Lembro-me de sua voz doce, de seu perfume gostoso com cheiro de quem acabou de sair do banho, do seu cabelinho branco sempre arrumado debaixo de um lenço que ela nunca tirava. Lembro-me de seus vestidinhos, antes estampados e depois quando passou a usá-los de uma cor só.
Lembro-me de suas atuações como advogada de defesa, sempre intercedendo junto a nossa mãe, quando estávamos prestes a levar umas chineladas, após alguma travessura. Atuava como psicóloga, mostrando que a palavra era melhor que a surra. Era a melhor médica que eu já conheci. Sabia sempre o chazinho certo, para curar as enfermidades típicas de nossa pouca idade. De folha de hortelã, até umas misturas horríveis que eu só bebia depois de muitos protestos.
Cozinhava como poucos. Tinha certa predileção por doces e compotas de todos os tipos, cores e dos mais variados sabores. Usava uma técnica especial, que a fazia gastar semanas preparando alguns e somente alguns minutos em outros. O de casca de laranja, levava um tempão e seu doce de leite incrivelmente gostoso, era feito em pouquíssimo tempo.
Lembro-me de jeito dela piolhos, que na maioria das vezes não passava de desculpas para que pudéssemos deitar em seu colo, pois com aqueles dedos compridos tateava nossa cabeça em busca do parasita de um jeito tão carinhoso que coçávamos a cabeça de mentira na frnte dela, só para sermos pegos na catação mais carinhosa que já existiu.
Foi por causa dela que senti meu primeiro ciúme, pois tinha que dividi-la com tantas outras crianças, eram tantos irmãos, tantos primos... Nunca vi uma única pessoa possuir tantos afilhados. Batizou de verdade mesmo só um, mas todos os outros a chamavam de madrinha. Era uma disputa acirrada para ver perto de quem ela ia ficar, na mão de quem ela ia pegar.
Adorava contar história na hora de dormir. Eram mágicas e faziam a cama enorme ficar pequena, pois todos da casa, até os adultos queriam deitar em seu canto para ouvi-lá.
Através dela conheci muitos personagens, muitas histórias. Foi ela quem me apresentou um tal de Pedro Malazartes. Uma pessoa de caráter duvidoso, marcado por seu ardil, pela sua astúcia, pois sempre levava vantagem onde quer que andasse. Suas peripécias nos faziam ter dor de barriga de tanto rir.
Foi através dela que conheci Joãozinho e Maria, duas crianças que se perdem na mata e encontram uma casa feita de doces, cujo interior abrigava uma bruxa malvada. Uma versão que nunca encontrei em nenhum livro até hoje. Uma versão bem católica, pois nela tinha até uma aparição de Nossa Senhora. Poucas vezes ouvi o final dessa história, pois era uma das mais longas que ela contava, e eu sempre adormecia antes da Maria se casar com um fazendeiro e do Joãozinho derrotar a serpente que ia devorar a princesa. O final só conheci depois de mocinha, quando conseguia vencer o sono e escutar até o final.
A minha primeira catequista pois ensinou-me a rezar, a pedir e a agradecer, a fazer o sinal da cruz com a mão certa, e a fechar os olhos para conversar com Deus. Ela tinha uma bíblia com umas gravuras lindas, mesmo sem saber ler eu adorava folheá-la, sempre me contava histórias lindas sobre cada um dos desenhos. Era de capa dura e negra com escritos em alto relevo. Ficava muito bem guardada, só depois de lavar a mão eu podia segurá-la. A página que tinha uma representação linda do rosto de Jesus Cristo chegou a ficar suja de tanto eu olhar enquanto pedia que ela contasse como foi que ele nasceu, viveu e morreu.
Quando ela se foi eu tinha dez anos, não tive tempo para retribuir tudo o que ela me deu e me ensinou, nem de dizer que a amava. Eu e meus irmãos éramos crianças e pensávamos que ela duraria para sempre, que nunca íamos perdê-la. Mas sei que ela sabia, que seu tempo conosco era curto, pois fez questão de aproveitá-lo.
Ajudou minha avó a cuidar de todos os seus filhos, e depois de todos os seus netos. Deixou pouquíssimas fotos. A que minha família herdou é uma foto emoldurada, que foi presente de algum dos vários afilhados. Me lembro de ouvi-la dizer que tinha ficado horrível, pois o engraçadinho que a clicou desprevenida e descalça, tinha prometido que não ia deixar os pés aparecerem. Ele a pegou de mão na cintura, de vestidinho estampado, lencinho na cabeça e de pés no chãos.
