domingo, 8 de maio de 2011

Franguinha na panela

Marcinha não gostava de brincar de boneca, nem de casinha. Passava o seu tempo livre, que sobrava entre a escola e as tarefas, cuidando de pequenos animaizinhos.
Lurdinha, sua irmã mais velha, ganhou de presente um porquinho, que recebeu o nome de Tuíca. As duas cuidaram dele como se fosse gente. Quando cresceu ficou muito assanhado, queria por tudo namorar. Ele se assanhava para cima do cachorro, da vassoura, e das pernas de quem tivesse por perto. Não deu outra, o pobrezinho acabou castrado. Recuperou-se rapidinho e depois disso só queria comer. Comia tudo o que via. O pai disse uma vez que ele só não comia as donas porque elas não ficavam deitadas perto dele.
A comilança e a boa vida o fizeram muito gordo, e o inevitável apesar do grande protesto, aconteceu: o Tuíca acabou indo para a panela. Desde então, ficaram proibidas de criar porco. Lurdinha passou a cuidar de gatos, e Marcinha de pintinhos órfãos.
Lurdinha já mocinha, adotou uma gata. Que pouco tempo depois já tinha rendido outras cinco cabeças. Na fazenda havia sempre algum caso de abandono por parte de alguma galinha desnaturada. Quando não havia, Marcinha se encarregava de arrumar algum pintinho desgarrado.
Seus pintinhos levavam vida de rei. Ela andava longe atrás de um cupim do cerrado bem fresquinho. Era só quebrá-lo e dar como banquete para os pintinhos. Diziam que era fortificante. A taxa de mortalidade era altíssima, muitas vezes por excesso de zelo. Para substituir as penas maternas, empacotava-os com tanto esmero , que de tão aquecidos, acabavam sufocados. De frio não morriam, mas sim de calor. No dia seguinte quando abria a caixa que servia de dormitório, estavam duros. Chorava litros de lágrimas, ficava sem comer, e se isolava no quarto por algumas horas, mas lá na casa todos já estavam acostumados com o luto e o choro, sabiam que logo passava.
Os sobreviventes eram soltos durante o dia, e a noite ela os recolhia para dormirem em segurança. Quando uma tempestade se anunciava, Marcinha saia louca procurando seus filhotes desgarrados. Chamava-os, e todos vinham rapidamente. Já pegou muito resfriado, correndo debaixo de chuva a fim de recolher algum desgarrado.
A maioria dava para a sua mãe quando estavam fora de perigo, já grandinhos. Mas sempre tinha os especiais. Aqueles que morriam de velho no terreiro.
A fim de protegê-los da panela ela os marcava. Marquinha esta, era a diferença entre virar jantar ou ter uma vida tranqüila até a velhice. Os reis, ou rainhas vitalícios do terreiro eram marcados com uma argolinha no pé. Sempre que precisava me ausentar, deixava mil e uma recomendações para que cuidassem de seus rebentos.
Depois de uma dessas ausências, quando chegou em sua casa com a mãe, algumas visitas e um jantar prontinho as esperavam. Seu pai fazia sala para um compadre e sua família, enquanto seu irmão, metido a cozinheiro, que adorava brincar com as panelas fazia um jantar muito cheiroso e caprichado, pois queria impressionar uma das filhas do compadre de papai, a impressão deve ter dado certo, a mocinha tempos depois entrou para a família.
Marcinha chegou cansada e com fome., só depois do jantar foi conferir seu bando, como fazia toda vez que se ausentava. Sabia exatamente onde eles se empoleiravam, contou e notou a falta de uma de suas frangotas. Marcinha não quis pensar, não quis acreditar. Seu estômago deu uma revirada e a fez lembrar do prato principal do jantar: frango ao molho. Ou melhor, era franga. Como gostaria de estar enganada. Mas não estava. Nem precisava ter contado, sabia exatamente qual delas estava faltando. Segurando o choro foi conferir onde o imão havia jogado as penas. E não deu outra. Reconheceu na hora, ali estava jogado o que restava de sua franguiinha. aquela que atendia pelo nome, era só chamar Tuti, que ela vinha correndo. A sua frangota tinha virado jantar!
Nesse momento percebeu o que tinha feito. Havia comido uma coxa. Enfiou o dedo na garganta e tentou se livrar da culpa. Não conseguiu. Marcinha soltou um grito de raiva, e como uma galinha choca, saiu em defesa de sua franguinha. Foi tirar satisfação com o irmão, nem se importou com as visitas. Ele tinha o dobro do seu tamanho, pegou-o desprevenido e conseguiu lhe dar umas unhadas. Sem saber o que havia acontecido, a mãe perguntou: “O que é isso minha filha? Cadê o respeito?” Engasgada e cega de raiva ela só conseguiu dizer: “O Jorge cozinhou a minha Tuti, e vocês comeram ela, tadinha! E ainda deixaram que eu comesse também!” Sua pediu licença para as visitas e levou Marcinha para o quarto. “Chega de frango com pulseira e fique aí no quarto, vou lá na sala tentar limpar a sua bagunça, tentar explicar o que aconteceu.” Só restava a Marcinha era chorar, abriu o bocão e chorou enquanto tinha lágrimas. Só parou quando pegou no sono. Enquanto dormia, sonhou que sua Tuti tinha ido para o céu das galinhas e lá estava feliz, tinha ganhado asas que a fazia voar de verdade, como um passarinho.
No dia seguinte, após mais uma bronca da mãe, seu pai chegou do cerrado com filhote de papagaio dentro do chapéu: “Aqui filha, esse nenhum de nós vai comer!” Marcinha olhou maravilhada para aquele bichinho peladinho que sacudia a cabeça para cima e para baixo, ela já o amava. Jorge deu uma risada e disse: “Nós não comemos, mas os gatos da Lurdinha...”

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