José Jacintho Pereira Veiga (1915-1999) era goiano de Corumbá de Goiás, dizem dever a escolha de seu nome literário à ajuda de Guimarães Rosa que, com argumentos tirados da numerologia e estilísticos, sugeriu: José J. Veiga, na altura da publicação do livro de estréia "Os Cavalinhos de Platiplanto", em 1959.
O goiano publicou vários livros: "Sombras de Reis Barbudos", "A Estranha Máquina Extraviada", "Objetos Turbulentos", "De Jogos e Festas", "A Usina Atrás do Morro", "Aquele Mundo de Vasabarros" e "Os Pecados da Tribo", entre outros. A crítica não entra em um consenso quanto à classificação de sua obra: já foi chamada de regionalista goiana, conto rural, realismo mágico, fantástico, alegórico, entre outras classificações. Também experimentou vários gêneros, desde o conto, a novela, o romance , até a fábula. Teve seus livros lançados nos Estados Unidos, Inglaterra, México, Espanha, Dinamarca, Suécia, Noruega e Portugal. Ganhou a versão 1997 do Prêmio Machado de Assis, outorgado pela Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto de sua obra. Morreu no Rio de Janeiro, com 74 anos.
Veiga faz proveito das paisagens goianas em sua obra, além de tipos, linguagem e costumes locais, porém em um plano mais de invenção que de relato, pois apesar de privilegiar espaços do meio rural, pequenos povoados de Goiás, onde buscava histórias sobre o homem oprimido por violências de diferentes tipos de poder, a sua individualidade se afasta do regionalismo, indo além. Como diz Agostinho (1990), possui estilo próprio, pois parte do regionalismo, num conceito menos restrito, e envereda para o fantástico moderno. Ele via a realidade mais profundamente, enxergando suas camadas mais profundas. Contempla temas contemporâneos, como a relação de opressão e invasão do campo pela cidade tratados em um universo que pode estar em qualquer tempo e lugar, mas sempre em cidades e povoados pequenos.
O seu conto “ A Máquina Extraviada” é uma narrativa que a partir da observação de um narrador, conta o desenrolar de uma situação vivida por personagens típicos do cotidiano, em uma cidadezinha pacata e interiorana. O leitor se depara com um mistério. Uma máquina foi extraviada de seu destino, não se sabe por quem, e nem por que, e é descarregada e deixada em frente à prefeitura de uma cidadezinha do interior, que tem todo o seu cotidiano transformado com a presença do tal artefato. O autor está falando alegoricamente sobre a invasão do novo, do diferente, das novas descobertas tecnológicas, O fascínio que as pessoas em geral têm pelo desconhecido, pelo inexplicável e como tudo isso pode mudar a vida das pessoas.
Na narrativa, o narrador dirige-se a seu compadre, que é familiarizado com o lugar onde os fatos acontecem, e que sempre pergunta sobre as novidades. Entusiasmado, por ter uma novidade importante para contar, relata o acontecimento que mudou o cotidiano da cidade. Uma máquina, desmontada, sem uma significação concreta, é deixada na porta da Prefeitura. Os únicos que poderiam dar uma explicação para o acontecimento, seriam os entregadores, porém não deram “abertura” para que a população local fizesse as perguntas necessárias para desvendar o mistério, indo embora sem dar nenhuma explicação. Apesar de serem “apenas” os entregadores da máquina, esses homens se sentem acima dos moradores locais, ignorando-os. Tal atitude é previsível diante da hierarquia do progresso, eles se sentem privilegiados e vêem os outros como inferiores. O que supostamente possui maior acesso às novidades, direta ou indiretamente, oprime os que vivem a margem do progresso.
Deixada ali, coberta com uma lona, que foi retirada na primeira oportunidade pelas crianças, a novidade atrai a atenção de toda a cidade, desde o prefeito, que incumbiu um funcionário para manter sempre polida as engrenagens, e um beberrão que ficou preso nas ferragens da máquina, após uma bebedeira, o que causa a amputação de sua perna. Com isso, ele usa o seu tempo livre para cuidar da máquina e poli-la. As crianças são mais suscetíveis às mudanças, se adaptam mais rapidamente e são “presas” mais facilmente às novidades, juntamente com os jovens. Veja que são elas que tiram a lona que encobria o objeto, levando ao conhecimento de todos o que estava encoberto. São elas quem se familiarizam primeiro, que tocaram primeiro, seja pela simples curiosidade infantil e pela facilidade que têm em assimilar o novo. Até o homem mais corajoso da cidade, conhecido como derrubador de bois pelos chifres, respeita a seu modo a máquina. O encanto chega até nas velhinhas, que quando passam pela máquina a caminho da igreja, fazem uma espécie de reverência com a cabeça. O único que se mantêm imune ao acontecimento é o padre, chamado pelo narrador de velho ranzinza. A única pessoa em uma cidade que demonstra uma aversão à máquina, o padre nos remete a uma pequena parcela diferente da sociedade que tende a negar o que é novo. Pessoas arraigadas à tradição, avessas às novas tecnologias.
