domingo, 13 de dezembro de 2009

A NATUREZA E O HOMEM EM “NINHO DE PERIQUITOS” DE H. C. RAMOS

A palavra Ecologia etimologicamente vem da junção de duas palavras gregas: Oikos, que significa: habitação, e leguein, a aportuguesada  “logia”, e quer dizer tratamento sistemático de um tema. Ou seja, falar de ecologia, é falar de nossa habitação maior, como dizem na biologia, nosso habitat: a natureza.
A relação entre Literatura e Ecologia não é algo novo, pois podemos encontrar em textos literários , desde os mais remotos, a ligação entre homem e natureza.
Para o presente trabalho escolhi o conto “Ninho de Periquitos” do escritor goiano Hugo de Carvalho Ramos (1895-1921). A escolha se deu pelo fato de que ao ler seu livro de contos “Tropas e Boiadas”, me deparei com um autor que tinha grande apreço pela natureza, especialmente pela fauna e flora de nosso estado. Seus contos estão “recheados” de periquitos, marias-pretas, urutus, manjericões, sucupiras, ingazeiras, tatus, e outros animais e árvores tão familiares aos goianos que cresceram no interior do estado. Ao lê-lo pude ter contato com as raízes de nosso estado, de nosso povo, como era a relação entre homem e esta natureza, em outros tempos. Alfredo Bosi diz que os contos de Tropas e boiadas, revelam plena aderência aos mais variados aspectos da natureza e da vida social goiana que reponta vigorosa em toda parte. É por isso que ao ler “Tropas e Boiadas” podemos tirar conclusões de como era, de como é, e de como será nosso sertão. O livro reúne vários contos, Ninho de Periquitos foi o escolhido pelo fato de fazer parte das histórias que eu ouvia na infância. Um homem, que cortou a própria mão após nela ser picado por uma serpente cuja peçonha lhe seria letal.
O conto fala de Domingos, um homem da terra, que dela tira tudo o que precisa. Que no dia do aniversário de seu filho Janjão, vai lhe buscar como presente, filhotes de periquitos, que estão em um ninho localizado dentro de um cupim abandonado. Ao enfiar a mão no buraco que dá acesso ao ninho, é picado na mão por uma cobra que possui veneno letal. Domingos, antes que o veneno se espalhe pelo seu corpo, decepa a própria mão com um golpe de foice.
É um conto regionalista, onde estão presentes os costumes de uma época e lugar. Os indícios do tema “natureza” já são percebidos no título: Ninho de Periquitos. Periquito é uma ave típica do cerrado, que faz seus ninhos em buracos de árvores, e em outras cavidades abandonadas encontradas no cerrado. Faz ainda parte da cultura de alguns grupos sertanejos capturar seus filhotes utilizá-los como animais de estimação.
A narrativa segue do começo ao fim enumerando e descrevendo aspectos da vida de um sertanejo. Os fatos se iniciam já no virar da tarde de um domingo quente de verão, no qual Domingos após se alimentar de uma “ cuia de jacuba de farinha de milho e rapadura” e se entreter dando “uns respondos na viola” em sua “rede de embira” se levanta e vai afiar sua foice em uma pedra. Podemos perceber que nesta série de elementos que compõem a cena descrita, apenas dois não são extraídos diretamente da natureza: a viola e a foice. Ele retira dela seu alimento: a farinha de mandioca e a rapadura, sua rede de embira (uma fibra retirada de folhas de plantas como a bananeira e a palma) , e ainda a pedra que afia a foice. Isso nos mostra a relação de dependência que tem Domingos com relação à natureza. Dependência esta, que é reforçada no decorrer da narrativa: “[...] véspera da colheita. O milharal estendia-se além, na baixada das velhas terras devolutas, amarelecido já pela quebra, que realizara dias antes.” ; “ Enquanto amolava o ferro, no propósito de ir picar uns galhos de coivara no fundo do plantio para o fogo da cozinha.”; “ andou lá pelos fundos da roça, a colher uns pepinos temporões.”; “as alpercatas de couro crú”. Observe nos trechos selecionados que Domingos retira da natureza praticamente tudo o que precisa para sobreviver.
