segunda-feira, 11 de julho de 2011

Carece ou não fugir da morte?


A morte é a única coisa certa na vida. Desde o dia em que nascemos, a cada minuto que passa, ficamos mais próximos dela.
João Careceu morria de medo de morrer.  Desde que se entendeu por gente tinha pavor de velórios. Cortava voltas de cemitérios e nem sequer pronunciava a palavra morte, pois acreditava que a cada pronuncia a dita cuja dava mais um passo em sua direção.   Vivia a procura de benzimentos e rezas que o protegessem da ceifadora implacável. 
Certa vez procurou um vidente, este previu dia e hora exatos que João passaria desta para a melhor.
Segundo o tal do vidente, o dia tão temido para João, seria dali a 15 anos. Meio atônito com a notícia recebida, João do Careceu fez uma promessa: o tempo que lhe restava seria utilizado para arrumar alguma solução no sentido de adiar, ou mesmo neutralizar a tal da premonição.
Se a procura pelo sobrenatural já era grande antes do tal do aviso, depois então era que João não parou mais.
Em sua procura arrumou várias simpatias, mantras, trabalhos, rezas brabas. Muitos lhe afirmaram que se o “benzimento” não funcionasse, ele poderia voltar que o dinheiro seria devolvido. João só não recorreu a um pacto porque se tinha uma coisa que temia mais que a morte, era os caldeirões do bicho ruim.
O  dia marcado se aproximava e nada de João encontrar algo que realmente funcionasse.  Já desesperado, na véspera  da data prevista, recorreu a um último recurso: raspou a cabeça, deixou sua carteira e documentos e  se vestiu como um mendigo. Na rua, se misturou aos sem-teto que por ali perambulavam. “Ninguém o reconheceria, ali no meio de tanta gente igual. Nem a morte seria capaz de identificá-lo.” Pensava, enquanto estendia um copo vazio à procura de alguma esmola, tentando imitar  os que estavam a sua volta.
João se estalou bem de frente a torre da igreja, de lá poderia avistar o relógio, que media o tempo tão devagar que os minutos pareciam séculos.
De cabeça baixa, João percebeu uma sombra se aproximando. Levantou os olhos e viu um homem, vestido de preto. Pensou ser um transeunte qualquer, mas o indivíduo de presença tão marcante e ao mesmo tempo tão sutil, parou diante de João Careceu, estendeu a mão, deixou cair uma moeda no seu copo vazio, e disse: “ Eu tinha um encontro  hoje, bem aqui neste lugar, nesta hora. Parece que a pessoa não veio.  De qualquer forma, tenho que levar alguém comigo. Se não tem tu, vai tu mesmo!”
Mais tarde, quem passou pelo local, soube que ali morrera um mendigo. De frio, talvez. Indigente, não  careceu nem de velório e nem de lápide.  

http://www.recantodasletras.com.br/contos/3088916

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