou Marcinha para o quarto. “Chega de frango com pulseira e fique aí no quarto, vou lá na sala tentar limpar a sua bagunça, tentar explicar o que aconteceu.” Só restava a Marcinha era chorar, abriu o bocão e chorou enquanto tinha lágrimas. Só parou quando pegou no sono. Enquanto dormia, sonhou que sua Tuti tinha ido para o céu das galinhas e lá estava feliz, tinha ganhado asas que a fazia voar de verdade, como um passarinho.
No dia seguinte, após mais uma bronca da mãe, seu pai chegou do cerrado com filhote de papagaio dentro do chapéu: “Aqui filha, esse nenhum de nós vai comer!” Marcinha olhou maravilhada para aquele bichinho peladinho que sacudia a cabeça para cima e para baixo, ela já o amava. Jorge deu uma risada e disse: “Nós não comemos, mas os gatos da Lurdinha...”
Lurdinha, sua irmã mais velha, ganhou de presente um porquinho, que recebeu o nome de Tuíca. As duas cuidaram dele como se fosse gente. Quando cresceu ficou muito assanhado, queria por tudo namorar. Ele se assanhava para cima do cachorro, da vassoura, e das pernas de quem tivesse por perto. Não deu outra, o pobrezinho acabou castrado. Recuperou-se rapidinho e depois disso só queria comer. Comia tudo o que via. O pai disse uma vez que ele só não comia as donas porque elas não ficavam deitadas perto dele.
A comilança e a boa vida o fizeram muito gordo, e o inevitável apesar do grande protesto, aconteceu: o Tuíca acabou indo para a panela. Desde então, ficaram proibidas de criar porco. Lurdinha passou a cuidar de gatos, e Marcinha de pintinhos órfãos.
Lurdinha já mocinha, adotou uma gata. Que pouco tempo depois já tinha rendido outras cinco cabeças. Na fazenda havia sempre algum caso de abandono por parte de alguma galinha desnaturada. Quando não havia, Marcinha se encarregava de arrumar algum pintinho desgarrado.
Seus pintinhos levavam vida de rei. Ela andava longe atrás de um cupim do cerrado bem fresquinho. Era só quebrá-lo e dar como banquete para os pintinhos. Diziam que era fortificante. A taxa de mortalidade era altíssima, muitas vezes por excesso de zelo. Para substituir as penas maternas, empacotava-os com tanto esmero , que de tão aquecidos, acabavam sufocados. De frio não morriam, mas sim de calor. No dia seguinte quando abria a caixa que servia de dormitório, estavam duros. Chorava litros de lágrimas, ficava sem comer, e se isolava no quarto por algumas horas, mas lá na casa todos já estavam acostumados com o luto e o choro, sabiam que logo passava.
Os sobreviventes eram soltos durante o dia, e a noite ela os recolhia para dormirem em segurança. Quando uma tempestade se anunciava, Marcinha saia louca procurando seus filhotes desgarrados. Chamava-os, e todos vinham rapidamente. Já pegou muito resfriado, correndo debaixo de chuva a fim de recolher algum desgarrado.
A maioria dava para a sua mãe quando estavam fora de perigo, já grandinhos. Mas sempre tinha os especiais. Aqueles que morriam de velho no terreiro.
A fim de protegê-los da panela ela os marcava. Marquinha esta, era a diferença entre virar jantar ou ter uma vida tranqüila até a velhice. Os reis, ou rainhas vitalícios do terreiro eram marcados com uma argolinha no pé. Sempre que precisava me ausentar, deixava mil e uma recomendações para que cuidassem de seus rebentos.
Depois de uma dessas ausências, quando chegou em sua casa com a mãe, algumas visitas e um jantar prontinho as esperavam. Seu pai fazia sala para um compadre e sua família, enquanto seu irmão, metido a cozinheiro, que adorava brincar com as panelas fazia um jantar muito cheiroso e caprichado, pois queria impressionar uma das filhas do compadre de papai, a impressão deve ter dado certo, a mocinha tempos depois entrou para a família.
Marcinha chegou cansada e com fome., só depois do jantar foi conferir seu bando, como fazia toda vez que se ausentava. Sabia exatamente onde eles se empoleiravam, contou e notou a falta de uma de suas frangotas. Marcinha não quis pensar, não quis acreditar. Seu estômago deu uma revirada e a fez lembrar do prato principal do jantar: frango ao molho. Ou melhor, era franga. Como gostaria de estar enganada. Mas não estava. Nem precisava ter contado, sabia exatamente qual delas estava faltando. Segurando o choro foi conferir onde o imão havia jogado as penas. E não deu outra. Reconheceu na hora, ali estava jogado o que restava de sua franguiinha. aquela que atendia pelo nome, era só chamar Tuti, que ela vinha correndo. A sua frangota tinha virado jantar!
Nesse momento percebeu o que tinha feito. Havia comido uma coxa. Enfiou o dedo na garganta e tentou se livrar da culpa. Não conseguiu. Marcinha soltou um grito de raiva, e como uma galinha choca, saiu em defesa de sua franguinha. Foi tirar satisfação com o irmão, nem se importou com as visitas. Ele tinha o dobro do seu tamanho, pegou-o desprevenido e conseguiu lhe dar umas unhadas. Sem saber o que havia acontecido, a mãe perguntou: “O que é isso minha filha? Cadê o respeito?” Engasgada e cega de raiva ela só conseguiu dizer: “O Jorge cozinhou a minha Tuti, e vocês comeram ela, tadinha! E ainda deixaram que eu comesse também!” Sua pediu licença para as visitas e levou Marcinha para o quarto. “Chega de frango com pulseira e fique aí no quarto, vou lá na sala tentar limpar a sua bagunça, tentar explicar o que aconteceu.” Só restava a Marcinha era chorar, abriu o bocão e chorou enquanto tinha lágrimas. Só parou quando pegou no sono. Enquanto dormia, sonhou que sua Tuti tinha ido para o céu das galinhas e lá estava feliz, tinha ganhado asas que a fazia voar de verdade, como um passarinho.
No dia seguinte, após mais uma bronca da mãe, seu pai chegou do cerrado com filhote de papagaio dentro do chapéu: “Aqui filha, esse nenhum de nós vai comer!” Marcinha olhou maravilhada para aquele bichinho peladinho que sacudia a cabeça para cima e para baixo, ela já o amava. Jorge deu uma risada e disse: “Nós não comemos, mas os gatos da Lurdinha...”
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