A música com referência ideológica existe há muito tempo, mas foi a partir da década de 1960 que ganhou popularidade, com o rock de Beatles e Rolling Stones. Questões como, por exemplo, discussões em favor da liberdade de expressão, pelo fim das guerras e do desarmamento nuclear, idealizando um mundo de “paz e amor”. Exaltação de novas ideologias, e de outras nem tão novas assim. No Brasil, não foi diferente. Em 1964, a repressão e a censura instauradas pelo regime militar deram origem a movimentos musicais que viam na música uma forma de criticar a sociedade .
Na música Eduardo e Mônica, do álbum "Dois" da Legião Urbana, de 1986, a letra fala do encontro e envolvimento amoroso de um casal Mônica e Eduardo. A figura masculina (Eduardo) é alienada e inconsciente, enquanto a feminina (Mônica) é descrita como mulher forte, “antenada”.
No início da música há um refrão: (Quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração? E quem irá dizer que não existe razão?), o autor já começa contando com as formações imaginárias do seu interlocutor, pois o chama para um dialogo, lançando uma pergunta para qual, a formação imaginária de ambos já tem a resposta: As coisas do coração não tem explicação.
Já no começo da letra, o autor é parcial, cita características que engrandece Mônica com relação a Eduardo. Insinua que Eduardo seja preguiçoso e indolente (Eduardo abriu os olhos mas não quis se levantar; Ficou deitado e viu que horas eram), ao mesmo tempo que tenta dar uma imagem independente à Mônica (enquanto Mônica tomava um conhaque noutro canto da cidade como eles disseram). Enquanto Eduardo ainda estaria acordando, Mônica já estava tomando conhaque. A música já começa com um intertexto claro com um ditado popular, que diz o seguinte: “Enquanto você está indo, eu já estou voltando.
Dois jovens se encontram por acaso, conversam, se conhecem, trocam telefone e marcam um novo encontro. Ocasião na qual Mônica começa a impor suas preferências, uma constante, em oposição a uma humilde proposta de Eduardo (O Eduardo sugeriu uma lanchonete, mas a Mônica queria ver filme do Godard). O encontro se realizou num parque da cidade. Mônica coloca Eduardo em uma situação inferior. Ela vai de moto ao encontro, enquanto ele comparece de “camelo”, ou seja , de bicicleta.
Em outro momento o autor deixa claro que Mônica estava em um patamar intelectual situado bem acima do que se encontrava Eduardo (Ela fazia Medicina e falava alemão e ele ainda nas aulinhas de inglês. Ela gostava do Bandeira e do Bauhaus, de Van Gogh e dos Mutantes, do Caetano e de Rimbaud. E o Eduardo gostava de novela, E jogava futebol-de-botão com seu avô). Mônica sempre engrandecida, pois fazer um curso altamente concorrido como medicina, falar alemão, gostar de poesia, música, arte , não é para qualquer um. Enquanto Eduardo um “crianção” assiste novela, e joga botão com o avô. Por outro lado, pela primeira vez é mostrado o lado família de Eduardo, o rapaz que dá atenção ao avô idoso. Notamos também como as palavras podem ter diferentes sentidos, conforme o “lugar” que são utilizadas. As palavras “ainda” e “aulinha” aqui (e ele ainda nas aulinhas de inglês) adquirem um significado negativo, que chega quase ao pejorativo. Refletem a idéia de atraso intelectual, coisa sem valor, respectivamente. Ou seja, naquela idade ainda esta no inglês, enquanto Mônica já falava alemão. Enquanto Mônica fala de magia e meditação, Eduardo assiste novela, TV e freqüenta clube. O autor aqui faz uso de um discurso dos intelectuais, que aponta como “alienado” quem fica muito preso a TV e a novela. Justamente o que acontece com Eduardo.
Todo dizer está relacionado a uma memória, mobilizando um arquivo, as formações imaginárias, isto é, mobilizando os discursos relevantes que estão disponíveis acerca de uma questão. Aqui o autor se remete ao discurso que os opostos se atraem: ( e mesmo com tudo diferente, veio neles de repente uma vontade de se ver, e os dois se encontravam todo dia e a vontade crescia como tinha que ser). Os sentidos não estão soltos, eles são mobilizáveis na memória do dizer, quanto algo é dito, nossa memória discursiva busca em seu “banco de dados” o reconhecimento do discurso, e o compara a discursos já ditos. Assim fica plausível o entendimento.
