terça-feira, 24 de novembro de 2009

A Serra

A Serra


Da minha janela avisto uma Serra.
Ela sempre está lá. Quieta. Cerrada. Parece que espera algo. Entra verão, sai verão, ora mais verde, ora mais cinza, e ela lá.
Já tentei imaginar como seria a vista daqui sem ela. Nossa! Ia dar pra ver tão longe. Tantas coisas ficam escondidas lá detrás. Sei que estão lá, mas a Serra, não me deixa ver mais nada.
Não é uma Serra grande, imponente, como as doutras bandas. É uma Serra modesta, mas é uma Serra. Alguns a chamam de morro. Não gosto deste termo. Morro é o verbo morrer em primeira pessoa: Eu morro. Isso só soa bem quando dizemos, da forma exagerada que temos, algo que sentimos com intensidade: Morro de amores, morro de vontade, morro de saudade... Ou seja, no sentido que chamamos hiperbólico, exagerado. Como se não fosse possível morrer literalmente dessas coisas. Mas, deixemos o morro, e vamos a Serra.
Ela fica linda quando a aurora desponta com os primeiros raios. Parece que está sorrindo. Não sei se é de alegria, ou se é o sol, que quando aparece atrás dela, dá uma esbarradinha, e acaba fazendo cócegas. Sei que ela divide algo comigo. Cumplicidade! Deve ser isso. Acho que cerramos um pacto. Um pacto de silêncio.
Temos algumas diferenças. Já até briguei com ela, e fechei a janela. Não adiantou. Sei que está lá. Sem ver, eu sinto. Me arrependi. Sei que preciso mais dela, do que ela de mim. Tornei a abrir a janela.
Gosto de ficar olhando para ela. Seus contornos. As arvorezinhas tortas de suas encostas, a linha irregular que a separa do céu. A vida que ela abriga, dezenas e dezenas de espécies. Que a faz de berçário, de lar, e muitas vezes de sepulcro.
Em dias cerrados, ela fica meio escondida. Lá do meio das nuvens, encoberta, penso que ela também me observa. Calada. Tentando me decifrar. É para ela que conto os meus segredos, os meus sonhos. Ela me entende.
Sei que um dia vamos nos separar, irei conjugar o tal verbo em primeira pessoa. Ela vai ficar. As Serras sempre ficam. Se eu pudesse a levaria comigo, mas ela não é minha. Nem sei de quem ela é. De alguém deve ser. Tudo neste mundo, tem um dono. Ainda mais uma Serra. Uma Serra como aquela. Se fosse minha... Eu não faria nada. Deixaria assim. Como está. Ela lá e eu aqui.

E.B.S.




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