Tive o privilégio de tê-la conhecido e com ela ter convivido, por pouco tempo, mas tive.
À madrinha Néia, deixo meu agradecimento e minha saudade.
Parafraseando minha honorável conterânea Cora Coralina: Não é verso, não é poesia, apenas um modo diferente de contar velhas histórias.
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
O tempo
Quanto mais fechamos a mão no intuito de segurá-lo, mais rápido ele se esvai, escapando por entre os dedos, como se areia fosse .
A casa de Dona Flor e sua vizinhança
Ciço era um rapaz simples, cuja maior alegria era visitar uma certa casa, lá pelas bandas do cemitério. A casa de Dona Flor, onde as mulheres de vida fácil arrancavam todo o seu dinheiro. Só ia embora, se a casa fechasse ou se o seu vintém suado acabasse.
O rapaz sonhava que Dona Flor transferisse seu estabelecimento para outro local, com vizinhos vivos, de preferência. Não havia atalho, nem escapatória, para se chegar e se sair da tal casa, tinha que se passar pela rua do cemitério. Para Ciço, seguir aquele caminho , altas horas da noite não era muito agradável. Ficava com os pelos em pé só de pensar que aquelas histórias horríveis que se ouvia sobre o lugar, “Deus o livre” acontecesse com ele. Muitas eram as histórias de assombração, e pouca era a coragem de Ciço. Ele sabia que para alcançar a tal da flor, teria que passar pelos espinhos, e não desistia, se virava como podia para driblar seu medo na hora de ir para casa.
Naquele dia, lá pelas tantas, depois de torrar todo o seu dinheiro, já sem crédito na casa, que não aceitava fiado, teve que seguir viagem. Pegou sua bicicleta e ficou na porta do estabelecimento, aguardando até que aparecesse alguém para lhe acompanhar na travessia. Foi quando lhe deu uma vontade tremenda de fumar. Ao pegar um cigarro, desequilibrou-se e deixou a bicicleta cair no chão, quando conseguiu erguê-la, percebeu que um homem o observava de longe, em um canto escuro da rua. Ciço acendeu o cigarro e percebeu que o desconhecido estava parado lá há um certo tempo, quem sabe também a espera de alguém que o acompanhasse na travessia.
O tal homem fez menção com a cabeça chamando Ciço, e este não hesitou. Deu um trago, satisfeito, jogou o cigarro no chão, pisou em cima, montou na bicicleta e alcançou o tal. Para ter a companhia, seguiu empurrando-a ao seu lado. Tratou logo de puxar assunto, assim nem perceberia o caminho.
- Tá calor hoje, né? Disse Ciço, querendo se enturmar.
O estranho só balançou a cabeça, afirmativamente.
-Você sempre passa por aqui, nunca te vi por essas bandas?
O homem não respondeu, mas Ciço insistiu:
- Faço esse caminho todo dia, mas evito passar por aqui sozinho, sabe como é.
Ciço sentiu um calafrio e não conseguiu concluir a frase, pois percebeu que estavam passando bem de frente o tal do portão do cemitério.
Foi quando o estranho disse, com uma voz trêmula:
- Quando eu era vivo, também morria de medo de passar aqui!
O pobre do Ciço arregalou os olhos e sentiu que a firmeza das pernas ia embora. Juntou o resto de força que conseguiu, subiu na bicicleta e pedalou como um velocista, sem olhar para trás. Pedalava e rezava "O Credo". Duas ações que desempenhou tão rápido, que muitas vezes embaralhava tanto a reza quanto os pedais, mas como por um milagre conseguiu virar a esquina sem cair, e desapareceu na escuridão...
Daquele dia em diante, Dona Flor perdeu um cliente para a concorrente que ficava do outro lado da cidade.
As núpcias de Ritinha
Ritinha perdeu a mãe muito jovem, foi criada pelo pai e pelos irmãos maiores.
A figura feminina mais próxima era a madrinha que morava na cidade vizinha e a visitava de vez em quando. Ensinava a afilhada a lidar com os trabalhos domésticos e a bordar, mas nunca conversou com a menina sobre certos assuntos. Achava Ritinha muito nova, quando fosse o tempo, teria a tal da conversa com a menina.