Na segunda parte da música os dois já estão muito envolvidos sentimentalmente e é nítida a influência de Mônica em Eduardo. O autor usa o verbo que designa as ações da dupla, na terceira pessoa do plural. Ou seja, agora fazem as coisas juntos, e também nota-se um certo “amadurecimento”, no Eduardo, pois agora ele tem atitudes de pessoa adulta da época, a bebida o cabelo grande e o emprego, ele sofre de uma “subjetivação”, pois ele passa a assumir uma outra postura e adquire outros valores. Mudando seus hábitos, parece se adaptar à Mônica. Esta, ainda à frente de tudo, está se formando enquanto ele inda passa no vestibular: (Eduardo e Mônica fizeram natação, fotografia, teatro e artesanato e foram viajar... Ele aprendeu a beber, deixou o cabelo crescer e decidiu trabalhar, e ela se formou no mesmo mês , que ele passou no vestibular). No final da estrofe, além do verbo flexionado no plural, a união do casal é reforçada pela advérbio “juntos”, além das metáforas utilizadas: feijão com arroz e vice-versa (E os dois comemoraram juntos e também brigaram juntos, muitas vezes depois, e todo mundo diz que ele completa ela e vice-versa que nem feijão com arroz). O amadurecimento do casal se consolida com a chegada dos filhos e com a construção da casa, pois juntos vencem as dificuldades financeiras e prosperam. Mas o autor não termina a música sem mais uma prova de sua parcialidade (porque o filhinho do Eduardo tá de recuperação). É interessante notar que é o filho do Eduardo e não de Mônica, que ficou de segunda época. Deve ter herdado a “lerdeza” do pai. A música termina repetindo o refrão do início que, como no teatro, o autor se vale de um prólogo que antecipa o assunto que será abordado (Quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração? E quem irá dizer que não existe razão?). Mesmo com inúmeras diferenças, intelectual, cultural, os dois se apaixonam, há certo condicionamento comportamental da figura masculina em relação a feminina, mas nada impede que fiquem juntos e que formem uma família, com filhos gêmeos.
A letra desta música impressiona pelo sexismo estereotipado. Eduardo é salvo de sua vida medíocre graças a uma mulher “evoluída”. Podemos notar no decorrer da letra, que seu discurso é carregado de ideologias. A que fica mais evidente, é ideologia da guerra dos sexos, onde um quer superar, dominar o outro. Na visão do autor, nesta letra, o feminino é superior ao masculino e subjuga-o. Há uma “quebra” da tradicionalidade, pois nesta época, há mais de duas décadas atrás, em plena década de oitenta, quando a letra foi escrita, nossa sociedade era uma sociedade machista, bem mais do que é hoje, coloca uma mulher não ao pé de igualdade com um homem, mas superior a este. Podemos notar no decorrer da letra, que seu discurso é carregado de ideologias. Há um dialogismo de valores, a formação ideológica do autor faz sua formação discursiva colocar em “choque” valores ideológicos distintos. Pois ao mesmo tempo em que há ruptura de uns há a firmação de outros. Rompe com o machismo exarcebado da sociedade, e firma os valores da família, do casamento. Os elementos que nos mostra esse dialogismo refletem um lugar discursivo, caracterizado de um lado pela constituição familiar, pela relação afetiva entre seus integrantes e de outro os embates culturais e sociais que estão no contexto durante a produção da letra, como a firmação social da figura feminina.
A letra não deixa de ser uma metáfora, fala da supremacia dos mais bem preparados intelectualmente, não importando o sexo. Como esse grupo conquista e se impõem sobre o outro. E como o conquistado conquista o conquistador. Como se “mesclam” os conceitos, os valores. Um influenciando o outro. Pois vemos que Mônica se tornou uma mãe de família, e Eduardo mais responsável, amadureceu. E juntos vencem as dificuldades que vão surgindo, como a crise financeira que enfrentaram quando os filhos gêmeos chegaram.
O enorme sucesso da banda se valeu pela força de suas letras, que entoaram toda uma geração. Palavras têm o poder de realizar ações. A música para a maioria das pessoas é uma forma de expressar sentimentos, desejos, frustrações, conceitos que não estão muito longe da realidade. De tanto ouvir Legião Urbana, muitos jovens se tornaram mais críticos, mais engajados, seja por pura imitação (seguindo o ídolo Renato), ou por convicção própria. Pois antes do surgimento do grupo, o rock nacional não tinha um nome de peso. E como toda ação depende do contexto da situação como diz Bakhtin, as letras de Renato apareceram no lugar certo, na hora certa. Uma banda de Brasília, a capital federal, que canta músicas destinadas aos jovens libertos de uma ditadura que impunha uma série de censuras. Que fala de valores recém adquiridos e de outros de cunho mais tradicional. A história da música nacional é dividida entre antes e depois da Legião Urbana, e o Renato Russo tornou-se um ícone da música nacional. Mérito alcançado pelas suas letras.
