quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Roxinha

A hora de deixar a cama para a lida diária era anunciada bem antes do nascer do sol, pela latomia das aves. O galo era o primeiro a prever que a aurora se aproximava, seguido pelos curicacões, saracuras, sabiás e por outros habitantes daquele brejo. O ouvido era o sentido que acordava primeiro.
De olhos ainda fechados, podia ouviu o barulho dos pássaros, e de longe conseguiu distinguir o berrar dos bezerros apartados chamando por suas mães. Era hora de se levantar, as vacas têm hora certa para a ordenha, qualquer descumprimento de horário, resultaria na míngua do leite. De um pulo, o pai jogou suas cobertas quentinhas para o lado e saltou para o chão batido de seu quarto. Quando chegou na cozinha, o café recém coado e o biscoitinho de polvilho frito já o esperavam. A esposa zelosa, não deixava o marido sair sem um tira-jejum.
Antes de tudo era preciso acordar os meninos. O pai tinha um modo peculiar de fazer isso: os despertava dando-lhes uma apertada de leve no nariz.. Nunca soube se os pequenos acordavam pela falta de ar, ou era o barulho da gargalhada paterna, que por fim acordava a casa inteira.
O pai tomou seu café, e lembrou a esposa da difícil missão que os esperava: Roxinha havia parido durante a noite.
Roxinha era a vaca mais velha do curral. Era enorme, de cor marrom e com um perfeito par de chifres. Mais da metade do rebanho descendia dela. Tinha filhos, netos, bisnetos e até tataraneto. Era mansa que fazia até dó. Todos da casa beberam leite dela, o caçula quando largasse o peito com certeza ia beber também. Era nela que os meninos aprenderam a tirar o ordenhar, em suas tetas molinhas, que jorravam tanto leite que quase enchia o latão. Só que no dia que paria, ela se transformava, parecia um cão raivoso. Investia até no vento. Era a vaca que mais dava trabalho. E Roxinha havia parido a noite.
O pai havia se precavido, na noite anterior separou-a das demais, em um cercado perto do açude. Os meninos de café tomado, já estavam apostos, ansiosos para enfrentá-la. Mas o pai, com toda calma do mundo, preferiu primeiro tirar o leite das outras, assim ficaria mais fácil lidar com ela no curral.
Terminada a tarefa, seguiu o comboio. O pai a pé de laço em punho, acompanhado por dois cachorros, e os meninos na carroça recém arreada para transportar a cria do pasto para o curral.
Perto da cerca avistaram só a mãe. O pai já havia previsto isso. Roxinha havia escondido a cria. Antes que os meninos perguntassem alguma coisa, O pai se agachou na sombra da carroça, arrancou o canivete, começou a trabalhar em um cigarro de palha, e balbuciou:
-Vamo esperá Roxinha mostrar o esconderijo, a cria tem que mamar. Nós não precisa ficar aqui, eu vou tratar dos porco, e ocêis fica com o zóio grudado nela.
O pai se levantou soltando um trago. Os dois meninos ficaram lá. Colocaram a carroça na sombra e vigiaram. Vaca recém parido tem este costume de esconder a cria, algumas ficava dias com o bezerro escondido. Não tiveram que esperar muito. Bastou um berro da mãe para cria sair saltitando de uma das muitas moitas que circundavam o açude. Era uma linda bezerrinha, muito parecida com a mãe. Pronto, era agora. Chamaram o pai, e juntos foram buscar a vaca com a sua cria.
Depois de muitos gritos, latidos, berros, chifradas e cabeçadas, conseguiram tirar a vaca de perto da cria. Enquanto Roxinha corria trás dos cachorros, os meninos furtivamente pegaram a bezerrinha nos braços e a colocaram na carroça. Subiram, os três rapidamente e a carroça de trote marchou em direção ao curral. Quando a vaca conseguiu se livrar da cachorrada se lembrou da cria e partiu a galope seguindo seus instintos.
Enquanto um guiava, os outros dois, cada um com um pau, tentavam manter Roxinha afastada da carroça até a entrada do curral.
Entraram, fecharam a porteira. Do lado de fora, Roxinha aflita bufava com um animal possuído. Lá de dentro da casa, podia-se ver através da janela outra mãe aflita, que rezava o credo, ajudada pelos filhos menores.
Depois de curarem o umbigo da bezerrinha, era hora de abrir a porteira e ordenhar a mãe. O pai abriu a porteira e deixou que a fera entrasse. Quando ela cheirou a cria, o pai percebeu que o trabalho tinha chegado ao fim. Roxinha tinha voltado a ser a vaca dócil de sempre.
O pai chamou a família para ver a bela cria. Todos entraram no curral. As crianças menores não perderam a oportunidade, alisaram com as mãozinhas tanto a filha, como a mãe.
