sexta-feira, 4 de março de 2011

CULTURA E EDUCAÇÃO: Antiguidade, Idade Média e Idade Moderna



INTRODUÇÃO



O processo educativo como conhecemos hoje, não foi sempre assim. Para chegar onde está passou por etapas.
O seu início se encontra nos primórdios da nossa história e vem ora evoluindo, ora retrocedendo ao longo dos milênios. Nesse caminho natural, tanto a forma, quanto o conteúdo da educação mudaram, se adaptaram e desenvolveram, de acordo com o contexto histórico no qual estavam inseridos.
Para traçar esse caminho percorrido pela educação, contextualizado historicamente, começaremos com a cultura pedagógica na Grécia Antiga. Pois o modelo grego é grande inspirador em nossa cultura não só pedagógica, mas de forma geral. Passaremos pela Idade Média, esse período importante de nossa história que durou mais de mil anos e por fim faremos um pequeno panorama da educação na Idade Moderna.


HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO

Há algumas dezenas de séculos antes de Cristo, a península grega era formada por vários povos como os Dórios, os Egeus e os Micênicos, que acabaram se unindo, depois de muita guerra, formando uma só civilização, com uma mesma língua, uma só cultura.
Não se conhece muito da história grega desse período, chamado arcaico. O que se sabe é narrado por um poeta, Homero, na Ilíada e na Odisséia. Nesta época está a base de grande parte do desenvolvimento social e político dos séculos subseqüentes.
Nesse tempo a educação dos jovens estava nas mãos de um guerreiro mais velho, que ensinava a arte da guerra e a oratória. Era uma educação heróica, feita para futuros guerreiros, o que era bem adequado, já que viviam em guerra. Haviam rituais de iniciação para os jovens, passarem à vida adulta. Praticavam nesses rituais provas de corrida, arco e disco, entre outras modalidades. Os rituais da cidade de Olímpia são os mais conhecidos, pois inspiraram as olimpíadas modernas.
Aproximadamente em 800 a .C.  as  comunidades  aldeãs  vão   crescendo fortalecendo e tornam-se cidades-Estado. Com o agrupamento das pessoas, novos problemas surgem. Isso desperta no homem grego um desejo de pensar e buscar soluções para esses problemas. É ai que surge a filosofia.
Nesse momento, a Grécia passou por uma grande transição, pois estava nascendo a Pólis.
A Pólis era uma cidade-Estado que dominava um território. Era independente. Nela, as pessoas adquirem direitos e deveres, nasce o conceito de cidadão. Os problemas e as soluções das suas vidas eram de interesse comum. Não existia o individuo, mas um ser público. A palavra se torna instrumento político. Os melhores oradores eram os mais poderosos politicamente.
Esparta a Atenas se destacam entre as demais Pólis. Ambas possuíam modelos diferentes. Esparta era uma cidade de soldados, quase sem preocupações artísticas ou literárias, o Estado totalitário era o bem mais supremo. Atenas foi o berço de artistas e negociantes, a pátria da liberdade e da democracia.
Na Pólis, a importância da educação foi reconhecida, pois só com ela era possível alcançar princípios como a oratória e a filosófia tão importantes naquele momento.
Por volta dos séc. V e VI a.C., o modelo de Atenas se sobressai perante as outras Pólis, que passam a segui – lo. Isso fortalece muito o comércio, o que acarreta uma grande mudança na história grega.
As pessoas que enriquecem com o comércio formam uma nova classe social, que deseja poder político. Os mitos e crenças perdem aquele peso que tinham na explicação das coisas. O homem torna – se mais critico, e surgem indivíduos que interpreta essa nova maneira de pensar: Os sofistas.
Esses sofistas eram contratados pelos novos ricos para que lhes ensinassem a oratória. Nesse momento houve uma revolução no ensino: Há um mestre e ele recebe para ensinar em um lugar próprio, geralmente ginásios, onde também era ensinada a música, o teatro e a ginástica.
O ginásio passa a ser o centro da cultura intelectual e física. A transmissão da cultura é feita através da palavra e da escrita, visando a formação do cidadão e das suas virtudes. Estava nascendo a Paidéia, que era uma forma mais complexa de formação social, política, cultural e educativa, que ressaltava os valores morais do cidadão grego.
A Paidéia faz o modelo da Pólis entrar em crise, pois o indivíduo passa a ser mais desenvolvido e torna – se capaz de reconhecer a sua universalidade.
É nesse contexto que surge Sócrates (470 – 399 a .C.). Com ele a Paidéia se afirmará. O seu modelo teórico foi, e é, de suma importância em vários aspectos, inclusive na educação. Foi ele que mostrou sua importância para a formação humana na busca do auto – conhecimento. Elaborou uma teoria que sistematizava o modo de educar. É com Sócrates que a pedagogia se esboça como ciência, alcançando uma dimensão mais teórica. Os problemas da educação são enfrentados sem o determinismo de outrora. O racionalismo ganha força. Sócrates é considerado o pai dos filósofos, e suas formulações são seguidas por Platão (427 – 347 a .C).
Platão não só sistematizou os pensamentos de seu mestre, como foi mais longe. Elaborou um sistema filosófico idealista que priorizava o mundo das idéias em relação ao mundo real. Fundou uma academia, a primeira escola filosófica orientada para a política. O método empregado era o da conversação, do debate. Os alunos tinham que descobrir por si mesmos os meios para superarem os problemas. Contrariando os sofistas, que cobravam, a academia era gratuíta. A finalidade da educação para Platão é, como para Sócrates, a formação de um homem moral dentro de um Estado justo. Sua academia formou muitos discípulos seus, entre os quais Aristóteles se destaca.
Aristóteles (384- 382 a .C) não se distância muito das teorias de seu mestre, porém é mais realista. Com a pretenção de ensinar uma enciclopédica do saber, como física, lógica, ética e poética, fundou um liceu em Atenas, onde concretizou suas obras. Ele confirma a pedagogia de Platão, mas diz que a educação deveria ser destinada apenas aos nobres, que viveram no ócio, dedicando-se  somente  ao estudo, pois só assim chegariam a um patamar mais elevado em sua intelectualidade.
Quando o Macedônia conquista a Grécia, o período da história grega que conhecemos como Helenístico, a cultura se volta para o humanismo.
É um período mais cientifico, onde as ciências se especializam em varias áreas. O homem está ao centro de tudo, há um “desencantamento do mundo”, pois o ceticismo interroga tudo que era explicado pela mitologia e pela religião.
Aqui surge um novo modelo de educação, nunca visto antes. É criada uma linguagem própria para a educação com termos técnicos. Surgem escolas específicas como as de gramática e de retórica. O homem passa a dedicar-se mais as ciências e menos a filosofia.
As grandes obras da época foram reunidas em bibliotecas, tornando-se assim mais acessíveis. A missão das escolas, era a preservação, perpetuação e transmissão do conceito de Paideia. Mas... chegaram os romanos!
Roma conquistou a Grécia, assimilou sua cultura e de certa forma a difundiu pelo seu vasto império, que compreendia grande parte da Europa, norte da África e oeste da Ásia. Mas a hegemonia romana teve um fim. O império Romano se enfraqueceu por uma série de motivos, e as cidades não mais protegiam seus habitantes dos invasores que chegavam, os chamados bárbaros. Isso ocasionou uma fuga em massa das  pessoas para o campo.
Nesse meio rural, inicialmente era praticada uma agricultura de subsistência, as pessoas viviam de forma muito mais simples, sem os recursos que tinham na cidade. Depois de chegar a um apogeu na Grécia e mais tarde em Roma, a civilização européia se viu voltada aos modos arcaícos de sobrevivência.