A estranha máquina se torna objeto de adoração, até milagres lhe são atribuídos. Um monumento que muda as conversas, os hábitos da cidadezinha. O povo simples, fascinado pela novidade, inicia uma espécie de culto à máquina. Tudo o que acontece de importante na cidade, acontece ali, aos pés da máquina. O universo interiorano entra em choque com a invasão da máquina , acarretando um estranhamento cultural. A aparição do inusitado, do diferente causa uma quebra na linearidade dos acontecimentos locais. A simples ameaça de terem levado dali o objeto de adoração, causa receio à população. Mesmo sem apresentar um propósito real para que veio: a única vez que teve suas engrenagens funcionando foi acidentalmente, que causou uma amputação a um morador da cidade, alegoricamente denotando que nem sempre as máquinas funcionam como deveriam, ela causa um fascínio, um efeito sedutor, que suga para si a atenção das pessoas. A máquina transcende o inanimado, o inerte, tornando -se algo encantado. Exerce um domínio sobre as pessoas do lugar, domínio este que chega até as cidades vizinhas. Já existe um movimento para levá-la a monumento municipal, “por enquanto”, como diz o narrador.
Segundo Agostinho (1990), o evento novo que poderia ser apenas imprevisto, passa a exercer a função de revelador de um processo em uma sociedade. Esse evento causa tamanho impacto que revela outra face desta sociedade. Uma sociedade que se apega a valores e a coisas, uma sociedade que se deixa envolver, oprimir pela novidade, que adora um objeto só pelo fato dele ser diferente, novo, desconhecido. Como Bosi (1984) afirma, o evento novo que poderia ser visto apenas como imprevisto, exerce a função de revelador de um processo de transformação. A sociedade local se sente submissa ao progresso, aqui representado pela máquina. Há uma espécie de conflito de culturas, de um lado o mundo conservador, equilibrado, do povoado, de outro o mundo que vem do ambiente urbano, representado no conto pela máquina, que invade, contesta, manipula e oprime. Neste embate, há uma espécie de aculturamento. A cidadezinha nunca mais voltará a ser o que era depois da chegada da “máquina”. Tudo isso faz parte de uma temática de rejeição à modernidade tecnológica, vista como uma invasão sofrida principalmente pelos povos subdesenvolvidos, pelas classes menos abastadas e pelos que habitam longe dos grandes centros.
J.J.Veiga apresenta uma verdade coberta de fantasia, uma sátira disfarçada. Do corriqueiro, cenas tiradas do contexto cotidiano, do regional ele extrai situações inusitadas, chegando ao campo do insólito do fantástico, como “endeusar” uma máquina abandonada em frente ao prédio de uma prefeitura de uma cidadezinha interiorana, adorá-la como um ídolo:” Dizem que a máquina já tem feito até milagre...” .
O conto data de 1967, porém o seu tema é atualíssimo: o deslumbramento do homem perante as máquinas, a opressão que as novas tecnologias exercem sobre uma sociedade. Nenhuma nova invenção tecnológica surge impunemente. A tecnologia tem um poder transformador que transcende os seus limites. Desde hábitos do cotidiano, até a nossa própria linguagem, concepções de liberdade, a maneira de pensarmos e de agirmos. A sociedade é levada às mudanças, como uma ave para o laço, sem nos dar conta, na maioria das vezes. Isso acontece diariamente. As pessoas vivem em uma condição de reféns da tecnologia. A cada dia se tornam mais dependentes dela. Ao ponto de uma queda de energia fazer parar uma cidade de um milhão de habitantes.
J. J. Veiga percebeu que a sociedade está refém do novo. Como continua sendo hoje refém da “última geração”, seja disto ou daquilo (celular, carro, relógio), ela vive escravizada pela última moda, pelo consumismo. Uma opressão silenciosa, que age cautelosamente, com maior ou menor densidade atinge diversas camadas da sociedade (senão todas). Poucos estão imunes, só alguns, assim como o vigário do conto, que se recusa a aderir ao movimento.
O impacto causado por algo novo, diferente, em uma população acostumada com as grandes novidades tecnológicas é grande. Imagine em uma pacata cidadezinha interiorana , onde o tempo parece não passar, onde não há novidades importantes. Mesmo ali desmontada, sem desempenhar a função para qual foi construída, exerce poder sobre as pessoas.
Antes de anunciar uma ameaça à sociedade local, esse relato prenuncia a uma beleza poética que acena para uma verdade original, a ameaça que pesa sobre o homem, não vem, em primeiro lugar, das máquinas e equipamentos técnicos, cuja ação pode ser eventualmente mortífera, mas do próprio homem que está por detrás destas máquinas.
O contista goiano J.J. Veiga é conhecido como um autor criador de contos fantásticos e absurdos. Mas um de seus temas recorrentes é a retratação da relação de opressão e invasão do campo pela cidade. Como o novo que vem de fora sobrepõe a tradição das pequenas cidades. O novo oprimindo o antigo, o tradicional. Ele trabalha com o universo interiorano, e a sua população simples, que se vê transformada mediante a chegada de algo que vem de fora.
SOUZA, Agostinho Potenciano. Um olhar crítico sobre nosso tempo. Campinas: Unicamp, 1990.
VEIGA, José J. A máquina extraviada. In: A estranha máquina extraviada. 11. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002.
Nenhum comentário:
Postar um comentário