A figura feminina mais próxima era a madrinha que morava na cidade vizinha e a visitava de vez em quando. Ensinava a afilhada a lidar com os trabalhos domésticos e a bordar, mas nunca conversou com a menina sobre certos assuntos. Achava Ritinha muito nova, quando fosse o tempo, teria a tal da conversa com a menina.
Mas o destino se encarregou de interromper o aprendizado. A madrinha morreu , e Ritinha passou a viver em um mundo de homens. E com eles passava a maior parte de seu tempo. Ajudava na lida com o gado, na roça e ainda nas tarefas domésticas. No tempo livre era mais um dos vários moleques da fazenda.
O tempo passou e quando as primeiras chuvas da primavera chegaram, Riitinha estava trepada nas grimpas de um pé cheinho de gostosas e suculentas jabuticabas quando percebeu que havia sangue escorrendo pelas pernas. Procurou por um ferimento, não encontrou nada. Sozinha, desceu rapidamente, e já em terra firme se examinou, e quando percebeu a origem do sangramento, abriu a boca a chorar. Não sei se por falta de lágrimas ou por entender que o choro não faria o sangue parar, ela fechou a boca e em soluços pediu ao Divino Pai Eterno que não a deixasse morrer daquilo. Correu para o banheiro e ficou lá emburrada.
Uma vizinha que ajudava no serviço da casa interveio, e conseguiu fazê-la abrir a porta e lá dentro mesmo deu uma aula rápida sobre o assunto. Ritinha de olhos inchados, apareceu na hora da janta , e nos dias que se seguiram todos puderam notar seu andar um tanto estranho, mas pensaram que se tratava de alguma sequela do acidente que a pobre sofrera no pé de jabuticaba.
Ritinha agora era uma mocinha. Mas apesar disso, ainda mantinha semblante e atitudes de menina.
Na véspera de completar quinze anos seu pai lhe chamou na sala, depois do jantar. Estava lá um homem que Ritinha já tinha visto algumas vezes na fazenda. Era José, filho de um conhecido de seu pai. Foi assim que Ritinha soube que seu destino já havia sido traçado pelo seu pai, muito antes dela adentrar-se naquela sala: “Rita de Cássia, minha fia, este é Zé, fio do compadi Mané, ele vei pidi sua mão, eu consenti, só falta agora acertar a data, modi o’cêis casá.” Ela assentiu, e foi chamada a retirar-se. Até que achou que seu pai falou muito, em seus quase quinze anos de vida, nunca ouviu o velho lhe dirigir mais que uma frase por vez.
Antes de sair, só deu uma olhada no tal do Zé, este era todo sorriso.
Desde acontecimento até o casamento se passaram menos que trinta dias. Zé arrumou tudo bem depressa, a pedido do sogro: “Minha fia não teve mãe, a madrinha morreu, e aqui tem homi demais. Ela pricisa casá logo, ou vai virá machi e fema.”
E tudo correu dentro dos conformes, tirando o fato de Ritinha ter se casado inocente de tudo.
Já casados e instalados em sua casa, cheirando a nova, Ritinha entrou para o quarto, tirou o vestido de noiva, vestiu sua camisola e se deitou. Estava muito cansada, só pensava nos presentes, queria abri-los o mais rápido possível, mas combinou com Zé que deixariam para o dia seguinte. Até que ela gostava dele, nas poucas vezes que se encontraram, sempre foi muito gentil e educado. Mas estava com medo de ficar a sós com ele. “Ele me olha de um jeito...parece que tá me vendo pelada! Curuizz!”
Quando Zé entrou no quarto, ela ainda estava acordada, mas fingiu dormir. Percebeu que ele já havia tirado sua roupa de noivo, que tinha tomado banho, pois cheirava a sabonete e a a pasta de dente. Ele se deitou ao seu lado e foi chegando perto. Quando se encontou nela, ela se afastou. Quanto mais ele chegava, mas ela se afastava. De olhos fechados e ressonando de mentira, Ritinha chegou tanto para o lado que acabou por cair da cama. Fez um barulhão. “Ritinha, meu amor, você se machucou?” Ela fingindo acordar naquele instante: “Que nada, sonhei e assustei! É melhor a gente ir dormir, estou muito cansada!” Zé emburrado, resolveu ir dormir no sofá.