Estava surgindo um novo modo de produção: o feudalismo, que resumidamente consistia em um sistema no qual as pessoas ricas possuíam grande quantidade de terras, a oferecia para plantio a quem não tinha e em troca ficavam com a maior parte da produção.
Os donos da terra, que eram nobres eram chamados susseranos, e os trabalhadores vassalos ou servos.
Esse período que durante muito tempo foi conhecido como “ Idade das trevas”, foi a época em que se formou a Europa, que hoje conhecemos, culturalmente e geograficamente.
Podemos dizer que a identidade européia se formou graças a consciência cristã, que a Igreja Católica difundiu e fortaleceu. Por causa das invasões bárbaras a cultura Greco-romana esteve a ponto de ser destruída, o que não aconteceu graças a atuação da Igreja Cristã, pois somente através da religião foi possível educar os povos. A doutrina da Igreja foi o ponto de partida para a educação que se desenvolveu na Idade Média.
Enquanto os filósofos gregos davam mais importância aos aspectos intelectuais do homem, o cristianismo medieval exaltava os aspectos morais. Não se baseava no ideal de imediata felicidade, nem no de vida da razão, baseava-se na idéia de caridade, humildade cristã. O novo conceito educacional concentrava-se no aspecto moral da pessoa humana.
A educação modelava comportamentos, expressões, temores e esperanças de cunho religioso, que vinha de pregadores que instauravam dogmas, educavam com sua palavra profética. Atuavam como moralistas, pois suas palavras transformavam comportamentos.
A população é educada na fé crista, nos seus dogmas, nos seus mitos. Quem não os seguisse, só teria um destino: o inferno.
A Igreja pregava principalmente a pobreza, a felicidade, a dependência e a submissão, calcados pela fé cristã. O que era muito convencional para a época pois era muito interessante que o povo fosse submisso e obediente tanto para a Igreja quanto para a nobreza.
No período medieval havia uma hierarquia muito difícil de ser quebrada, principalmente durante o feudalismo. Um servo, sempre seria um servo, nasceu servo, morre servo. Os nobres poderia ser religiosos.
A educação era diferenciada para cada classe social. Os nobres tinham uma educação mais refinada. A vida no interior dos castelos era bem diferente da vida do povo, pense na cultura literária, nas novelas de cavalaria, no amor cortês. Aos filhos dos nobres eram oferecidos uma educação mais elaborada, com noções de gramática, teologia, ciências exatas e naturais. Geralmente esse ensino era realizado por meio de um membro do clero. Aqueles que queriam seguir na vida religiosa, iam para os conventos ou para os mosteiros.
Os filhos dos servos eram educados para trabalharem em serviços braçais, como seus pais, na agricultura, pecuária, serem ferreiros, marceneiros etc. As meninas além de aprenderem o oficio que daria a sustento da família, aprendiam a tecer, costurar, cozinhar, etc. As crianças desde cedo já acompanhavam seus pais nas tarefas diárias. A maioria não tinha acesso à leitura. Os pobres possuíam uma cultura oral e visual, com um imaginário riquíssimo, repleto de magia, mitos e crendices. “O conhecimento” que eles tinham lhes era passado através dos pregadores, nos sermões da missa de domingo. Durante muito tempo poucos tiveram acesso à uma educação elaborada e sistematizada. Não havia uma instituição que proporcionava educação e instrução à criança.
Dentro dos conventos e mosteiros a formação educacional era a mais completa da época. Lá os religiosos tinham acesso a livros, enciclopédias, pergaminhos, herdados do tempo antigo. Principalmente nos mosteiros, onde monges viviam enclausurados, o conhecimento se concentrava. A vida intelectual desses monges era intensa. Aprendiam grego antigo, latim e várias outras línguas para decifrarem e copiarem um acervo, ricamente variado, que só eles tinham acesso. Com isso, de certa forma a Igreja monopolizou o conhecimento. Apenas o que interessava era difundido. Durante a Idade Media houveram três diferentes movimentos intelectuais. Todos envolvendo membros eclesiásticos, já que na Igreja estava concentrada a intelectualidade da época. Esses movimentos são chamados de Período Patrístico, Monástico e Escolástico.
O Período Patrístico é onde se origina o trabalho dos primeiros padres da Igreja. Patrístico vem de padre. Esses religiosos eram educadores que procuraram conciliar a cultura Greco-romana com o cristianismo. É uma fase que cobre os primeiros séculos da Igreja.
No Período Monástico houve grandes benefícios para a educação. Os mosteiros deixam de ter um caráter só religioso, nesse período tornam-se praticamente as únicas instituições de ensino da época. Os monges reclusos conservaram a cultura antiga e a utilizaram como meio para a educação.
Durante o Período Escolástico, que começa no século XII e vai até a Renascença, há uma preocupação em demonstrar a ensinar as concordâncias da razão, formulando as crenças cristãs com a lógica aristotélica.
Os principais pensadores desses movimentos foram Agostinho e Tomás de Aquino.
Agostinho (354-430) fez uma analise vigorosa do ato docente (e deixou escrito em D. Magistro ), procurando iniciar um jovem às letras, tendo como escopo final a salvação da alma. Aborda a importância da linguagem e aponta Cristo como a verdade que ensina interiormente. Agostinho é do período Patrístico, e com ele esse movimento sofre transformações pedagógicas importantes. O cristianismo começa a ver-se como meio de disciplina. Conseguiu fazer de suas idéias um modelo acabado do método socrático, no qual aponta razoes que provam a impossibilidade de uma autentica comunicação entre os homens. Até chegar a conclusão que um só é o mestre de todos, e este é Deus.
Os pensamentos de Agostinhos são retomados nove séculos mais tarde por Tomás de Aquino (1125(?)- 1274), que se torna um dos principais filósofos da Escolástica. É um escritor fecundo baseado em Aristóteles, considera que razão é a chave para a verdade. Como Agostinho, diz que o verdadeiro mestre que ensina dentro de nossa alma é Deus, e sublinha que é preciso um mediador para que esse ensinamento chegue até nós e, que seria o mestre cristão. Sua obra tem o mesmo nome da criação de Agostinho. No seu D. Magistro, Tomás de Aquino discute os mais graves e controvertidos problemas pedagógicos de sua época, procurando justificar a ensino e a função do mestre.
Ao longo dos séculos a Idade Média vai tomando novos rumos. Com o fortalecimento do comércio, surgem pessoas que enriqueceram praticamente compra e venda de produtos, e uma nova classe social emerge: a burguesia.
Com os burgueses há uma espécie de revolução cultural e econômica. Reformulam uma nova visão de mundo, centrada no homem. A fé Cristã se vê abalada com novos pensamentos,e  a Igreja se vê obrigada a reformular seus conceitos.
Nesse contexto, surgem as universidades,que acolhe as diversas especializações do saber. Forma pessoas necessárias para essa sociedade que vem se transformando, tão rapidamente que em poucas décadas nascem as maiores universidades européias. Vieram para renovar a transmissão e o modelo cultural que torna – se mais racional, cientifico e técnico.
As mudanças foram bruscas. As bases que sustentavam o sistema estavam abaladas. Estava iniciando uma época que se caracterizava pela nova forma  de pensar sobre os conceitos fundamentais: a Idade Moderna. 
A transição da Idade Média para a Idade Moderna é marcada por fatos de decisiva importância para o futuro.
