sábado, 6 de março de 2010

Enchente de São José

          Enquanto as águas de março  fecham o verão, aqui pelas bandas do Planalto-Central, faz um calor desgramado, e a chuva ameaça, ameaça e quase não aparece.
          Nesta época, parece normal fazer muito barulho e pouca chuva, mas  só parece. A chuva quando vem, vem forte, e na segunda quinzena do mês, por volta do dia 20 podemos esperar por uma das grandes, pois todo ano, esse período não fica sem uma  enchente. A chamada enchente de São José.
          Não tem aquecimento global, não tem mudança climática: o fato é que dia 21 de março é dia do Santo que dá o nome a enchente. Um pouquinho antes, um pouquinho depois, e algumas vezes, em cima da data. Se o Santo quiser, será assim também este ano, pelo menos é o que reza a tradição.
          Nasci na beira de um córrego! Um córrego que leva o nome de Nossa Senhora: O Conceição. Um córrego de águas limpas e cristalinas que deslizava e ainda desliza calmamente por aqueles brejos. Em sua beira, passei boa parte de minha infância.
           Córrego com nome de Nossa Senhora, e enchente com o nome de São José. Simples coincidencia?O  fato que é o dia de São José que o Conceição demonstra toda a sua força.
           A maior enchente que se tem notícia, desde que minha família se mudou para lá, ocorreu  em uma certa tarde. O azulão lá pelos lados da cabeceira do córrego, anunciava que a  água por lá, caíoa com gosto. Em nossa casa, ela nem foi tão forte. Correnteza a baixo ela veio chegando, e com um estrondo ela deu suas caras. Era 20 de março.
           Como era de costume, meu pai apartava os bezerros, para poder ordenhar as vacas no dia seguinte. Os colocava em um cercado, perto do córrego, onde tinham sua aguada.  Da janela da cozinha, viram que a água estava subindo rapidamente, ia alcançar os bezerros em pouquíssimo tempo. Meu pai conseguiu salvar alguns, mas outros, que estavam mais perto do córrego, já se encontravam ilhados, e seu pedaço de chão seco, ia diminuindo a cada segundo. Não dava para ir lá, seria arriscado. Na enchente, além da água suja, havia uma forte correnteza que arrastava tudo, desde galhos secos, até bichos peçonhentos que moravam na margem atingida pela enchente. Decidiram esperar, as águas poderiam baixar e todos seriam salvos. Mas isso não aconteceu. Da janela, viram a água atingir os pobrezinhos, que desesperados, se jogaram em meio à correnteza na tentativa de sair daquela emboscada. Não deu outra, foram levados. Metade da bezerrada estava indo embora na enchente. Eles não afundaram por completo, ficavam indo e vindo à superfície. Meu pai, que via o resultado de seu trabalho árduo ser levado pela enchente, decidiu agir. Em um instante, pegou seu laço, e foi para o fundo do quintal. Chamou todos da casa para ajudá-lo. Antes de fazer a curva, o córrego pegou um atalho, que ia dar bem na cerca da horta de minha mãe, que a essa altura tinha virado uma lagoa de água barrenta. A cerca era de tela, e estava servindo de rede no meio da enchente. Os bezerros com certeza iam passar por lá e ficariam presos.
              Meu pai se posicionou bem na margem, e usou sua habilidade de peão laçador para pegar os bezerros presos na tela, e com a ajuda de todos, tirá-los da água. Viu que um laço não seria suficiente, gritou para que pegassem todas as cordas que encontrassem. E assim o fizeram. Ele foi laçando, e os outros puxavam. Com muito trabalho, conseguiram salvar grande parte da bezerrada. Alguns, impiedosamente a água levou, e nunca mais foram vistos, nem vivos, nem mortos. Outros aparecerem na fazenda do vizinho, que os devolveu , dizendo que os viu saindo do meio do lamaçal. Os que foram salvos, a laço, todos sobreviveram.
            Enquanto estavam no canto da horta tentando salvar os pobres bezerros, a água atingiu a casinha do monjolo. Pendurada em suas paredes, estavam dezenas de novelos de linha de algodão, retirados da roda de fiar, a água não perdoou. Além do monjolo, levou também as linhas, e as que restaram, de tão sujas e encardidas, viraram cordão para sacaria. Dias depois, alguns pescadores deram noticia do monjolo intacto, muitas braças córrego abaixo. Foram necessários, duas juntas de bois para arrastá-lo de volta. As linhas foram desenoveladas e viraram uma maçaroca entre a vegetação.
            Desde então, até que nos mudamos de lá, não podia armar chuva para o lado da cabeceira do rio, que o alerta de enchente vindo de minha mãe, soava. O cercadinho dos bezerros, desde então, passou a ser em uma parte mais alta, longe do Conceição.
            Relatos como este estão cada vez mais escassos. Os detentores de tais histórias as guardam para si, por não terem com quem compartilhar, ou simplesmente deixam que o tempo os leve através do esquecimento.
             Só para ficar registrado, estamos em março, hoje é dia 06. O que será que a dupla São José e Conceição nos reserva para este ano?

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