O pai repetiu o que todo mundo já sabia:
- Essa vaca já tá veia, mas é uma veia enxuta. Ainda vai ter muitas cria. Vai morrer de veia quando aposentar. Nunca vou vender ela.
Mas não foi de velhice que Roxinha morreu.
Alguns dias depois, na hora de tirar o leite, o pai deu por falta dela. Isso nunca tinha acontecido, ela sempre ficava por perto. Mandou um dos filhos procurá-la. Pouco tempo depois ele a trouxe. O pai notou que Roxinha estava mancando. Bravo, perguntou ao filho:
- Menino, ocê jogou pedra nela?
Claro que não havia jogado, os meninos apesar de serem ainda moleques, eram muito responsáveis. O pai se aproximou e foi examinar. Não viu nada, mas achou melhor deixá-la fechada até mais tarde.
O pai foi cuidar dos seus afazeres, quando retornou ao curral, Roxinha estava deitada, ele se aproximou e notou um inchaço em sua pata traseira. Examinou mais uma vez e viu. O pai tremeu. Havia duas marcas bem finas de mais ou menos dois dedos de distancia uma da outra. Era cobra, e pelo formato da picada, era cascavel. Só um milagre poderia salvá-la. O pai pediu a esposa que fizesse promessa a São Bento, e pegou seu cavalo e saiu em disparada.
Na vizinhança havia um benzedor que havia herdado de sua mãe a sabedoria do benzimento. Ele ainda não tinha tanta experiência quanto sua predecessora, mas era a única esperança para Roxinha. Se alguém, ou algum animal fosse picado por alguma cobra, o jeito era apelar para a fé. Era fazer promessa para São bento, e procurar um benzedor.
Quando o pai ia chamar pelo benzedor, já em frente de sua casa, ele já havia aparecido na janela, e já sabia o motivo da visita. O pai imaginou que o suor do cavalo havia deletado a pressa, mas a sabedoria do benzedor ia bem mais longe. Apeou do cavalo e pediu benção, de dentro da casa, ele respondeu:
- Deus te abençoe, meu filho. Sei que o motivo da visita não é cortesia, e sei também que o sofrimento já cessou. Isso não mais carece de benzimento. Mas posso benzer a causadora de tudo. E você pode escolher, quer que ela apareça ou quer que ela vá para bem longe. A escolha é sua.
O pai entendeu. Já não tinha mais jeito para Roxinha. Mas poderia matar a cobra, ele a benzeria para que aparecesse em um lugar bem limpo, e assim poderia acabar com ela.
O pai agradeceu, e voltou da mesma toada que veio.
Lá da estrada, quando avistou o curral, confirmou tudo. Roxinha já não tinha mais vida.
Na casa, era só choro. A meninada toda tinha abrido o berreiro. Sua mulher com cara de choro, disse que antes de morrer Roxinha berrou desesperadamente, e que sua cria respondeu como se tivesse se despedindo. O pai, que não era muito de demonstrar suas emoções, engoliu seco, para dizer:
- Temo que enterrar ela. Não podemo deixar os urubu comer quem deu tanto pra nois.
Pegou umas ferramentas, e cavou ali por perto do curral mesmo, uma cova bem funda. Com a carroça, arrastaram o corpo até lá. Agora as marcas da picada letal estavam mais evidentes, mesmo assim continuavam a ser insignificantes, comparadas ao tamanho da Roxinha.
Após muitos dias, os meninos ainda faziam fila para verem a bezerrinha órfã mamar na mamadeira improvisada. O pai disse que ia dar tratamento especial a ela, para que um dia pudesse substituir a mãe. E todos concordaram a respeito do nome, que até hoje ninguém tinha se lembrado de escolher. Seria Roxinha.
Estavam todos no curral, entretidos com a bezerrinha. O galo e algumas frangotas com quem ele andava de namorico, passavam na frente da casa, bem no terreiro que a esposa varria todo dia de manhã. Desconjuraram, esticando o pescoço e deram o alarme. Quando ouviram, todos já sabiam. O benzedor tinha mandado a cobra para que eles pudessem matá-la. O pai pegou um pau bem comprido e foi até lá. De cima da cerca do curral, a família pode ver a cena, e pode ouvir o barulho do chocalho do bicho. O pai deu algumas pauladas e depois macetou a cabeça. Com o pau levantou a assassina: uma cascavel de quase metro e meio, com um chocalho de 15 gomos, que ele cortou para guardar. A cobra apareceu bem no limpo, durante o dia, e não deu nenhuma evidencia de querer fugir. O pai enterrou o bicho na mesma cova de Roxinha, pois era perigoso deixá-lo morto em qualquer lugar. Pois os ossos depois de um tempo viravam espinho de cobra e se alguém se espinhasse, podia se envenenar.
Depois de tudo acabado, o pai voltou para a Bezerrinha, ainda restava leite na mamadeira.


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