No campo econômico, o capitalismo começa a se firmar em sua fase inicial. Sustentando pelo mercantilismo suplanta o feudalismo. A burguesia se torna cada vez mais rica e mais influente. Na política, forma-se o Estado moderno, fundamentado no poder absoluto do rei. Há um crescimento considerável das cidades em torno das universidades e das feiras, onde o comércio era praticado. Surge na Itália um movimento cultural e artístico, que depois se estendeu por toda Europa, que propunha um novo modo de pensar restaurando formas e idéias da Antiguidade Clássica: O Renascimento.
O Renascimento renovou diversos setores da atividade humana. Nasce como reflexo do poder crescente de uma nova ordem social que começa a desenvolver-se nas cidades, paralelamente à formação da produção capitalista. É a primeira manifestação da burguesia em prol da conquista do poder político.
Alguns fatos foram determinantes para que na história surgissem os pensamentos contidos no Renascimento. As principais foram: as indagações que surgiam a respeito do cosmos já não eram supridas pelas explicações religiosas. O estudo da Geografia. Astronomia e as novas descobertas marítimas derrubaram conceitos até então indubitáveis. A passagem do artesanato à manufatura e o florescimento comercial.
Essas e outras descobertas passam a refletir a realidade atuante do homem em relação com a natureza. O conhecimento do mundo através da experiência, o empirismo, a relação entre o sujeito pesquisador, o método utilizado e o objeto pesquisado de acordo com as teorias de Bacon e Descartes, o humanismo, que coloca o homem no centro do universo, atuaram como um motor que impulsionou o Renascimento.
Nas artes, nas ciências, na filosofia, na educação, em várias áreas das atividades humanas houveram representantes que seguiram os novos ideais trazidos com o Renascimento: Dante, Leonardo da Vinci, Montaigne, Maquiavel, entre outros inúmeros nomes conhecidos por nós.
Mas essa mudança não foi bem vista pela Igreja Católica, pois as novas descobertas colocavam em cheque as doutrinas, as explicações pregadas pela instituição. Segundo a Igreja aquilo ia de certa forma comprometer o seu futuro e o do cristianismo. Assim utilizava todo o seu poder e influencia para manter essas idéias sobre controle. Isso era feito sobretudo nas escolas e universidades, que ate então estavam sobre o seu controle. No séc. XVI surge na França o primeiro colégio humanista, com grandes inovações, o que é duramente criticado pela Igreja.
No início do século XV o humanismo começa a ter uma intervenção considerável no processo educacional, pois acontece dentro da Igreja Católica um movimento que a divide, a chamada Reforma Protestante. Alguns lideres religiosos romperam com a Igreja Católica e criaram um grupo oposto. Os cristãos dividiram-se. Esse grupo, liderado por Martinho Lutero (1483-1546) teve ramificações por toda a Europa e esse movimento ficou conhecido como Protestantismo. Lutero considerava que o programa humanista de forma geral e aplicado na educação seria um instrumento indispensável para o fortalecimento é a manutenção da fé. É inaugurado um humanismo cristão, que procura conciliar os ideais humanísticos com o cristianismo.
Com a Reforma protestante, a Igreja Católica viu a necessidade de passar por uma reforma interna, rever alguns conceitos, para evitar que mais católicos seguissem Lutero. As principais providências tomadas foram a criação do Concilio do Trento que reorganizou a Igreja, e o surgimento do tribunal da Santa Inquisição que julgava e punia aqueles que se desviavam das doutrinas e a fundação da Companhia de Jesus que pretendia manter os católicos fiéis ao Papa através da pregação religiosa e da educação. A companhia teve tão grande influência sobre a educação da juventude, que atraiu até protestantes. Um dos princípios básicos do ensino jesuítico era o de que é melhor aprender pouco, mais bem aprendido do que aprender muito e superficialmente. A sua perfeita organização, o cuidado na preparação dos professores e os métodos de ensino foram os principais fatores para o sucesso dessa educação. As ordens religiosas controlaram a educação dos países católicos até o inicio do século XIX.
Durante toda a Idade Moderna (1453-1789) predominou o regime absolutista de governo, no qual o poder político passava de pai para filho e a nobreza e o clero gozavam de todos os privilégios. Como conseqüência, a educação, principalmente nos Estados Católicos era também privilégio dos nobres e dos clérigos, enquanto grande parte da população permanecia na ignorância. Já nos Estados onde o protestantismo era dominante, como nos Estados alemães, a obrigatoriedade de freqüência nas escolas já tinha sido estabelecida pelos governantes ainda no século XVII.
As condições do ensino elementar eram muito precárias durante o absolutismo, o professor muitas vezes era despreparado e ainda contava com a ajuda da palmatória. Mas há, nesse momento, propostas pedagógicas de grande valor como as de Comenius, o principal pensador da  educação na época.
Comenius (1592-1670), pastor e bispo dos morávios, uma ramificação do protestantismo, escreveu mais de cem tratados e livros educacionais. As suas principais idéias estão contidas em sua obra Didactica Magna. Dos numerosos assuntos que trata darei atenção especial a quatro: a finalidade da educação, o conteúdo da educação, o método e a organização das escolas.
Quanto a finalidade da educação,  Comenius aponta para o conhecimento, a virtude e a piedade. O seu objetivo está em ajudar o homem alcançar a felicidade eterna com Deus. Isso só seria possível se levar em conta os desejos naturais, instintos e emoções do homem.
O conteúdo da educação para o pensador deveria englobar os principais fundamentos, as razoes e os objetivos de todas as coisas principais, das que existem na natureza e das que são fabricadas.
Comenuis advogou o uso de um método que estivesse de acordo com a natureza, procurou aplicar ao ensino o método indutivo.
Em relação à organização escolar, dividiu o ensino assim: primeiro a criança iria para a escola da infância ou escola maternal. Depois desta viria a escola vernácula, uma espécie de substituição do ginásio para aqueles que não pudessem prosseguir em nível superior. Depois vinha a escola latina, que seria seguida pela universidade. Como continuação desta, Comenius propunha o Colégio da Luz, que se dedicava ao estudo cientifico de todo e qualquer assunto.
Comenius formulou dez princípios em que se fundamenta a solidez no ensinar e no aprender;
1- Tudo que se deve estudar deve ter em vista sua utilidade na vida.
2- Nas escolas devem ser ensinadas não só as letras, mas a moral e a piedade.
3- Tudo que se ensina deve ser ensinado com a referencia a sua verdadeira natureza e origem;
4- Imprimir a idéia geral na profundidade da mente do aluno;
5- É preciso conhecer e observar as coisas em si, e não só as observações dos outros;
6-Todas as partes de uma matéria devem ser aprendidas na sua respectiva ordem , posição e relação com as demais;
7-Os estudos devem ser organizados para que tenham relação com os precedentes;
8-Saber conhecer as coisas pelas suas causas;
9-Buscar a utilidade do que se aprende;
10-O aluno deverá fazaer perguntas ao mestre.
           As formulações de Comenius foram bastante notáveis para o avanço do modo de educar . Infelizmente muitas de suas idéias só foram praticadas efetivamente muito tempo depois.
            No final da Idade Moderna com as revoluções burguesas , houve uma separação entre Igreja e Estado o que acarretou mais mudanças na educação , até chegar ao que ela é hoje.
                                                 CONCLUSÃO