Três dias se seguiram, ou melhor, três noites, e nada. Toda noite, quando Zé se aproximava, Ritinha inventava uma desculpa, e ele acabava no sofá. A paciência se esgotou na quarta noite. Na primeira tentativa, quando Ritinha recuou, Zé esbravejou “Ritinha, o que tá acontecendo com você? Nóis casó tem quase uma semana e ocê num deixa eu triscá nem no seu cabelo? Eu tive paciência até hoje, mas assim num dá né? Sou um homem casado e quero o que é meu por direito!” Quando Zé parou de falar, Ritinha abriu o berreiro.
Zé, sem saber o que fazer, ameaçou: “Tá bão, hoje num vou mais triscá n’ocê, mas se amanhã de noite num acontecê nada, vou devorvê ocê pro seu pai... Bem que a mamãe me avisou, que fia criada sem mãe num dá muié que presta! Amanhã..” Disse isso, pegou seu travesseiro e foi dormir na sala de novo.
No outro dia, quando Ritinha se levantou Zé já havia saído. Ficou em casa amanhã inteira pensando em uma saída. Sabia que o pai não a aceitaria de volta, teria que dar um jeito naquela situação. Mas o que deveria fazer? Tinha uma ideia muito vaga sobre a coisa, nunca teve uma amiga, com quem conversasse. “Não sou chucra, tenho educação. Estudei, sei lê e escrevê. Sempre cozinhei e até sei bordá e costurá. Como a sogra falou isso de mim? Que eu num presto porque num tive mãe? Eu presto sim! Veia iscumungada, eu presto mais que ela! O que Zé quer fazer comigo é feio e eu acho mei nojento! Será que todo mundo que é casado faz isso? Meu pai fez com a minha mãe?”
Como sempre fazia em momentos de desespero, Ritinha se pôs a rezar e a pedir ajuda a todos os santos que sabia o nome. Criou coragem e tomou uma decisão.
Quando Zé chegou, ela já o esperava no quarto. Antes que ele fizesse alguma coisa, ela mandou que se sentasse. Ele se sentou, e ela falou: “Zé, você tá certo, eu não deveria ter feito isso! Sei que te devo e vou pagar. Pensei que ocê num fosse cobrá, mas já que cobrô. Mas antes, quero que ocê me responda uma coisa.” Zé,olhou para Ritinha que se mantinha de pé, com as mãos na cintura: “Pode falar, Ritinha!” E ela soltou: “Oiá Zé, o’cê sabe que num tive mãe, que num tive ninguém pra me ensiná essas coisas, intão como eu vou sabê fazê... Mas é verdade que todo mundo que é casado faz isso?”
“É verdade Ritinha”
“Até sua mãe e seu pai?”
Zé engoliu seco “É, eu acho que eles ainda faz!”
“O’cê vai tê paciência de me ensiná?
“Mas é claro, eu amo o’cê!”
“Num tem outro jeito, tem?”
Ele balançou a cabeça negativamente. E ela acrescentou:
“Então hoje,quando ocê vié num vou chegá pra lá!”
No outro dia, Zé chegou mais tarde no trabalho, e quem passasse lá por perto notaria que toda a roupa de cama recém lavada, secava no varal.
Tempo depois quando Zé foi visitar sua mãe:
“E sua muié, Zé, tá aprendendo a ser muié casada?”
“Tá sim, mãe! O que ela num sabe, eu ensino. E num é que ela aprende direitinho, tem umas coisa que já ta fazendo mió do que eu ensinei!”
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
Infância
Ao contrário da maioria das crianças de sua idade, preferia as noites. Gostava muito daqueles pontinhos brilhantes espalhados pelo céu. Sabia que as estrelas tinham nomes, mas como não os conhecia, rebatizava-as. Vênus ganhou nome de Lanterna, Sirius era Olho de Boi, e assim ia nomeando as mais brilhantes. Dormia perto da janela, pelas frestas, mirava o céu até adormecer.
A lua era sua companheira, nas noites que ficava grandona gostava de ficar olhando-a e imaginando a cena antológica de São Jorge matando o dragão, entalhada na superfície lunar. Imaginava a batalha minuciosamente até pegar no sono.