Os fatores climáticos também estão em comunhão com as necessidades do sertanejo: “o veranico que andava duro na quinzena”. Os sertanejos denominam de “veranico” período de sol em tempo de chuva, em Goiás especificamente há o que chamam de veranico de janeiro. Quinze dias de sol em pleno verão ajuda em tempos de colheita.
No conto há uma referência às queimadas, que em terras de cerrado, tinha (ainda têm) época certa:”[...] galgou a barroca fronteira e endireitou rumo a maria-preta,[...] toda tostada desde à época da queima pelas lufadas de fogo que subiam da malhada.” (pág. 66). Hugo descreve a natureza goiana tão bem que fica difícil não imaginarmos as labaredas lambendo a árvore, e a deixando “tostada”. As queimadas usadas pelo sertanejo para “limpar” o solo do capim seco e das pragas, queimavam tudo o que tinham à frente, inclusive árvores e animais.
Podemos dividir o conto em duas partes. Na primeira, a narrativa descreve aspectos da vida sertaneja, a segunda, a narrativa caminha para seu clímax: o filho pede que o pai lhe busque os filhotes, este reluta em acatar o pedido do filho: “Ora, deixassem lá em paz os passarinhos.” Mas como é dia do aniversário do menino, “não valia por tão pouco amuá-lo.” (pág 65). Domingos acaba indo buscar os periquitos. Até o presente de aniversário do filho é retirado da natureza.
A cobra aparece como obstáculo entre os periquitos e Domingos. Ele o fere, e lhe transmite seu venenoletal. O réptil estava dormindo, poderia estar também aproveitando a “canícula” do virar da tarde, tal como Domingos no início da narrativa, acordado, age por instinto e o pica, e já “preparava-se para novo ataque ao inoportuno que viera arrancá-lo da sesta; e pó caboclo, voltando a si do estupor, num gesto instintivo, sacou da bainha o largo jacaré inseparável, amputando-lhe a cabeça dum golpe certeiro.” (pág. 66). O sertanejo, por instinto decepa-lhe a cabeça e depois a própria mão. O bicho era uma cobra denominada Urutu, e contra seu veneno, nem a “mesinha doméstica, nem a dos campos, possuíam salvação.” O homem do sertão também retirava da natureza antídotos para algumas peçonhas. Só que a natureza também tem seus percalços. Para esta não havia remédio, nem salvação. A única solução possível seria retirar o veneno, amputando a parte afetada, antes que este se espalhasse.
O sertanejo mantém uma relação de dependência e de exploração com a natureza. Ele só existe porque a natureza lhe dá tudo o que ele necessita. Desde a alpercata de couro crú até os remédios tirados das plantas. Porém a natureza é apresentada de forma traiçoeira, como se fosse um antagonista, que passa a narrativa inteira em uma condição de serva do homem, servindo-o em todas as suas necessidades, e após ganhar a confiança do personagem o ataca pelas costas. A cobra ganha status de personagem, pois tem importância fundamental na narrativa.
O fato de a cobra o picar impiedosamente pode ser uma espécie de vingança. Ele não estava ali por acaso, estava se protegendo também, e os filhotes de periquitos que não aparecem na narrativa, podem ter sido devorados pela serpente, que após o “almoço”, acorda incomodada pelas mãos invasoras do sertanejo, e se defende, mordendo-o. A natureza sempre é “acordada”, incomodada pelo homem, que a explora, que a modifica. Primeiro ele decepa a cabeça da cobra, depois o próprio braço. Ele revida a vingança, o ataque. Isso demonstra a prepotência do homem perante a natureza. Se sente senhor, dono. Porém os dois saem decepados. Uma analogia pode ser feita entre os ataques da natureza ao homem, e os ataques do homem à natureza. Ambos saem mutilados. Ambos saem perdendo. No conto, a cobra perdeu mais, perdeu a vida. A natureza se vinga, mas na maioria das vezes sai perdendo.



Bibliografia:

BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 43ª Ed. São Paulo. Cultrix: 2006

RAMOS, Hugo de Carvalho. Ninho de Periquitos In: Tropas e Boiadas. Rio de Janeiro. Lacerda Editora: 2003

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