            Vimos que a educação é algo fundamental em todas as épocas de nossa história. Exaltada na Grécia antiga, restrita na Idade Média e inovada na Moderna, ela passou por fases e desempenhou um papel singular nas diferentes sociedades dessas épocas.
Vimos que a educação envolve diversos fatores, e que ora, uns são mais relevantes, ora outros. Algumas coisas ficam esquecidas, como as repressões na Idade Média, outras são sempre atuais, como os modelos platônicos e aristotélicos e ainda outras são retomadas, como o modelo clássico retomando na Idade Moderna.
Conhecer um pouco da história da educação é muito importante para nós futuros educadores.
 
                               
BIBLIOGRAFIA
  
CAMBI, F. História da Pedagogia. São Paulo. Unesp.1999.
COMENIUS. J. A.Didática Magna: Trad. Ivone Castilho benedetti, São  Paulo: Martins Fontes,1997
PLATÃO. A República. 3. ed.Trad. Carlos A. Nunes. Belém: Editora UFPA,2000.
ARIES, Philippe. História Social da criança e da família . 2. ed. Rio de Janeiro.  LTC

quinta-feira, 3 de março de 2011

O amanhã pode não chegar

             Tinha tantos planos. Nunca os executava. Trabalhava, guardava suas economias, e deixava tudo para amanhã, para o ano que vem, ou quem sabe daqui a uns cinco anos. Amanhã iria ao salão se arrumar, ano que vem faria aquela viagem tão sonhada, e daqui a uns cinco anos engravidaria.
           Casou-se cedo, por insistência do noivo. O noivado teria durado mais uns cinco ou seis anos, fosse por ela. Até o término da faculdade, até ter um reconhecimento profissional.
            E assim, passavam-se os meses, os anos. Já tinham quase uma década de casados, e era a única casada sem filhos da empresa. Quando a indagavam a respeito, respondia que ainda não estava na hora. Que queriam trocar de apartamento primeiro, fazer aquela viagem, fazer isso, fazer aquilo. E planejava, e tinha sonhos.
           Mas o tal do destino não adia o plano que tem para cada um de nós. Ele o executa no dia e hora marcados.
         Antes dos trinta, antes de concretizar qualquer coisa, antes de ter tempo para si, para a sua vaidade, para o seu lazer, para viver, para ser mãe, foi ceifado-lhe todos os sonhos, todos os planos. Tempo de sobra agora temos nós, para lamentarmos sua partida precoce.
          Ela nem era tanto minha amiga. Não teve tempo suficiente para isso. Mas senti muito a sua perda...