Não gostava de noites chuvosas. Era como se colocassem um venda em seus olhos, e sentia muito a falta das estrelas. Haviam os relâmpagos, mas não eram a mesma coisa.
Tinha sete anos, era magricela, e possuía um par de olhos fundos, de uma cor difícil de definir. Trazia os cabelos sempre curtos Como não gostava de pente, era a única forma encontrada pela mãe de manter os piolhos, tão comum entre as crianças, bem longe.
Os irmãos mais velhos, todos crescidos não lhe davam muita bola, o caçula, era muito pequeno e mimado. A mãe estava sempre ocupada em seus afazeres, e o pai vivia trabalhando, saía de casa muito cedo e chegava quase sempre a noitinha. Naquela casa conversa-se só o essencial. Se refugiava no quintal, pois era lá que sua tagalerice vinha à tona. Soltava a imaginação, e assunto é que não faltava com seus amigos imaginários. Não foram poucas às vezes em que a mãe, lá de dentro da casa gritou e perguntou se havia mais alguém fazendo-lhe companhia.
Nascera naquela fazenda, seu mundo era ali. Imagina-se que seja pequeno, mas como era vasto! A grandeza daquele lugar não a impediu de buscar conhecer cada cantinho, por mais escondido que fosse. Córregos, ladeiras, grotas, cada ninho de passarinho, cada casa de joão-de-barro. As árvores eram divididas em duas categorias: as subíveis e as não subíveis, pois algumas, só os pássaros conseguiam chegar aos galhos mais altos. Adorava encontrar os lugares onde os vaga-lumes ficavam escondidos durante o dia, para onde passarinhos iam quando a chuva caia, de onde vinha a água transparente que corria pelo seio da mina, e os peixinhos que apareciam dentro do poço, sem ninguém tê-los colocado lá, e onde era a saída dos vários buracos de tatus espalhados pelos barrancos da fazenda. Em seus planos também estava descobrir para onde a lua ia quando desaparecia depois de ficar fininha, da grossura de uma unha cortada.
Com oito anos, foi para a escola pela primeira vez. Aprendeu a ler primeiro que todos os outros da sua idade. Seus olhinhos brilhavam cada vez que fazia uma nova descoberta. Quando chegava em casa, arrastava os cadernos para onde ia. Como dentro da casa não possuía um cantinho para chamar de seu, passava horas, na sombra de uma mangueira, com um livro no colo. Com a leitura, descobriu que não precisaria ir muito longe para desbastar terras longínquas, e que em noites chuvosas também há estrelas. O seu mundo que já era grande, agora seria infinito!
Você já levou um teletequi?
A linguagem é algo vivo, que se transforma com o tempo. O nosso português, segundo os dicionários oficiais, possui mais de meio milhão de palavras que às vezes não são suficientes para expressar o que queremos.
Na literatura ou em nosso dia-a-dia podemos ter o prazer de ler ou mesmo de ouvir palavras que não constam em um dicionário. São chamadas de neologismos. Palavras são “criadas” por derivação prefixal e sufixal, abreviação, justaposição e aglutinação. É como se a língua fosse uma colcha de retalhos, junta-se peças de formas e cores diferentes e no final forma-se um belo desenho. Desde o Modernismo, a liberdade de expressão e criação permitiu que encontrássemos em nossa literatura: o “vagamundear”, o “respeitabundo” de Oswald de Andrade, o “cachacista”, o “apenasmente”, de Dias Gome, o “nonada”,o “Sagarana” de Guimarães Rosa, e o “coracional”, e “pluvimedonha” do Drummond, dentre tantos outros.
Porém, se a língua é viva, e a escrita é um reflexo da fala, devemos procurar os maiores “ tesouros da neologia” (será que criei uma expressão nova?) nas rodas de conversa, no dia-a- dia. Mais precisamente é na boca do povo que podemos encontrar relíquias nunca antes catalogadas.
Há palavras tipicamente regionais. São usadas em regiões específicas do país. Quem nunca ouviu falar do mineirês, do goianês, da fala típica dos nordestinos? E ainda se formos mais a fundo, há aquelas que pertencem a uma pessoa, em particular, como se fossem personalizadas. Só um indivíduo fala e consegue se fazer entender pelas pessoas de seu redor.
