sexta-feira, 4 de novembro de 2011

A casa de Dona Flor e sua vizinhança

Ciço era um rapaz simples,  cuja maior  alegria era visitar uma certa casa, lá pelas bandas do cemitério. A casa de Dona Flor, onde as mulheres de vida fácil arrancavam todo o seu dinheiro.   Só ia embora, se a casa fechasse ou se o seu vintém suado acabasse.
O rapaz sonhava que Dona Flor transferisse seu estabelecimento para outro local,  com vizinhos vivos,  de preferência.  Não havia atalho, nem escapatória, para se chegar e se sair da tal casa, tinha que se passar pela rua do cemitério. Para Ciço, seguir aquele caminho , altas horas da noite não era muito agradável. Ficava com os pelos em pé só de pensar que aquelas histórias horríveis que se ouvia sobre o lugar, “Deus o livre” acontecesse com ele. Muitas eram as histórias de assombração, e pouca era a coragem de Ciço. Ele sabia que para alcançar a tal da flor, teria que passar pelos espinhos, e não desistia, se virava  como podia  para driblar seu medo na hora de ir para casa.
 Naquele dia, lá pelas tantas, depois de torrar todo o seu dinheiro,  já sem crédito na casa, que não aceitava fiado,  teve que seguir viagem. Pegou sua bicicleta e ficou na porta do estabelecimento, aguardando até que aparecesse alguém para lhe acompanhar na travessia.  Foi quando lhe deu uma vontade tremenda de fumar. Ao  pegar um cigarro, desequilibrou-se e deixou a  bicicleta cair no chão, quando conseguiu erguê-la,  percebeu  que um homem o observava de longe, em um canto escuro da rua.  Ciço  acendeu o cigarro e percebeu que o desconhecido  estava parado lá há um certo tempo, quem sabe também a espera de alguém que o acompanhasse na travessia. 
O tal homem fez menção com a cabeça chamando Ciço, e este não hesitou. Deu um trago, satisfeito,  jogou o cigarro no chão, pisou em cima, montou na bicicleta e alcançou o tal. Para ter a companhia,  seguiu empurrando-a  ao seu lado. Tratou logo de puxar assunto, assim nem perceberia o caminho.
- Tá calor hoje, né? Disse Ciço, querendo se enturmar.
O estranho só balançou a cabeça, afirmativamente.
-Você sempre passa por aqui, nunca te vi por essas bandas?
O homem não respondeu, mas Ciço insistiu:
 - Faço esse caminho todo dia, mas evito passar por aqui sozinho, sabe como é.
Ciço sentiu um calafrio e não conseguiu concluir a frase, pois percebeu que estavam passando bem de frente o tal do portão do cemitério.
Foi quando o estranho disse, com uma voz trêmula:
- Quando eu era vivo, também morria de medo de passar aqui!
O pobre do Ciço arregalou os olhos e sentiu  que a firmeza das pernas ia embora.  Juntou o resto de força que conseguiu,  subiu na bicicleta  e pedalou como um velocista, sem olhar para trás. Pedalava e rezava "O  Credo". Duas ações que desempenhou tão rápido, que muitas vezes embaralhava tanto a reza quanto  os pedais, mas como por um milagre conseguiu virar a esquina sem cair, e desapareceu na escuridão...
Daquele dia em diante, Dona Flor perdeu um cliente para a concorrente que ficava do outro lado da cidade.

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