Na música Eduardo e Mônica, do álbum "Dois" da Legião Urbana, de 1986, a letra fala do encontro e envolvimento amoroso de um casal Mônica e Eduardo. A figura masculina (Eduardo) é alienada e inconsciente, enquanto a feminina (Mônica) é descrita como mulher forte, “antenada”.
No início da música há um refrão: (Quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração? E quem irá dizer que não existe razão?), o autor já começa contando com as formações imaginárias do seu interlocutor, pois o chama para um dialogo, lançando uma pergunta para qual, a formação imaginária de ambos já tem a resposta: As coisas do coração não tem explicação.
Já no começo da letra, o autor é parcial, cita características que engrandece Mônica com relação a Eduardo. Insinua que Eduardo seja preguiçoso e indolente (Eduardo abriu os olhos mas não quis se levantar; Ficou deitado e viu que horas eram), ao mesmo tempo que tenta dar uma imagem independente à Mônica (enquanto Mônica tomava um conhaque noutro canto da cidade como eles disseram). Enquanto Eduardo ainda estaria acordando, Mônica já estava tomando conhaque. A música já começa com um intertexto claro com um ditado popular, que diz o seguinte: “Enquanto você está indo, eu já estou voltando.
Dois jovens se encontram por acaso, conversam, se conhecem, trocam telefone e marcam um novo encontro. Ocasião na qual Mônica começa a impor suas preferências, uma constante, em oposição a uma humilde proposta de Eduardo (O Eduardo sugeriu uma lanchonete, mas a Mônica queria ver filme do Godard). O encontro se realizou num parque da cidade. Mônica coloca Eduardo em uma situação inferior. Ela vai de moto ao encontro, enquanto ele comparece de “camelo”, ou seja , de bicicleta.
Em outro momento o autor deixa claro que Mônica estava em um patamar intelectual situado bem acima do que se encontrava Eduardo (Ela fazia Medicina e falava alemão e ele ainda nas aulinhas de inglês. Ela gostava do Bandeira e do Bauhaus, de Van Gogh e dos Mutantes, do Caetano e de Rimbaud. E o Eduardo gostava de novela, E jogava futebol-de-botão com seu avô). Mônica sempre engrandecida, pois fazer um curso altamente concorrido como medicina, falar alemão, gostar de poesia, música, arte , não é para qualquer um. Enquanto Eduardo um “crianção” assiste novela, e joga botão com o avô. Por outro lado, pela primeira vez é mostrado o lado família de Eduardo, o rapaz que dá atenção ao avô idoso. Notamos também como as palavras podem ter diferentes sentidos, conforme o “lugar” que são utilizadas. As palavras “ainda” e “aulinha” aqui (e ele ainda nas aulinhas de inglês) adquirem um significado negativo, que chega quase ao pejorativo. Refletem a idéia de atraso intelectual, coisa sem valor, respectivamente. Ou seja, naquela idade ainda esta no inglês, enquanto Mônica já falava alemão. Enquanto Mônica fala de magia e meditação, Eduardo assiste novela, TV e freqüenta clube. O autor aqui faz uso de um discurso dos intelectuais, que aponta como “alienado” quem fica muito preso a TV e a novela. Justamente o que acontece com Eduardo.
Todo dizer está relacionado a uma memória, mobilizando um arquivo, as formações imaginárias, isto é, mobilizando os discursos relevantes que estão disponíveis acerca de uma questão. Aqui o autor se remete ao discurso que os opostos se atraem: ( e mesmo com tudo diferente, veio neles de repente uma vontade de se ver, e os dois se encontravam todo dia e a vontade crescia como tinha que ser). Os sentidos não estão soltos, eles são mobilizáveis na memória do dizer, quanto algo é dito, nossa memória discursiva busca em seu “banco de dados” o reconhecimento do discurso, e o compara a discursos já ditos. Assim fica plausível o entendimento.
