quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Agosto em Goiás é de dar gosto

Vento, ar seco, poeira, fumaça, vegetação seca. É o mês de agosto em Goiás. A seca que nos visita todo ano. Normalmente de maio até meados de setembro, se as interferências do aquecimento global não alongar ou encurtar o período.
O cinza predomina na vegetação. Às vezes, quando miramos o horizonte nas terras altas do planalto central, nem dá para separar o que é terra do que é céu, pois tudo se torna enfumaçado. Parece que a vegetação dorme, algumas árvores parecem mortas. Da exuberante copa que as cobriam nos meses de chuva farta, só restam galhos sem folhas e retorcidos. Olhos menos atentos afirmariam que a vida abandonou o cerrado. A monotonia do cinza impera em todas as direções. Salvo nos brejos e veredas, onde o verde dos buritis é uma constante o ano todo. Ficam secas, e só sobrevivem às labaredas que lambem nossos campos, por causa de suas cascas grossas, que agem como uma armadura forjada pela evolução. Como nós, antes de um grande baile, tiramos uma soneca, o cerrado parecem dormir... Cerrado, fechado, como se estivesse hibernando. Como se estivesse economizando energia para um grande evento que está por vir.
Mas em um passe de mágica, o inesperado acontece! Galhos secos e retorcidos se cobrem de cor, de beleza, de vida. As cascas grossas, antes uma característica predominante, agora são assessórios coadjuvantes, que vão cedendo lugar à majestosa vestimenta.
Uma explosão de cor invade o cerrado. Por toda parte, ipês, caraíbas, pequizeiros, ingazeiros, cajueiros... Grande parte das arvores típicas do cerrado floresce durante este mês. Frutíferas ou não, as árvores se vestem de flores, que se abrem como se estivessem sincronizadas. Se aprontam, se enfeitam como protagonistas de grande um baile orquestrado pela mãe natureza.
A primavera só chega em setembro, mas por aqui o espetáculo das flores acontece antecipadamente. Somos privilegiados. Tudo isso desperta nas aves da região o romantismo. O florescer das árvores é o sinal de que a fartura de comida se aproxima, é tempo de namoro. Lideradas pelo maestro sabiá, entram na festa e fazem ecoar sob as copas enfeitadas, um canto magnífico. Canto este que mesmo vindo de espécies diferentes forma um único coro, celebrando a vida. Um chamado para o amor que engrandece ainda mais o momento.
A vegetação típica do centro-oeste brasileiro mostra todo o seu esplendor, toda a sua beleza, mesmo no meio da escassez de chuva, dos galhos aparentemente mortos pela seca há vida, não economizam no espetáculo. Evento este, que cada vez fica mais longe dos nossos olhos, ou ocorre isoladamente em uma ou outra árvore sobrevivente da ação predadora do homem.
Infelizmente, nossas árvores tortas, depois de arderem em fornos, estão virando carvão. Cuja cor negra não é um mero acaso. É luto. Um protesto silencioso pela morte de nossas árvores. Pois cada vez mais os cenários da grande festa estão sendo tomados, dando lugar a expansão das cidades, ou a agropecuária. Exprimido entre lavouras, pastagens e cidades, o cerrado ainda se enfeita, sem saber que esta pode ser a derradeira festa.

E.Bonifácio

Nenhum comentário:

Postar um comentário