Tive o imenso prazer de conviver com um usuário dessa linguagem personalizada. Minha mãe, Dona Jaci. Ela, uma autêntica goiana, filha de mineiros, sempre foi uma mãe exemplar e carinhosa, que vez ou outra saía com uma palavra nova. Procurei no dicionário, no Google, não encontrei nada. Algumas nem um radical catalogado possuem. As palavras realmente eram dela, ou nossa, já que herdei algumas.
“Suas palavras” não foram criadas aleatoriamente, seguem um padrão. E analisando-as pragmaticamente, evidenciou-se o óbvio. Ela sempre as usava quando estava contrariada, com raiva. Pelo menos, é o que eu, sua mais atenta ouvinte, pude perceber.
Selecionei algumas delas, e o contexto em que eram usadas.
Salamploro: este adjetivo era atribuído aos homens da casa, sempre que não comiam na hora certa, deixavam roupas espalhadas, chegavam atrasados (os desmandos masculinos típicos, quem é casado, e quem mora com irmãos adultos sabe o que quero dizer.)
Teletequi: sinônimo de palmada, de surra. Quando a gente estrapolava na bagunça, ouvíamos sempre a frase: “Vocês tão precisando de uns teletequi, meninada!” Ficava só na ameaça, nunca nos batia! Os “teletequi”, tomei e ainda tomo ainda da vida...
Bussaina: me lembro a primeira vez que ouvi esta. Ela deixou cair por acidente uma leiteira de leite no chão da cozinha que tinha acabado de limpar. Imaginem a bagunça! Falou bem alto: “Mais que bussaina!” Acho que ela ia soltar um daqueles, resolveu no meio do caminho e acabou criando uma nova palavra, ou palavrão, sei lá!
Incaficionado: vivíamos na roça, tudo era velho e quebrava constantemente. Era o adjetivo que ela usava para a geladeira, fogão, televisão e tantas outras coisas que viviam com defeito. E como todo adjetivo, concordava em gênero (não em número, pois plural para goiano é só para os artigos) com o substantivo: “A incaficionada dessa geladeira velha tá com defeito de novo!’
Purgante jalapa: quem mais poderia ser chamado disso? Nós, que além de sermos purgantes, não éramos qualquer purgante, tínhamos o diferencial de sermos jalapa! Sempre na hora da birra, da insistência comum das crianças, ela nos chamava disso.
Estes são os mais populares, que ela dizia com mais freqüência, todos nós temos nosso dicionário internalizado, e a ele que recorremos toda vez que vamos nos expressar, e o dela em especial, era bem mais vasto do que o meu.
Realmente, a linguagem é algo incrivelmente atraente! Encerro, com um poema do Bandeira, e prometo voltar falando das expressões que ouço por aqui! Um grande abraço!
NEOLOGISMOManuel Bandeira
Beijo pouco, falo menos ainda.
Mas invento palavras
Que traduzem a ternura mais funda
E mais cotidiana.
Inventei, por exemplo, o verbo teadorar.
Intransitivo:
Teadoro, Teodora.
quinta-feira, 14 de julho de 2011
Aves: penadas e penosas
Desde os primórdios da humanidade há muito misticismo e superstição na relação entre o homem e as aves. Na Grécia antiga tal relação chegou ao seu ápice. Tanto que ave em grego é sinônimo de mensagem e de presságio. Muitas guerras tiveram seu rumo estabelecido pelo voar, pelo cantar, pelo agir de uma ave. Desde então, nossos amigos emplumados inspiraram diferentes civilizações antigas e modernas em todo o mundo.
Se essa ligação , digamos, sobrenatural, entre homem e ave é universal, nós do Cerrado não ficaríamos de fora. Cresci ouvindo mitos e superstições a respeito desses bichos. O número de crendices é proporcional ao número de espécies que habitam nossa região. Não sigo presságios, mas também não consigo ignorá-los totalmente.
Quem conhece, ou já esteve viajando em estradas de terra que atravessam o cerrado goiano, sabe que vez ou outra, pode-se encontrar siriemas. Estas aves típicas do cerrado, além de ter o hábito de procurar alimento nas margens e no leito estradas, se apropriam do caminho dos humanos para ir e vir. Caso você se cruzar com alguma, torça para que ela fuja sempre procurando a margem direita. Pois se o bicho for para a esquerda dá um azar danado.