quarta-feira, 2 de março de 2011

O conto a seguir foi retirado do livro Tropas e Boiadas, de Hugo de Carvalho Ramos. Uma joia fundamental da literatura regionalista brasileira que voltou a ser publicada depois de 50 anos de sua última edição. É inexplicável que  ainda permanece desconhecido do grande público. Transcrevo-o, e deixo aqui para que mais pessoas possam conhecer parte da obra desse autor.
                                                                 
                                                              Peru de roda

Bela estampa de homem, o coronel Pedrinho! Alto, desempenado, a pele corada e rebrunhida pelos sóis do sertão, fazia gosto vê-lo quando apontava à tardinha no pouso, onde a tropa arranchara, e, estribado na sua grande mula ruana, passava revista à burrada, em fila ao longo do parapeito, o cabrestame em cruz sobre a testeira aberta, e mui vivaz e solerte à voz do patrão, interpelando Joaquim Percevejo – o arrieiro.
Sempre num terno de brim milagrosamente escapo à poeira das estradas, as botas de verniz mui lustrosas sob a prata dos esporins, um lenço de seda negra cingindo em fofo pela aliança de ouro o pescoço desafogado, mão firmada na ponteira do chicote que se apoiava à albarda na acolchoada da sela bela-vistense – era mesmo uma bizarria quando o seu perfil moreno atravessava ao largo das fazendas, donde o pessoal se postava das janelas e currais observando pouco antes a passagem da tropa, ou rompia árdega a mula pela praça do povoado, a descarga do último lote na rancharia dos tropeiros.
Figura única aquela, como única a andadura da rua na, de postura e qualidades tão bem gabadas e discutidas como as vantagens pessoais de seu dono.
Também, já ia o moço tropeiro beiradeando pelos trinta e quatro, e desde rapazote batia as estradas comerciais do velho Goiás, a princípio sob as ordens de seu defunto padrasto, o coronel Gominhos de quem herdara a tropa e o título, depois por gosto próprio, fugindo à vida marasmática e aperrengada do vilório natal, com todas as suas intrigalhadas e ódios inevitáveis de facção política.
De Pirenópolis a Araguari, em Minas, de passagem por Corumbá, Antas, Bela Vista e mais vilarejos do interior, transportando do sertão dos Pireneus couros e fumo, trazendo das praças mineiras as variadas manufaturas, ninguém como ele mais estimado e procurado para um ajuste de frete, dada a segurança da sua tropa – a mais garbosa e luzidia naquelas alturas – e o zelo sempre alerta que punha no resguardo da carga, quer fossem caixotes com o dístico – cuidado!... – indicando o conteúdo perigoso da dinamite, quer fosse o letreiro encarnado – frágil – sobre a tampa de pinho dos aparelhos delicados de louçaria e vidro. E, quando em mãos dos
destinatários, não havia então reclamações por vias de uma peça partida, ou fazenda desbotada pela chuva na caminhada dificultosa.
O seu prestígio corria parelha com a fama de honradez e sobranceria de caráter em que era tido naquelas funduras.
Já Joaquim Percevejo, o arrieiro, era um tipo bem diverso do patrão. Com uma longa faca de arrastro sustida ao correão da cinta pela “espera” de sola grossa, a barbaça grisalhona, espalhada em leque sobre as cordoveias do papo túrgido e rubro de peru de roda, afunilada e acabando em bico na boca do estômago, as pernas mui curtas e em arco pelo hábito da montaria, era um homem cuja eterna sisudez impunha sempre um respeito desconfiado aos camaradas. E, mui embora lhe viessem sentindo dia a dia a morrinha impertinente de seu gênio testudo e ateimado de idéias, em contraste à franca jovialidade do patrão, não ousavam contudo murmurar dos ralhos do arrieiro, quando via as suas ordens mal cumpridas ou relaxadas pelos seus na labuta cotidiana.
Assim, antes que a madrugada fosse amiudando, sobre a verde louçania dos serrotes apurpureassem os primeiros listrões da aurora, já na trempe do rancho, sob o buriti do olhod'água, se pousavam ao relento, chiava o caldeirão do cozinheiro, preparando o café e a rapaziada toda fazia roda, pronta a bater o encosto da vargem, ao campeio habitual da mulada.
Pois toda a satisfação do arrieiro consistia em ver o patrão, assim saído da barraca, com o seu floreado cuitezinho da bebida estimulante à espera, e os lotes completos, em fila nas estacas, babujando já a quirera da ração matutina.
Era de vê-lo então apurando o ouvido, inchando o peito, numa empáfia de mal contido orgulho, à saudação costumeira:
–Ah! sim, que vocês por aqui me madrugaram hoje, hein?!
– Na forma de sempre, patrão!
E bradava logo, comandativo, ao dianteiro, a raspar ainda a sua rapadura no fundo da caneca:
–Êh! Jerome! Toca pra diante, rapaz! Que o sol já 'stá pr'aí botando o seu carão de fora!
O outro não se fazia rogado. Descido o primeiro fardo da pilha, dava-lhe o boleio de uso, metia os dedos às alças, levantava-o à altura da cabeça, e, sob um peso de cinco ou seis arrobas de sola, estalava a mão ao fundo, na regra do costume, descia suavemente ao ombro; e, upa, upa, amiudando um passinho de mulo carregado que tivera a sua medida, vinha encostá-lo à capota do cargueiro, onde um camarada dava a demão, enfiando as alças no cabeçote e escorava a cangalha, enquanto ele corria a pegar outro fardo, restabelecendo do lado oposto o equilíbrio. Vinham os dobros desfazendo as demasias; e, passado o ligal, arrochado e preso o cambito da sobrecarga, o dianteiro desatava o cabresto, enfiava-o à argola da cabresteira, e dando um muxoxo ao ouvido da madrinha, esta tomava prestes a saída do trilho, apanhava o balanço rítmico da marcha, e lá ia arfando estrada afora, na matinada bimbalhante dos guizos e cincerros.