Na segunda parte da música os dois já estão muito envolvidos sentimentalmente e é nítida a influência de Mônica em Eduardo. O autor usa o verbo que designa as ações da dupla, na terceira pessoa do plural. Ou seja, agora fazem as coisas juntos, e também nota-se um certo “amadurecimento”, no Eduardo, pois agora ele tem atitudes de pessoa adulta da época, a bebida o cabelo grande e o emprego, ele sofre de uma “subjetivação”, pois ele passa a assumir uma outra postura e adquire outros valores. Mudando seus hábitos, parece se adaptar à Mônica. Esta, ainda à frente de tudo, está se formando enquanto ele inda passa no vestibular: (Eduardo e Mônica fizeram natação, fotografia, teatro e artesanato e foram viajar... Ele aprendeu a beber, deixou o cabelo crescer e decidiu trabalhar, e ela se formou no mesmo mês , que ele passou no vestibular). No final da estrofe, além do verbo flexionado no plural, a união do casal é reforçada pela advérbio “juntos”, além das metáforas utilizadas: feijão com arroz e vice-versa (E os dois comemoraram juntos e também brigaram juntos, muitas vezes depois, e todo mundo diz que ele completa ela e vice-versa que nem feijão com arroz). O amadurecimento do casal se consolida com a chegada dos filhos e com a construção da casa, pois juntos vencem as dificuldades financeiras e prosperam. Mas o autor não termina a música sem mais uma prova de sua parcialidade (porque o filhinho do Eduardo tá de recuperação). É interessante notar que é o filho do Eduardo e não de Mônica, que ficou de segunda época. Deve ter herdado a “lerdeza” do pai. A música termina repetindo o refrão do início que, como no teatro, o autor se vale de um prólogo que antecipa o assunto que será abordado (Quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração? E quem irá dizer que não existe razão?). Mesmo com inúmeras diferenças, intelectual, cultural, os dois se apaixonam, há certo condicionamento comportamental da figura masculina em relação a feminina, mas nada impede que fiquem juntos e que formem uma família, com filhos gêmeos.
A letra desta música impressiona pelo sexismo estereotipado. Eduardo é salvo de sua vida medíocre graças a uma mulher “evoluída”. Podemos notar no decorrer da letra, que seu discurso é carregado de ideologias. A que fica mais evidente, é ideologia da guerra dos sexos, onde um quer superar, dominar o outro. Na visão do autor, nesta letra, o feminino é superior ao masculino e subjuga-o. Há uma “quebra” da tradicionalidade, pois nesta época, há mais de duas décadas atrás, em plena década de oitenta, quando a letra foi escrita, nossa sociedade era uma sociedade machista, bem mais do que é hoje, coloca uma mulher não ao pé de igualdade com um homem, mas superior a este. Podemos notar no decorrer da letra, que seu discurso é carregado de ideologias. Há um dialogismo de valores, a formação ideológica do autor faz sua formação discursiva colocar em “choque” valores ideológicos distintos. Pois ao mesmo tempo em que há ruptura de uns há a firmação de outros. Rompe com o machismo exarcebado da sociedade, e firma os valores da família, do casamento. Os elementos que nos mostra esse dialogismo refletem um lugar discursivo, caracterizado de um lado pela constituição familiar, pela relação afetiva entre seus integrantes e de outro os embates culturais e sociais que estão no contexto durante a produção da letra, como a firmação social da figura feminina.
A letra não deixa de ser uma metáfora, fala da supremacia dos mais bem preparados intelectualmente, não importando o sexo. Como esse grupo conquista e se impõem sobre o outro. E como o conquistado conquista o conquistador. Como se “mesclam” os conceitos, os valores. Um influenciando o outro. Pois vemos que Mônica se tornou uma mãe de família, e Eduardo mais responsável, amadureceu. E juntos vencem as dificuldades que vão surgindo, como a crise financeira que enfrentaram quando os filhos gêmeos chegaram.
O enorme sucesso da banda se valeu pela força de suas letras, que entoaram toda uma geração. Palavras têm o poder de realizar ações. A música para a maioria das pessoas é uma forma de expressar sentimentos, desejos, frustrações, conceitos que não estão muito longe da realidade. De tanto ouvir Legião Urbana, muitos jovens se tornaram mais críticos, mais engajados, seja por pura imitação (seguindo o ídolo Renato), ou por convicção própria. Pois antes do surgimento do grupo, o rock nacional não tinha um nome de peso. E como toda ação depende do contexto da situação como diz Bakhtin, as letras de Renato apareceram no lugar certo, na hora certa. Uma banda de Brasília, a capital federal, que canta músicas destinadas aos jovens libertos de uma ditadura que impunha uma série de censuras. Que fala de valores recém adquiridos e de outros de cunho mais tradicional. A história da música nacional é dividida entre antes e depois da Legião Urbana, e o Renato Russo tornou-se um ícone da música nacional. Mérito alcançado pelas suas letras.
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