Também há toda uma atmosfera de azar que envolve as corujas. Uma ave como outra qualquer, que tem o costume de cantar pouco. Segundo a biologia, seu canto, como no restante das aves, tem relação com o período de acasalamento. Ciência não é capaz de explicar os fatos ligados à superstição. Ter uma coruja cantando nas proximidades de sua casa é muito ruim. Segundo os mais velhos e sábios habitantes do cerrado, o bicho anuncia que algum morador das adjacências, ou algum parente próximo do mesmo vai bater as botas. Odeio corujas!
Há uma ave chamada coan. Ela também é conhecida por macoan. Uma ave de rapina, que engole cobra e lagartos por prazer. Dificilmente se encontra uma voando por aí. Vive mais na espreita, emite um canto triste, que pode ser ouvido de longe. Gosta de cantar no final do dia, e se não for interrompida, segue noite adentro seu incansável: macoan! macoan!. Isso mesmo, seu canto se dá repetindo o seu nome. Se você se cansar de ouvi-lá cantar, tem um modo infalível de apertar o botão desliga, e ainda por cima, traz ao autor do feito muita sorte. Pegue uma faca e enfie na terra, apontando para o lado que o som vem. O bicho para de cantar logo em seguida e isso te dará sorte. Como sei disso? Era uma coisa que eu sempre fazia quando era criança. É só enfiar a faca que o bicho para de cantar. Se dá sorte mesmo, já não sei, mas não custa nada tentar.
As galinhas do terreiro também devem ser observadas. Achar um ninho cheio de ovos no mato é sorte na certa. Quando duas galinhas brigam, é sinal que vem visita feminina por ai. Se o galo cantar fora do horário considerado padrão, é um mau sinal. Tem até um ditado que trata o assunto: “Galo que fora de horas canta, é
cutelo na garganta!” Melhor passar um cutelo na garganta do pobre, antes que ele acorde os demais. Se alguma galinha do terreiro soltar o gogó e cantar, deve ser extirpada imediatamente. Não se pode mudar a ordem natural das coisas, quem deve cantar no terreiro, pelo menos no mundo animal é o galo, não a galinha. Melhor nem comer a carne da pobre, pois dá azar. A galinha foi amaldiçoada por ter ciscado e espalhado a palha do presépio onde o santo Menino nasceu. Por isso, galinha quando entra em casa traz azar. Se alguma galinha do terreiro soltar o gogó e cantar, deve ser extirpada imediatamente. Não se pode mudar a ordem natural das coisas, quem deve cantar no terreiro, pelo menos no mundo animal é o galo, não a galinha. Dizem que o seu canto chama a morte. Para espantá-la, corta a cabeça da pobre cantora e joga em cima do telhado. Duro é aguentar o cheiro depois.
cutelo na garganta!” Melhor passar um cutelo na garganta do pobre, antes que ele acorde os demais. Se alguma galinha do terreiro soltar o gogó e cantar, deve ser extirpada imediatamente. Não se pode mudar a ordem natural das coisas, quem deve cantar no terreiro, pelo menos no mundo animal é o galo, não a galinha. Melhor nem comer a carne da pobre, pois dá azar. A galinha foi amaldiçoada por ter ciscado e espalhado a palha do presépio onde o santo Menino nasceu. Por isso, galinha quando entra em casa traz azar. Se alguma galinha do terreiro soltar o gogó e cantar, deve ser extirpada imediatamente. Não se pode mudar a ordem natural das coisas, quem deve cantar no terreiro, pelo menos no mundo animal é o galo, não a galinha. Dizem que o seu canto chama a morte. Para espantá-la, corta a cabeça da pobre cantora e joga em cima do telhado. Duro é aguentar o cheiro depois.
Os beija-flores têm um lugar especial. Aqui o bichinho sempre traz sorte e alegria. Dizem que se algum adentrar pela casa, é como se a mesma recebesse uma visita celestial. O beija-flor traz consigo muita sorte. Mas para valer, a visita tem que ser espontânea, não vale colocar água doce para atraí-los!
O ritmo das batidas do pica-pau na árvore pode decifrar o sexo de um bebê que estaria para nascer. Superstição muito útil nos tempos a.U(antes da ultrassonografia). Mas tem que ser perto da casa da futura mamãe, se não o passarinho pode se confundir e passar informação errada. Se for um ritmo rápido será menina. Se for mais brando, demorado, será menino.