E o segundo burro, aprestado e solto, àquela toada costumeira que se alongava e iadistanciando do outro lado do córrego, saía logo a passo amiudado, impaciente por morder o primeiro na retranca, mal dando tento do peso morto de dez arrobas e mais que trazia sobre o lombo. E após esse, um a um os demais iam saindo na poeirada do antecedente, desaparecido no cotovelo do atalho. E quando o último sumia além, no gorgulho da rampa, já o segundo lote acangalhado e alerta nas estacas recebia os surrões, nos primeiros aprestos da partida.
Do lado de dentro do rancho, cotovelos fincados sobre o parapeito, Joaquim Percevejo assistia diariamente à saída da tropa. Era um garbo ver como as cores dos lotes se sucediam por escalão, o primeiro de crioulos alentados, o pêlo rebrilhando sobre a fartura luzidia das ancas; o segundo alvejante e albino, na mesma abundância de carnes roliças, para dar lugar aos rosados, castanhos-escuros e pêlos-de-rato dos terceiro, quarto e quinto lotes, ainda mui arteiros e indiferentes sob o arrocho dos carregamentos...
Já o cozinheiro albardara o seu ruço desferrado, e numa andadura indolente saíra ao alcance do dianteiro, que levava como dobro a capoeira de seu trem de cozinha. E quando era a vez do culatreiro, ainda os machos queimados de seu lote – o refugo da tropada – fariam inveja a muita fieira de tropa que briquitava naquelas estradas!
Então o arrieiro ajeitava a chilena ao pé esquerdo, aparelhava a ruana do patrão, presa à cancela do rancho, e ia apertar a cilha à sua mula mascarada, que naquela manha de animal velho e sabido, inchava a barriga, eriçava-lhe os redomoinhos, para menos sentir os efeitos do arrocho.
O coronel deixava-o pouco adiante, para um dedo de prosa com os conhecidos das fazendas que se iam avistando a pouco e pouco à direita, à esquerda, da estrada. E ele torava para a frente, no trote picado da montaria, chupando o cigarrão, devorando rapidamente as distâncias, no rastro ainda fresco da tropa, cuja ferradura ia amoldando a argila barrenta da chapada, estrada afora.
E quando galgava a eminência de um descampado, onde eram o araticum-do-campo, o pequizeiro, a fruteira-de-lobo e os coqueiros de macaúba que para cá dos listrões de mato se descortinavam esparsos no sapé bravio, a sua vista perdia-se ao longe, nas ondulações do terreno, abrangendo a récua distante do dianteiro, contornando um serrote; mais aquém, no fundo da vargem, o segundo, que galgava a encosta; o terceiro e o quarto ainda ocultos no travessão de mato, lá embaixo, donde não tardaria em pouco aquele a desembocar; o quinto acobertando-se nas árvores, e os cincerros da guieira do culatreiro a chocalhar-lhe os ouvidos ali adiante, numa nuvem de poeira, de que recebia as últimas lufadas.
Na estiagem magnífica da manhã, o sol aquentando e vibrando todo o sertão numa auréola gloriosa de luzes, zumbidos e chilreios – trilos de insetos nas touceiras orvalhadas e chirriadas adormentadoras de cigarras, plumagens multicores de pássaros no verde retinto da folhagem e arrulhos cantantes de água corrente – Joaquim Percevejo empinava o busto e ficava olhando muito tempo, esquecido, para baixo, donde vinha, por vezes, o reverberamento do sol, dando de chapa no latão de uma bacia, emborcada sobre um cargueiro do segundo lote.
Ao longe, os peões bracejavam e sacudiam a taca, achegados à retranca dos lotes; e nos volteios do caminho, as suas cabeças amarradas em lenço de alcobaça – as pontas sarapintadas voltadas para trás – passavam como asas de borboletas, adejando num vôo indolente rasteiras ao solo, uma azul, outra amarela, outra encarnada, por sobre o verde-pálido indefinível da campina. Faiscavam às vezes, num movimento involuntário do pescoço, os metais das cabeçadas de prata; subia a toada contínua dos guizos e cincerros; e, a perder de vista, a terra estuava e desdobravase
uniforme, na mesma e epitalâmica pujança de arruídos e de vida.
Joaquim Percevejo ficava olhando, olhando, estribado sobre os loros; e, vendo-se a sós, não podia que não soltasse o brado de entusiasmo que lhe transbordava do papo túrgido de peru de roda:
– Eta tropa danada!...
E aquela exclamativa era a expressão sentimental de toda uma existência subitamente revelada.
Espicaçada por súbita esporada, a mula descia em dois corcovos bruscos a rampa, crepitando, fazendo às árvores e cupins que deixava para trás, em postura de monge ermitão, uma carantonha obscena com o rabo erguido.
Pegado o culatreiro, já a sua fisionomia readquirira a sisudez apática de costume. O vozeirão grosso, descansado, de quem sabe dar o devido peso às palavras, interpelava:
– Êh! Sô Quim, como vai seguindo isto por aqui?
– O Passarinho tá danado de veiaco hoje; essoutro dia tanto coçou nos pau que deitou a carga no atoladô. Agora só qué memo cortá vorta no mato. Tá danado!
– Chega-lhe a taca, home; que isso é falta de carga no lombo. Amanhã, bota-lhe em riba mais um dobro da dianteira e o rosário de ferraduras. Vamos ver se ainda treta depois pelo caminho...
