sábado, 14 de novembro de 2009

Resenha texto da Orlandi, AD

Eni P. Orlandi, em seu livro: Análise de Discurso, Princípios e Procedimentos, Ed. Pontes, 2001 , traça um percurso composto de uma diversidade de pontos que constituem a análise do discurso.
Devido às diferentes posições dos estudiosos perante a linguagem, surgiu a Análise do Discurso, que não trata da língua, ou da gramática, ainda que lhe interessem, mas do discurso. Que é a prática da linguagem. Trabalha com homens falando, com a as condições de produção desta fala, desta linguagem. Leva em consideração o discurso como objeto sócio-histórico, reflete sobre como a linguagem e a ideologia estão “atreladas” uma na outra.
A partir dos anos 60, a Análise do Discurso, se consolida, “bebendo” nas fontes da Lingüística, do Marxismo e da Psicanálise. A língua passa a ser vista não como estrutura, mas como acontecimento. O homem passa a ser visto como sujeito que é influenciado pela história. E a linguagem é linguagem por que tem um sentido, e só consegue ter esse sentido por que se inscreve na história. Assim, observamos que não dá para separar uma coisa da outra, estão interligadas. O sentido do discurso depende do sujeito que o produz, ou do sujeito que o interpreta. A análise do Discurso, visa a compreensão de como um objeto simbólico produz sentidos. Que os sentidos não estão só nas palavras, mas têm relação direta com o ‘mundo exterior” nas condições em que são produzidos e que não dependem só das intenções dos sujeitos.
Orlandi menciona as condições de produção, que compreendem os sujeitos e a situação. Assim como a memória, o conhecimento pré-adquirido, o que já foi dito antes em outro lugar, ou seja, a memória discursiva. As condições de produção estão relacionadas ao contexto imediato, que seria o momento, o contexto sócio-histórico, ideológico. Daí vem a diferenciação de interdiscurso e intradiscurso. Interdiscurso, seria os dizeres já ditos, e intradiscurso, aquilo que esta sendo dito no momento, diante das condições dadas. A autora lança a pergunta: “Por que somos afetados por certos sentidos e não outros?”Segundo a autora, “o que fazemos ou deixamos de fazer no ponto de vista discursivo é influenciado pela nossa relação com a língua e a história, por nossa experiência de mundo, através da ideologia.” (pag. 34). A partir daí, a leitura discursiva buscando interpretar o que é dito, considera o não dito. O que está amostra é apenas a ponta de iceberg.
O interdiscurso é afetado pelo esquecimento, a autora cita Pecheux (1975) pois para ele, pode ser de duas formas: O porquê de usarmos um termo, uma palavra a outra, sendo que são sinônimos, têm o mesmo sentido. Por exemplo, utilizamos “sem medo” ao invés de dizermos “com coragem”. O que dissemos está ligado ao que pensamos. O pensamento ligado a linguagem do mundo. O outro tipo de esquecimento está ligado ao modo que somos afetados pela ideologia. Enquanto pensamos estar dizendo algo novo, estamos retomando discursos pré—existentes.
O funcionamento da linguagem está entre os processos parafrásticos e os polissêmicos. Parafrástico é aquele que se mantém em todo dizer, o dizível, a memória. E polissêmico é o deslocamento, a ruptura de processos de significação. Em outras palavras, paráfrase é a matriz do sentido, e polissemia é a distinção do significado com relação ao contexto.
Não há discurso que não se relacione com outros. Todo discurso está inserido num processo discursivo continuo. E as palavras mudam de sentido segundo as posições daqueles que as utilizam, de acordo com a ideologia.
Os sujeitos e os sentidos são constituídos e determinados pela ideologia, que segundo Pecheux, dissimula sua existência no interior de seu próprio funcionamento. “A ideologia não afeta o sujeito, ela o constitue”. (pag. 46).
A autora discute sobre o sujeito da sociedade atual. Que é ao mesmo tempo livre e submisso. Livre por poder dizer tudo, e submisso por ter que recorrer a língua para fazê-lo.
O processo de significação da linguagem é incompleto, aberto . E é justamente por essa abertura que esse processo é determinado. Tanto pela paráfrase, tanto pela polissemia, quanto pela metáfora. O sentido é determinado por inúmeros fatores, o que o faz aberto.
Orlandi lança a pergunta: “Se a linguagem funciona deste modo, como deve proceder o analista?” Como deve interpretar um discurso? A autora propõe a adoção de um “dispositivo de interpretação” que colocaria” o dito em relação ao não dito, o que um sujeito diz em um lugar com o que é dito em outro lugar, o que é dito de um modo, e o que é dito de outro”.
Não se pode aprender uma ideologia e não se pode controlar o inconsciente com o saber. Assim todo enunciado está suscetível a mais de uma interpretação dependendo de quem o interpreta, poderá tornar-se outro. Uma mesma palavra pode ter vários significados, assim como um discurso também.
A autora chama a atenção para o fato de um texto não ter uma extensão definida, que ele pode ser tanto escrito, quanto oral. É um texto por que tem significado. E esse significado não está pronto, acabado. Pode ser interpretado de diferentes formas, segundo cada sujeito que o interpreta. Pois há conceitos individuais que contribuem para essa interpretação, como a ideologia, a memória discursiva, além se outros fatores.
Assim, a autora mostra que não existe linguagem inocente, há sempre algo, por trás. De acordo com as teorias apresentadas, inaugura-se novas práticas de leituras. Assim como não há linguagem inocente, não devemos ler inocentemente. Que a linguagem é um campo muito vasto, o qual só uma análise discursiva pode explorar.

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