E os pombos? Não se deixe levar pela imagem bonitinha de pombinhos fofinhos. A prosperidade de seu dono pode ser medida pela quantidade de pombos que possuir. O inusitado que é uma relação inversa. Quanto mais pombos, mais miséria é atraída para o seu proprietário. Em tempos modernos, no qual, os pombos não têm dono e viraram praga, difícil é definir pra onde a miséria vai.
Os urubus que são anunciadores de morte por natureza, pois onde há urubu, há carniça! Além do luto eternizado pela cor de suas penas, carregam também a fama de serem almas penadas. Gente que de tão ruim nem o inferno aceitou, volta para cumprir sua penitência em forma de urubu.
Ainda há a crendice que cerca o que entra pela boca, pela carne do pobre do bichinho: pé de galinha, leva a pessoa para trás. Garnizé e pato dão vigor, virilidade. Quero-quero dá insônia (o bicho canta a noite toda, parece não dormir nunca) e o pêru dá prosperidade, sorte.
Todo esse emaranhado de crendices e superstições, existem outras que ficaram de fora não por ser menos importantes. Como eu disse, ouvia isso enquanto era criança, e muita coisa acabei por esquecer. Espero ir lembrando aos poucos, preciso comer carne de galinha da angola, o nosso famoso cocá, dizem que é bom para a memória.
segunda-feira, 11 de julho de 2011
Carece ou não fugir da morte?
A morte é a única coisa certa na vida. Desde o dia em que nascemos, a cada minuto que passa, ficamos mais próximos dela.
João Careceu morria de medo de morrer. Desde que se entendeu por gente tinha pavor de velórios. Cortava voltas de cemitérios e nem sequer pronunciava a palavra morte, pois acreditava que a cada pronuncia a dita cuja dava mais um passo em sua direção. Vivia a procura de benzimentos e rezas que o protegessem da ceifadora implacável.
Certa vez procurou um vidente, este previu dia e hora exatos que João passaria desta para a melhor.
Segundo o tal do vidente, o dia tão temido para João, seria dali a 15 anos. Meio atônito com a notícia recebida, João do Careceu fez uma promessa: o tempo que lhe restava seria utilizado para arrumar alguma solução no sentido de adiar, ou mesmo neutralizar a tal da premonição.
Se a procura pelo sobrenatural já era grande antes do tal do aviso, depois então era que João não parou mais.
Em sua procura arrumou várias simpatias, mantras, trabalhos, rezas brabas. Muitos lhe afirmaram que se o “benzimento” não funcionasse, ele poderia voltar que o dinheiro seria devolvido. João só não recorreu a um pacto porque se tinha uma coisa que temia mais que a morte, era os caldeirões do bicho ruim.
O dia marcado se aproximava e nada de João encontrar algo que realmente funcionasse. Já desesperado, na véspera da data prevista, recorreu a um último recurso: raspou a cabeça, deixou sua carteira e documentos e se vestiu como um mendigo. Na rua, se misturou aos sem-teto que por ali perambulavam. “Ninguém o reconheceria, ali no meio de tanta gente igual. Nem a morte seria capaz de identificá-lo.” Pensava, enquanto estendia um copo vazio à procura de alguma esmola, tentando imitar os que estavam a sua volta.
João se estalou bem de frente a torre da igreja, de lá poderia avistar o relógio, que media o tempo tão devagar que os minutos pareciam séculos.
De cabeça baixa, João percebeu uma sombra se aproximando. Levantou os olhos e viu um homem, vestido de preto. Pensou ser um transeunte qualquer, mas o indivíduo de presença tão marcante e ao mesmo tempo tão sutil, parou diante de João Careceu, estendeu a mão, deixou cair uma moeda no seu copo vazio, e disse: “ Eu tinha um encontro hoje, bem aqui neste lugar, nesta hora. Parece que a pessoa não veio. De qualquer forma, tenho que levar alguém comigo. Se não tem tu, vai tu mesmo!”
Mais tarde, quem passou pelo local, soube que ali morrera um mendigo. De frio, talvez. Indigente, não careceu nem de velório e nem de lápide.
http://www.recantodasletras.com.br/contos/3088916
Assinar:
Postagens (Atom)