Não lhe dava o xará em respeito à hierarquia. Tinham chegado ao córrego, no âmago do travessão. Os burros enfurnavam-se pela garganta do ribeiro acima, entre o arvoredo das margens, recusando cada qual beber a água suja do que o precedera; e os que ficavam para trás, saciados, experimentando um súbito abaixamento de temperatura, abriam as pernas, selavam o ventre, e rabo ao ar dejetavam na corrente, naquela satisfação refestelada de irracionais. Os dois tinham parado à beira do córrego. Picando uma rodela de fumo, continuavam a conversa encetada. A mula do arrieiro, mais filósofa, matava ali mesmo a sede, num chiado agudo de água passando entre os ferros do freio, até que o primeiro mijado, a descer em bolhas na torrente, lhe despertasse os melindres.
– A modo que a manha de Passarinho é da cangaia nova. Mecê deve ter assuntado que desde os Olivero o bicho não toma jeito.
– Qual cangaia, qual carapuça! Encosta o relho e toca pra diante que é treta antiga!
– Êh! êh! Pachola! Ventania!... Diacho de bicho brabo!
O relho estalou e a burrada foi cortando pelo mato adentro, rompendo a marmelada-decachorro, vindo de novo ganhar a estrada cá em cima, na rampa.
Joaquim Percevejo correra a espora por sobre a anca da besta, já lá ia adiante, nas pegadas do segundo lote. Ia tudo sem novidade. E quando, passado um quarto d'hora, alcançara o terceiro, encontrou-o encalacrado numa volta do capoeirão, os burros socados no cerrado e o tocador a arrumar a carga da dianteira – que não tomava jeito e ia arrecuando e pisando o espinhaço do animal a cada nova subida do caminho.
– Toma tento na Tetéia, Izequiel; olha um calço na capota dessa cangaia.
O outro não respondeu. Vendo um cargueiro adiante raspando terra e fazendo menção de deitar, já lhe correra ao encalço, sacudindo-lhe a taca ao traseiro, bradando:
– Completo! Diacho de preguiçoso!...
Joaquim Percevejo, vendo-o naquela entaladura, apeara, concertava o cargueiro abandonado. E como tinha a mão pronta, dera logo jeito aos dobros, passara de novo o ligal, e arrochava a sobrecarga, mordendo os beiços e metendo o pé à barriga do burro.
Ao longe, no atalho da serra, passava um cavaleiro, alvejando, o cão de fila à cola, lambendo a poeira da estrada com o seu palmo de língua. E Joaquim Percevejo apertou a andadura da besta e foi torando mais depressa para alcançar o patrão na encruzilhada da serra.
E o ofício era aquele, assim, duro, na regra de pobre, como dizia o arrieiro.
*
* *
Aquela tarde a tropa arranchara nas Estacas. Volta e meia Percevejo procurou o culatreiro. Impressionara-o a contradita que tinham tido, na marcha do dia, a respeito do Passarinho. Topou-o mudando a baeta verde da cangalha do animal, distintivo dos arreios daquele lote, pela encarnada de um burro do dianteiro.
Em pouco esquentava a discussão.
– É como lhe digo, rapaz. O Passarinho quer mas é barrigueira acochada acima do branco
das costelas e mais uns dobros por riba. Bicho novo, amilhado como vai, treteiro de marca, pede carga de sustância. – Não devia relaxar. Juntasse aos dobros o amarrado de ferraduras.
O outro fez-lhe ver os suadouros da cangalha, que surrara a cacete. Duas grandes pisaduras, asas agoureiras de borboleta, maculavam o acolchoado na altura da cruz.
Nem isto o demoveu. Empirraçado já, recusou-se mesmo a ir verificarnasestacas, o lombo do animal, e palpar-lhe o “sentido”.
Como seu Quim continuasse recalcitrante na destroca dos arreios, bufou regurgitado:
– Tu 'stás aí, ainda me cheiras a ovo, menino! – Nunca se lhe fizera alguém intrometidiço no ofício, nem mesmo no tempo do defunto compadre Gominhos. Fizesse o que ordenara, senão...
– Tá bão! tá bão!
O Quim encolheu-se logo humilde. Como todo moço tropeiro, tinha um respeito bemeducado pela barbaça grisalha do outro. Mas o patrão gritava da barraca pelo arrieiro.
Ali na intimidade das paredes de lona, chamou-o à ordem. Não o contrariara à vista dos outros, a fim de evitar o seu desprestígio entre a camaradagem. Mas não tinha andado direito. Assim como queria, o burro ficava inutilizado. O Passarinho carecia era de cangalha bem assentada, mais larga. Aquela ia-lhe mal; o culatreiro conhecia bem o seu lote, deixasse-o à vontade.
Joaquim Percevejo espetou os dedos no barbalhão hirsuto; ajuntou o pêlo todo num puxão, amarfanhou tudo, fechou-o dentro da boca. Mastigou nervosamente, cuspiu a barba em leque e pediu a sua conta.
O coronel Pedrinho, já impacientado, abriu as canastras, somou as cifras, passou-lhe o papel.
O arrieiro era bem analfabeto; sabia porém, com extraordinária memória, tintim por tintim, quanto devia ao justo – três contos, seiscentos e oitenta mil-réis. O elevado da importância era o insofismável penhor da estima e confiança em que era tido. No sertão, camarada relapso não acresce dívida.
Arreou a sua mula, dispensou a janta, avisou que estaria de volta ainda naquela noite. Ia entender-se com o seu Ivo, mal-encarado coronel, afazendado nessas alturas. Conforme combinassem, talvez se desquitava aquele dia mesmo.
– Vai comendo brasa – disse o cozinheiro vendo-o chegar ao mesmo tempo relho e espora ao animal.
– Não é p'ra menos – retorquiu Izequiel; – qu'estúrdia, um pito no arrieiro!
E temperado o pinho, repisou uma quadrinha predileta de Percevejo:

Quatro cousas neste mundo
Arrenega um bom cristão:
Uma casa goteirenta,
Um cavalo bem choutão,
Uma muié rabugenta
Mais um menino chorão...

E não achou ali ao pé o arrieiro para dar, triunfante, a resposta na letra:

Mas agora venho a crer
Que pra tudo Deus dá jeito;
O cavalo se barganha,
A casa a gente reteia,
Do guri se tira a manha,
Na muié se mete a peia!

O coronel Ivo era um famanaz temido nas redondezas. Braço direito dos chefões estaduais, ferrador de burros e antigo tropeiro como o maioral deles, quando ia à cidade, os babaquaras da terra interrompiam a palestra e safavam-se pelos cantos, ao assomar na esquina o seu vulto apessoado de anta brava. (Não sorriam os leitores; é histórico e atual. E é até possível que quem escreve estas linhas fizesse o mesmo... Qualquer dia vê-lo-emos deputado federal pelo Estado.)
Também, as suas façanhas contavam-se pelos anos de vida; e, entre as menores, registrava-se o castramento por suas mãos de um pobre pancada em Goiabeiras, o estoiro de outro – de quem suspeitara meter-se-lhe a engraçado com a mulher, em Curralinho, à força de infusões de malagueta e salmoura deitadas goelas abaixo, por intermédio de um funil... Naquela sua fazenda nos arredores das Estacas, quarenta agregados e acostados enchiam-lhe as casas, pelo menos. O sítio era um arsenal, centro das marombas politiqueiras do município. Camarada que para ali fugisse, se era da gente da oposição, tinha coito e segura garantia.
O coronel Pedrinho era neutro. Caráter altivo e reto porém, ofendia as fumaças do mandachuva com o seu todo independente e sobranceiro.
Tinha-lhe o outro este ódio secreto e instintivo de todas as criaturas inferiores e
autoritárias para com os que não possuíssem um mesmo espírito de rebanho.
Gozoso, aproveitou a oportunidade para uma das suas pirraças. Sabia Percevejo visceralmente honesto. Engambelou portanto o pobre homem, comprometendo-se a solver a dívida no dia seguinte.
_Pois sim, pois sim; o Zeca Menino, seu capataz, era uma cabeça avoada. Malquistara-o com o administrador do porto de Mão de Pau, um velho correligionário, na passagem das últimas boiadas que por conta própria mandara às feiras de Minas. Demais, um perdido de mulheres... Estava precisando mesmo de um homem de confiança como Percevejo.
Este voltou inchado ao pouso da tropa. Fez os seus arranjos, e ao levantar do sol tornava de novo para a fazenda.
O patrão mandou soltar a tropa no encosto, e esperou-o o dia todo na rede, puxando as espiras azuis de seu goiano. Doera-lhe despedir o arrieiro. Também, não admitia controvérsias. Como todo chefe sertanejo, era fundamentalmente autoritário. Mas até aí, felizmente, nunca tivera azo de manifestar a sua energia. Percevejo trazia a tropa num brinco, e ali estava desde os velhos tempos do padrasto Gominhos. Estimava-o. Não transigiria, porém.
O crepúsculo veio com a monotonia dos grilos e sapos nas varjotas. Tons róseos, eslaivados, erraram, passaram fugidios sobre as franças das últimas cristas da Dourada, além. A noite entrou fechada, sem transição, e derramou-se no céu a prata das estrelas.
Arrastaram-se as violas no pouso até às dez. Depois tudo fez silêncio e o arranchamento dormiu embalado à distância pelo polaco das madrinhas de lote.
O coronel Pedrinho esperava encontrar Percevejo pela manhã, ao sair da barraca. Não contava, porém, com a lábia do fazendeiro.
Servido o almoço, atrelada a tropa, acangalhada e alerta nos aprestos de saída, e Percevejo não aparecia com o dinheiro.
Pelo beirar das onze o céu embruscou-se, soprou um vento quente, grossos pingos começaram a cair, prenunciando chuvarada.
Não se conteve mais, mandou enfrear a ruana. O rebenque metido no cano da bota, foi à boca do mato, abriu o viva-Goiás, ali tirou uma comprida e consistente embira de timbó. Fez uma rodilha, amarrou-a na garupa e enfiava o pé no estribo, quando o dianteiro correu do interior, bradando:
– Olhe, patrão, olhe que esqueceu o revólver mais a cartucheira!
– Não é preciso, levo ainda o meu canivete.
Lá na fazenda, Percevejo conversava, sobre os calcanhares, num canto do curral. O coronel havia-lhe dito:
– Sabe que mais? Não está nos meus hábitos pagar contas a desafetos. Dou-lhe a minha proteção, é suficiente. Ninguém o tirará daqui. Deixe-se por aí ficar, não há de ser o seu patrão que mande chover por outra forma.
E sorria pachorrento, nas suas enxúndias de homenzarrão, afagando os queixais de prognata, a olhar significativamente os rapazes em torno.
Foi quando o Pedrinho estancou a mula na cerca. Viu Percevejo acocorado no meio da roda, riscando o chão molhado com a roseta de sua enorme franqueira. Toda aquela gente ali reunida era um cabide de armas. E ao local chegava mais um grupo, o cano das clavinas aparecendo de sob as fraldas das carochas de indaiá.
Nem pestanejou.
– Percevejo, a tropa está há quatro horas de saída, e não quero saber de mais tardança. Avia essa conta ou volta para o pouso. Não posso falhar mais este dia!
– Hum! hum! Já aqui estou, por aqui me vou deixando... A conta será quando seu Ivo quiser...
O moço tropeiro não trepidou.
Bateu violentamente a cancela, entrou montado no terreiro, saltou da sela; e, a corda na mão, caminhou direito sobre Percevejo.
Nem um único olhar lançara ao fazendeiro. Pegou o arrieiro pela barba, atou-a num ápice, em nó-de-porco, à embira; prendeu a ponta desta ao rabo da mula e achou-se montado de novo. O coronel encarava-o aparvalhado, os olhos ramelentos, rindo constrangido. Nem um gesto sequer. E ninguém se movera naquele rápido segundo. Olhavam, estarrecidos.
Viram-no ferrar esporas, a besta arrancar num trote largo. E, ao primeiro puxão, Percevejo se pusera também a trotar atrás, desesperadamente. Sumiram-se na quebra do cerrado. E nenhum tiro se ouviu.
Paralisara-os a todos tamanha audácia!
E foi assim, empastado de suor, lama e aguaceiro, deitando os bofes pela boca, roxo de vergonha, que Percevejo fez a sua entrada nas Estacas.
Cortou-lhe a corda o patrão. E num gesto enérgico despediu-o:
– Vai-te, perrengue! Um homem que se deixa amarrar pela barba, não é homem, não é homem! Vai-te, não me deves mais nada!
E não se ouviu mais ali palavra a respeito.
Mas à noite, ponteando na viola, satirizou num repente o cozinheiro:

Quatro cousas neste mundo
Arrenega o arrieiro:
A manha do Passarinho,
A teima do culatreiro,
Uma conta a liquidar
E costas de fazendeiro...
Izequiel saltou como um boneco de mola, noutro improviso:
Mas agora venho a crer
Que pra tudo Deus dá jeito:
Lá no mato tem timbó
Que se tira sem o lenho,
Que se passa no gogó
À maneira de sedenho!

No dia seguinte, aproveitando a estiagem da manhã, a tropa toda arribou das Estacas e desfilou unida ao longo das tranqueiras do Ivo, sob as vistas de Jerome, elevado à categoria de arrieiro.
Os guizos carrilhonavam em conjunto no bulício matutino. Os peões, à passagem, faziam estalar indolentemente a lonca de seus compridos piraís. Mas iam todos precavidos e traziam à bandoleira os rifles de estimação.
Quanto a Percevejo, convenceu-se tanto o pobre-diabo do que lhe dissera o patrão, que derrubou a grenha e passou daí em diante a usar a barba raspada à navalha.